É sempre especial quando encontramos algo que nos desvia a atenção de tudo o resto que se passa em nosso redor e nos deixa completamente imersos naquilo que estamos a fazer nesse momento. Seja uma série, um livro ou neste caso um videojogo, percebemos que estamos perante uma experiência marcante quando esta nos ocupa a mente mesmo quando não estamos junto dela. Normalmente é o mundo, a história ou as personagens que conseguem proporcionar esse efeito em nós, mas outras vezes é o estimular da nossa massa cinzenta que nos deixa quase obcecados com aquilo que estamos a experienciar.

Dragon Quest Builders 2, tal como o seu antecessor, é um exemplo perfeito disso mesmo, uma obra que desperta a veia criativa em jogadores que normalmente não têm grande interesse nesses processos, bem como uma vontade constante de melhorar e iterar as suas construções, as suas pequenas obras-primas que servem para pouco mais do que para nos impressionar-nos a nós próprios. Sim, a sequela permite partilhar imagens e até visitar as ilhas criadas pela comunidade, mas mais do que uma competição para perceber quem é o construtor mais talentoso e criativo, o interesse aqui é saciar o nosso desejo de criar algo de que nos orgulhamos, isto é, de testar a nossa criatividade ao máximo, mas sempre com um fio condutor a guiar a progressão.

Esse é, aliás, o grande segredo para o sucesso destes dois títulos. Ao invés de nos deixar à nossa sorte num vasto mundo e esperar que a nossa imaginação trate de nos manter motivados e interessados em explorar as muitas opções que o jogo esconde debaixo da superfície - figurativa e literalmente -, as obras da Square Enix acompanham o foco na obtenção de recursos e na utilização dos mesmos para construir o que formos capazes de visionar na nossa mente com uma extensa campanha RPG que nos introduz lentamente às várias possibilidades oferecidas pela jogabilidade e, acima de tudo, nos mantém ligados à experiência com objetivos concretos e facilmente executáveis.

É depois de começarem a concluir os primeiros pedidos das personagens que conhecerão ao longo da aventura que o “bichinho” pela construção começa a ganhar força e a imaginação mais destreinada e enferrujada começa a fluir mais intensamente pelas veias até se tornar bastante difícil de conter. O que se verifica imediatamente após a obra nos agarrar pelo colarinho é que as construções minimalistas, básicas e esteticamente fracas que realizamos no início da campanha rapidamente deixam de nos satisfazer, gerando até alguma repulsa relativamente à fraca qualidade do trabalho apresentado até então.

Desta forma, Dragon Quest Builders 2 é uma obra que cresce em conjunto com o jogador, uma vez que a introdução de novas mecânicas, novos materiais, novos tipos de construções e objetivos mais ambiciosos é sempre acompanhada por uma cada vez maior aptidão do jogador para levar a cabo empreitadas capazes de retirar o máximo proveito de todas as opções que lhe são dadas no momento de colocar as vestes de engenheiro e arquiteto. Construir, demolir, reconstruir e assim sucessivamente até que o resultado final seja finalmente condizente com o que temos à disposição e o processo de aprendizagem realizado até então.

Através da sua campanha, o título consegue um excelente sentido de progressão que se alastra não só ao avançar da narrativa, mas também à apresentação de novas possibilidades criativas ao jogadores. Poderia pensar-se que ver as nossas construções iniciais rapidamente ficarem desatualizadas perante as novidades que vamos descobrindo se tornaria desmoralizador, contudo, o que acontece é precisamente o contrário. Descobrir de que forma podemos melhorar e iterar em relação ao que já fizemos é uma injeção de motivação que está em constante renovação. É por isso que esta obra se torna tão viciante e igualmente recompensadora, porque a criatividade alimenta a motivação durante horas a fio.

Mais uma vez, Dragon Quest Builders 2 coloca-nos no controlo de um Builder num mundo desprovido do poder da construção devido à ação dos Children of Hargon, os seguidores do antagonista derrotado na campanha do jogo original, motivados pela profecia do regresso do Master of Destruction. Ditou o destino que Malroth, o nome desse mestre da destruição, está amnésico e é o companheiro de viagem e principal auxiliar do nosso protagonista ao longo da aventura. Incapaz, por motivos óbvios, de construir seja o que for, Malroth utiliza a sua força para combater os monstros que nos atacam e ajudam na obtenção de recursos.

A narrativa é, de uma forma geral, bastante descartável, mas a sua importância é inegável para que a fórmula da obra resulte. No cerne da aventura está a construção de uma nova ilha, a nossa ilha personalizada onde podemos construir de forma livre o que bem entendermos à exceção de umas construções obrigatórias para fazer avançar a história. O desenvolvimento da ilha está dependente do recrutamento de novos habitantes e da obtenção de recursos apenas disponíveis noutros locais, pelo que a campanha se divide entre a ilha principal e três outras ilhas com a sua própria narrativa, temáticas e materiais onde recrutarão os habitantes e aumentarão o vosso leque criativo.

Esta segmentação da experiência confere uma importante linearidade e objetividade aos procedimentos, já que evita que o jogador se sinta assoberbado pelas possibilidades que o jogo lhe oferece. A ilha principal é aquela onde serão deixados praticamente livres para construir tudo o que a vossa mente conseguir imaginar, enquanto as ilhas assentes na narrativa serão os locais de aprendizagem de tudo aquilo que poderão depois transportar para a vossa ilha. Mesmo que a história não seja propriamente brilhante, o foco quase constante na construção e obtenção de recursos garante que a obra raramente fique estagnada.

Digo raramente porque infelizmente existem momentos em que isso efetivamente acontece. Não são muitos, mas quebram de forma notória o ritmo natural da obra e afastam-nos dos seus melhores elementos durante demasiado tempo. Procurar recursos perde um pouco o seu encanto quando temos de passar por largos minutos de exploração pouco entusiasmante para os encontrar, especialmente porque o combate é demasiado simplista para ser o centro das atenções. 

O pior momento do jogo surge logo após o fim da aventura na segunda ilha, em que passamos um par de horas sem o poder de construção e temos até de suportar segmentos de ação furtiva mal amanhados. Uma vez que a narrativa não é suficientemente forte para aguentar a nossa atenção sem o acompanhamento de objetivos relacionados com o foco principal da obra, ou seja, a construção, este segmento de jogabilidade abranda perigosamente o ritmo da experiência e obriga-nos a ultrapassar a monotonia e o aborrecimento antes de regressar-mos ao que o título faz melhor.

Não estraga a experiência, mas são umas horas penosas que não precisavam de lá estar, especialmente quando estamos perante um jogo com uma longevidade assinalável, mesmo sem incluir o tempo opcional que decidirem colocar na construção da ilha. Ainda relativamente a aspetos menos bem conseguidos, a ausência de um quest log continua a ser um problema, especialmente quando as missões envolvem construções com determinadas regras, mas sem as blueprints que podem ser facilmente acessíveis com o pressionar de um botão. Ter de regressar à personagem que nos deu a missão sempre que precisamos de reavivar a memória não faz grande sentido.

Dito isto, e porque a obra foi analisada numa Nintendo Switch, há que referir que a performance não é a melhor. Apesar de quebras ocasionais na framerate durante a campanha, o verdadeiro problema surge quando tentarem visitar as ilhas de outros jogadores, sobretudo aquelas que tiveram uma elevada concentração de construções e detalhes no ecrã em qualquer momento. Nesses casos Dragon Quest Builders 2 torna-se praticamente injogável na consola da Nintendo, o que não deixa de ser uma pena pois limita tanto a apreciação das obras de arte já criadas, assim como as vossas futuras construções. 

De resto, o título é tecnicamente sólido, voltando a apostar no mesmo estilo visual do original e mais uma vez com resultados bastante interessantes graças a variedade de vistas e detalhes que vai colocando no ecrã. As diferentes ilhas da campanha são também bastante distintas, o que ajuda a evitar que o jogador se canse de estar sempre a ver o mesmo tipo de cenários. Por sua vez, a banda sonora mantém o registo tradicional das obras Dragon Quest, conferindo um tom jovial e alegre transversal a praticamente toda a aventura.

Mesmo com uma performance aquém na Nintendo Switch e alguns momentos desnecessariamente monótonas na campanha, Dragon Quest Builders 2 é excelente. Uma evolução segura em relação a um original que já oferecia uma experiência de enorme qualidade e que volta novamente a utilizar com mestria as suas origens RPG para despertar o “bichinho” da construção dentro de nós. As construções podem começar por ser uma obrigação para avançar a aventura, mas rapidamente se tornam numa necessidade para saciar a nossa veia criativa que encontrará sempre algo novo para criar ou algo a melhorar no que já foi criado.