Dr Kawashima's Brain Training for Nintendo Switch quer usar os videojogos como plataforma para exercitar o cérebro de quem o adquirir. Publicada originalmente na Nintendo DS, a obra inspirada no trabalho do neurocientista Ryuta Kawashima está agora disponível também na Nintendo Switch, onde mistura exercícios antigos e novos. Semanas depois de ter começado a levar a minha massa cinzenta ao “ginásio”, são estas as minhas considerações.

Na sua essência, estamos perante uma série de exercícios que a Nintendo espera serem suficientemente apelativos para nos fazerem regressar à consola diariamente para uma curta sessão. Não só bastam alguns exercícios para que Kawashima apareça no ecrã a dizer que o treino para esse dia está feito e perguntar se queremos continuar, como o jogo tem uma opção que permite definir um alarme que nos relembra que está na hora de exercitar a massa cinzenta.

Derradeiramente, essas provas de agilidade mental e física servem para melhorar a “idade” do nosso cérebro. Brain Training tem uma secção dedicada precisamente a avaliar o progresso que a massa cinzenta vai fazendo. Isto realiza-se obviamente com uma bateria de testes: velocidade de processamento, memória de curto termo e auto-controlo. O resultado é posteriormente comparado com o que conseguimos anteriormente, permitindo assim que o jogador tenha uma representação visual do que foi conseguindo.

Não é preciso muito para se compreender que quanto menor for essa idade, em melhor forma física está o cérebro. Idealmente, uma pessoa com cinquenta anos não deverá ter uma idade mental de setenta anos. O resultado é apurado numa comparação direta com aquilo que uma amostra de 149 pessoas com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos conseguiram. Sendo uma das áreas mais importantes do jogo, não deixa de ser estranho que numa das vezes o Dr Kawashima tenha dito que eu estava cansado para quem tinha uma idade mental de 27 anos. Enganou-se nos cálculos, diz pouco depois, estilhaçando a minha alegria de ter feito um progresso impressionante.

A maneira como o jogador se prepara para estes exames é participando no principal modo de jogo, Daily Training. Quantos mais dias registarmos o treino diário e obtivermos o carimbo, mais exercícios vamos desbloqueando. A maioria é experimentada com a Switch na vertical e com o Stylus na mão. Aliás, a Nintendo quer o mínimo de interferências na nossa prestação, apresentando até uma opção que nos deixa escolher qual é a mão predominante.

Em Dual Task, por exemplo, temos que escolher o maior número entre os que são apresentados na parte inferior do ecrã. Na parte superior, uma personagem desloca-se e precisa que lhe acertemos com o Stylus para que salte sobre as barreiras. Ocasionalmente, há pássaros que não podem ser atingidos e que servem para testar a atenção. Os números começam de forma fixa, mas na parte final do exercício começam a deslocar-se pelo ecrã.

Outros exercício, Low to High, pede para memorizarmos os números que aparecem no ecrã durante uma fração de segundo, tentando escrevê-los no ecrã do menor para o maior. Calculations faz-nos fazer contas contra o relógio. Head Count é uma proposta interessante: contamos o número de pessoas que entram numa casa. Sem tirar os olhos da casa entram e saem várias pessoas e no final é-nos perguntado quantas pessoas ainda estão lá dentro.

Brain Training for Nintendo Switch inclui ainda Masterpiece Recital, exercício onde temos que, bem, acertar nas notas sentado a um piano digital. Há também Word Scramble, onde vemos uma série de letras a rodar no ecrã. Quando acharmos que descobrimos qual é a palavra pedida, escrevemos a solução letra a letra com o Stylus. Isto torna-se relativamente complicado quando a palavra a escrever é composta por mais de quatro letras.

Há exercícios mais simples, como Reading Aloud, onde temos apenas que ler um determinado texto em voz alta usando o menor tempo possível. Sudoku é também uma das propostas que passa da versão DS para a versão Switch, funcionando bem com o ecrã maior da mais recente consola da Nintendo. Germ Buster, uma versão do clássico Dr Mario pode ser também experimentado, ainda que seja descrito como uma recompensa e só possa ser jogado para relaxarmos depois de termos ganho o carimbo diário.

Lembram-se quando há alguns parágrafos mencionei que “a maioria” era experimentada com a consola na vertical? Os restantes são exercícios onde removemos o Joy-Con direito e o jogo usa a sua câmara de infravermelhos para detectar a posição dos nossos dedos. Finger Drills convida-nos a imitar a forma da mão que aparece no ecrã; Finger Calculations usa o mesmo princípio, mas são apresentadas mãos com dedos esticados e um símbolo matemático. O jogador tem que levantar o número de dedos que julga ser a resposta. Tudo isto, obviamente, enquanto tentamos ser o mais rápido possíveis.

O meu problema com Dr Kawashima's Brain Training for Nintendo Switch nem é tanto com a falta de variedade dos jogos incluídos, algo que obviamente pode rapidamente mudar de figura se já tiverem comprado a versão anterior; não, os meus maiores momentos de frustração estão associados à ocasional falta de precisão. A câmara de infravermelhos não detetou ocasionalmente o que a minha mão estava a fazer, mesmo seguindo todas as instruções, e com o Stylus (que é de excelente qualidade) acrescentei diversos segundos aos exercícios porque o ecrã não registava o que estava a desenhar - por algum motivo, isto foi particularmente notório com o número “4”.

Por outro lado, nos seus melhores momentos, Dr Kawashima's Brain Training for Nintendo Switch colocou-me a lutar contra mim mesmo, tentando baixar os resultados anteriores e provando que estava a aprender ou, pelo menos, que conseguia derrotar o meu próprio cérebro. Este desafio é particularmente palpável nos jogos que testam a memória do jogador.

E entre esses jogos está Photographic Memory. Olham para um imagem e no ecrã seguinte têm que a identificar quando colocada ao lado de outras três. Assim, no ecrã têm que acertar na imagem anterior enquanto memorizam a que está em destaque. É simples, todavia, o exercício começa a colocar fotografias idênticas, o que aliado à tentação de fazer o melhor tempo possível, desperta esse lado competitivo.

Esse lado competitivo não tem que ser apenas contra vocês próprios. No modo Quick Play, há várias provas em que podem medir a destreza mental contra um amigo ou familiar. Com os dois Joy-Con separados da consola, cada jogador fica com um acessório enquanto, por exemplo, conta o número de pássaros que estão no ecrã. É naturalmente uma combinação de rapidez e de exactidão. Outro exemplo é uma proposta que nos faz contar caixas. Não, não é complicado, mas a vontade de sermos melhores do que quem está ao nosso lado permite várias sessões animadas. E sim, Pedra, Papel, Tesoura também está aqui.

Brain Training vendeu mais de vinte milhões de cópias, portanto, não é propriamente uma novidade e não será certamente uma surpresa ver o jogo na Switch, apresentado a uma nova audiência. Não é o mesmo jogo que já tinha chegado ao mercado, até porque alguns exercícios simplesmente não podiam correr na Switch graças à falta de microfones. Há jogos novos, sim, mas não me parece que sejam suficientes para justificar uma nova compra - no momento em que esta análise é publicada, a versão digital custa 26,99€.

Para quem nunca travou conhecimento com este universo, Dr Kawashima's Brain Training for Nintendo Switch exalta o cérebro e faz-nos querer ser melhor que nós mesmos. Não mais inteligentes, mas capazes de demonstrar essa inteligência de forma mais consolidada do que tínhamos conseguido até determinado dia. Perdoem-lhe alguns soluços no registo das vossas intenções e estarão motivados para levar o cérebro ao ginásio.