Para muitos de nós nascidos e criados durante a última década do século e no início deste novo, Dragon Ball é uma propriedade facilmente reconhecida e que nos transporta de imediato para os tempos de infância, altura em que as aventuras de Son Goku, Piccolo, Krillin e os restantes guerreiros da Terra chegavam às televisões portuguesas através da SIC e dos seus canais temáticos. Todos estes anos depois, o nosso contacto com a saga pode-se ter perdido, mas a sua popularidade e relevância não esmoreceu no panorama atual.

Mesmo que nunca tenham acompanhado a série de forma assídua, é muito provável que reconheçam a vasta maioria do seu elenco e que sejam capazes de reconhecer de forma imediata a música do seu genérico de abertura. Esse é, sem sombra de dúvida, o principal trunfo de Dragon Ball Z: Kakarot, isto é, o seu elevado valor nostálgico. É difícil, durante as longas horas de conteúdo aqui em oferta, não sentir que estamos a jogar um pedaço importante da nossa infância, uma excelente adaptação de histórias, heróis e vilões que ainda hoje pairam na nossa memória.

Talvez por isso seja mais fácil perdoar as falhas óbvias de um jogo com poucas ideias para diversificar o seu conteúdo, que não retira grande proveito do seu mundo aberto e cujo conteúdo secundário transmite quase sempre uma sensação de mais trabalho do que de diversão. Nesse sentido, também é inegável que estamos perante uma obra que será tão mais eficaz, quanto maior for o vosso investimento neste mundo no momento em que iniciam a campanha.

Isto não significa, contudo, que o RPG de ação da CyberConnect2 não seja acessível para todos os jogadores, incluindo aqueles que não estão familiarizados com o material original. Significa apenas que os problemas da experiência de jogo serão mais difíceis de ignorar para aqueles cujo valor nostálgico do título não toldará a sua perceção da verdadeira valia de Dragon Ball Z: Kakarot enquanto videojogo.

Como facilmente se percebe, esta nova adaptação jogável da propriedade intelectual acompanha os eventos da série animada homónima, ou seja, arranca cinco anos após os eventos que colocaram um jovem Son Goku em batalha contra Piccolo no World Tournament, já com o principal protagonista casado e com um filho, Gohan. O nome da obra não deixa de ser algo enganador, ainda assim, uma vez que Kakarot, nome de Goku antes da sua chegada à Terra, está longe de ser a personagem que passamos mais tempo a controlar.

Gohan é o verdadeiro herói desta história, uma história que vai desde a chegada dos Saiyans - Vegeta e companhia - à Terra para exterminar toda a vida no planeta, uma motivação transversal a todos os antagonistas da campanha, passando pela visita a Namek, o confronto com Frieza e a ameaça dos Androids na Terra, terminando com a batalha contra Majin Buu. Todos os momentos importantes estão aqui, pelo que Dragon Ball Z: Kakarot é uma extensa recriação destas quatro histórias principais.

Ainda que os arcos narrativos estejam longe de ser complexos ou capazes de surpreender, mesmo aqueles que as estão a experienciar pela primeira vez, estas são histórias que mantêm o nosso interesse graças a um elenco de personagens que dá vida aos eventos a que vamos assistindo. Para lá de alguns fios narrativos paralelos, na sua maioria sem grande interesse, tudo o que Kakarot tem para oferecer está firmemente assente no material em que se baseia.

Enquanto RPG de ação e tendo como base uma série conhecida pelos seus combates espetaculares, era imperativo que o jogo da CyberConnect2 não desiludisse no departamento da jogabilidade. Felizmente, o título mostra-se efetivamente capaz de proporcionar confrontos frenéticos que não se tornam cansativos. A facilidade de movimentação das personagens durante os mesmos é fundamental para dar uma superior sensação de velocidade e intensidade às batalhas.

Assente em combinações de ataques e movimentos de esquivo às investidas inimigas, os combates tornam-se frequentemente frenéticos, sobretudo quando o nível entre as duas partes é semelhante, numa constante dança entre ataque e defesa. Não é, de todo, uma experiência particularmente exigente, mas faz o suficiente para evitar que o jogador se limite a martelar o botão de ataque. Como é óbvio, as diferentes personagens jogáveis - Goku, Vegeta, Gohan e Piccolo são algumas delas - têm os seus ataques especiais, como o Kamehameha, que consomem a energia Ki.

Para além disso, podem também utilizar os elementos de suporte da vossa party - Krillin, Tien e Yamcha só estão disponíveis neste estatuto - para desferir ataques especiais em momentos oportunos. O elemento RPG surge através da coleção de Z Orbs espalhadas pelo mundo aberto e obtidas através da realização de atividades. Estas Orbs são depois aplicadas nas extensas árvores de habilidades dos guerreiros que não só os fortalecem, como desbloqueiam versões mais poderosas dos seus ataques especiais e ainda novos ataques especiais que requerem a realização da missão de treino para ficarem disponíveis.

Estes novos ataques são essencialmente o único fator novidade que vai sendo introduzido nas batalhas à medida que as horas vão passando, o que não é ideal, mas não prejudica de sobremaneira a experiência. Para as mencionadas missões de treino é necessário recolher D-Medals, obtidas sobretudo através das dezenas de missões secundárias que o jogo tem nas suas fileiras. No entanto, não demora muito até ficar claro que praticamente todas estas atividades opcionais são fetch quests pouco interessantes e que se tornam rapidamente uma fonte de aborrecimento. Há exceções, mas de uma forma geral, o conteúdo secundário de Dragon Ball Z: Kakarot é fraco e desapontante.

Essa falta de criatividade faz-se sentir também ocasionalmente ao longo do percurso principal da campanha, sobretudo nos momentos em que a história remove o foco dos combates. As Intermissions entre cada uma das sagas são um exemplo disso mesmo, um período em que o ritmo abranda demasiado e o interesse cai de forma significativa. A obra da CyberConnect2 está no seu melhor quando o combate é o centro das atenções e sofre bastante sempre que o foco é desviado.

Tecnicamente, Dragon Ball Z: Kakarot é título bastante competente. O estilo visual, que é partilhado com outros jogos inspirados em séries de animação nipónicas, adapta com sucesso os visuais originais, ou seja, não colide com as nossas expectativas em relação ao aspeto que uma obra baseada nas aventuras de Goku e companhia deve ter. O seu mundo aberto - ou áreas abertas, se preferirem - não são impressionantes, embora ofereçam cenários distintos e importantes da saga.

Dito isto, não faz muito sentido que as missões nos obriguem a estar frequentemente a saltar entre as diferentes localizações, o que significa ter de tolerar vários ecrãs de carregamento que, apesar de curtos, se vão acumulando. Menos sentido faz que o jogo precise de ecrãs de carregamento entre duas cinemáticas curtas só porque são em locais separados da mapa. Sem surpresas, a banda sonora assenta nos temas da série de animação e faz um bom trabalho a acompanhar a ação e exploração.

Dragon Ball Z: Kakarot é assim uma excelente forma de recordar algumas das mais marcantes histórias da saga de Goku e companhia, mas está longe de ser um jogo excelente. É uma obra que fará as delícias daqueles que cresceram com estas personagens e que está recheada de valor nostálgico. No entanto, o facto da estrutura das suas missões não sofrer qualquer alteração ao longo da aventura e o conteúdo ser francamente desinspirado impedem a experiência de atingir um patamar superior, o nível Super Saiyan.