Em plena época alta de lançamentos na indústria dos videojogos e com os gigantes do costume a batalhar pelo tempo e atenção dos jogadores, existem sempre obras que passam quase despercebidas pelo radar dos mais desatentos. Embora competir diretamente com os filhos mais novos das séries que movimentam milhões todos os anos seja claramente uma decisão questionável, estes títulos são muitas vezes responsáveis por algumas das principais surpresas do ano, acabando por se tornar autênticos sleeper hits que encontram o sucesso através da receção calorosa por parte da crítica especializada e de recomendações dos jogadores que lhes deram uma bem merecida oportunidade.

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Dragon Quest Builders encaixa perfeitamente nesta descrição. Entalado entre jogos como FIFA 17 e Battlefield 1, dois colossos da Electronic Arts, e ainda obras como Mafia 3 e os títulos de lançamento do PlayStation VR, eis que surge um spin-off de uma das séries mais populares da divisão nipónica da Square Enix para desviar as atenções dos jogadores e entregar uma das experiências mais cativantes do ano. Não se deixem enganar, Dragon Quest Builders pode não ser o Role-Playing Game profundo com largas dezenas de horas de conteúdo, mas a qualidade está lá e em quantidades assinaláveis. E sim, as dezenas de horas de conteúdo também estão presentes. Aliás, gastei 10 horas só no primeiro capítulo.

O seu anúncio foi recebido por muitos como uma tentativa fácil de capitalizar no fenómeno em que se transformou Minecraft e dizer que o título retira inspiração da obra da Mojang é ser bastante generoso com as palavras. É impossível jogar e falar sobre Dragon Quest Builders sem mencionar as semelhanças com o jogo que, entretanto, se tornou num dos mais vendidos da história da indústria. As comparações são mais do que justificadas, mas aquilo que poderia facilmente ter sido um clone produzido à pressa e sem grande empenho acabou por se transformar em algo bastante especial e que resulta em todos os departamentos. É verdade que a fórmula que está na base dos dois títulos é a mesma, mas existe aqui mais do que suficiente para este se diferenciar da obra em que se inspirou.

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Colocados num mundo constituído por blocos cúbicos, o jogador terá de recolher os materiais presentes no ambiente em que se encontra, sejam eles plantas, ramos de árvores, madeira e até materiais provenientes dos monstros que coabitam o mundo e combiná-los para produzir itens como armas, alimentos, materiais de construção e medicamentos. Fazendo uso do ciclo de dia e noite, o jogador terá igualmente de construir abrigos durante os períodos de exploração para poder dormir e evitar os monstros mais incomodativos que apenas surgem na escuridão da noite. Se já jogaram ou têm qualquer tipo de conhecimento sobre Minecraft, perceberão rapidamente que este parágrafo poderia perfeitamente ser utilizado para descrever essa obra, mas não é esse o caso.

Partindo da mesma base, é na acessibilidade que Dragon Quest Builders começa a distanciar-se do título da Mojang. Tal como qualquer RPG tradicional, o título vai-nos introduzindo de forma lenta e gradual às suas principais mecânicas e deixa sempre bem claro qual é o próximo passo na aventura do protagonista, e por consequência do jogador, sem necessariamente o agarrar pela mão e guiá-lo pelo caminho certo. Afinal de contas, este é um título de criação e exploração, pelo que ter a liberdade para fazerem o que bem entenderem e aprenderem com os erros é um elemento imprescindível à experiência.

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Na verdade, acessível é o adjetivo que melhor descreve a obra da Square Enix. Servindo-se da habilidade única do protagonista para a construção, o jogo torna a mecânica de crafting extremamente simples, utilizando menus que nos indicam de forma rápida e sem complicações os materiais de que necessitam para a construção dos itens desejados. De uma forma geral, o título faz um excelente trabalho para evitar que o jogador se sinta perdido ou esmagado por um excesso de informação e após uma ou duas horas já dominarão bem os seus elementos mais básicos.

Querem construir um quarto? Fácil. Basta um espaço rodeado por paredes com dois blocos de altura, uma porta, um colchão e uma fonte de luz. Querem construir uma estação de trabalho ou uma cozinha? Substituam o colchão por uma mesa de trabalho ou uma fogueira especifica para cozinhar alimentos, respetivamente, e adicionem-lhe um baú para guardar o material produzido. Estas construções e as receitas para produzir uma variedade enorme de produtos são-nos todas ensinadas pelas personagens secundárias que vos acompanharão durante a campanha ou através da simples obtenção de materiais durante a exploração, isto é, sempre que descobrirem um novo material, o protagonista aprenderá automaticamente as inúmeras construções passíveis de serem obtidas a partir do mesmo.

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Ao contrário de Minecraft, Dragon Quest Builders tem uma narrativa e, como não poderia deixar de ser, quests que terão de realizar para progredir na aventura e as quais o título utiliza para forçar o jogador a retirar o máximo proveito das diferentes componentes que compõe o título, ou seja, a exploração, a construção e a aprendizagem. Como tantas vezes acontece em obras do género, a história coloca nos ombros do nosso protagonista, conhecido apenas como o Legendary Builder, a missão de salvar o mundo, utilizando o seu poder de criação para afastar a escuridão e fazer regressar a vida ao mundo de Alefgard através da destruição do Dragonlord.

Não oferece nada de novo e, sinceramente, está longe de ser interessante, mas a narrativa serve o seu objetivo com eficácia, ou seja, limita-se a oferecer a motivação e justificação necessária para as nossas ações. Dividido em vários capítulos, cada um deles segue o mesmo ciclo de eventos. Começam por reconstruir uma cidade para que a população possa volta a viver em harmonia e sem medo dos monstros. Esta cidade, por sua vez, servirá como a vossa base de operações. Uma base de operações que vai subindo de nível conforme aquilo que vão construindo no seu interior, seja através de diferentes e mais complexas divisões ou pela introdução de elementos meramente decorativos.

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Com o aumentar do nível da base e a conclusão das diversas tarefas que vão recebendo dos habitantes, a vossa base será esporadicamente atacada por monstros que terão de eliminar sucessivamente até à batalha final contra o boss que simbolizará o final do capítulo e a liberação total da área de Alefgard em que se encontram, fazendo assim regressar a Luz e afastar a Escuridão. Como é óbvio, os momentos de combate são bastante fáceis e passam pelo martelar constante do botão de ataque e o uso de ervas medicinais para recuperar saúde, sendo que o aumentar do perigo representado pelos inimigos é acompanhado pela obtenção de arma mais poderosas. Os bosses representam um desafio diferente, mas igualmente acessível.

Terminem o capítulo e serão convidados a partir para o próximo. Contudo, isto significa avançar para uma nova área na qual terão de começar praticamente do zero novamente. Sim, as receitas e o conhecimento continuam convosco, mas todos os itens produzidos, materiais recolhidos e progressos feitos pela vossa personagem ficarão para trás. Tendo em conta o ciclo bem definido de cada capítulo, a obra corria o risco de cair na repetição e monotonia. Felizmente, tal não é caso e Dragon Quest Builders mantém-se fresco e cativante durante horas a fio.

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Existe algo de extremamente satisfatório e, diria até, viciante em melhorar consecutivamente a nossa base com novas e mais espetaculares construções, em explorar novos mundos habitados por criaturas diferentes daquelas a que já estávamos habituados, em descobrir novos materiais e consequentemente novas receitas. A jogabilidade do título segue uma sequência bastante fácil de identificar, utilizando os mesmos processos desde o primeiro até ao último minuto, mas nunca se torna maçadora. Todos os elementos conjugam-se de forma natural para criar uma experiência que nos faz adiar constantemente o momento de desligar a televisão e a consola para fazer algo produtivo. "Vou só fazer mais isto e depois vou dormir," disse eu repetidamente para mim mesmo até finalmente obedecer quando o relógio já marcava as três horas da manhã.

Apesar disso, a jogabilidade não está isenta de problemas. Não são problemas com graves consequências, mas são questões que nos fazem perguntar o porquê de a produtora ter tomado determinadas opções relativamente ao design da obra, começando desde logo pelos controlos. Acabarão por se habituar, mas pressionar o botão X para abrir o menu, enquanto o círculo é utilizado para saltar e o triângulo para atacar contraria tudo aquilo que os jogos nos têm ensinado desde há uns anos a esta parte. A ausência de um Quest Log é também incompreensível, mesmo que nunca tenham mais do que duas ou três tarefas em simultâneo. Para lá destas duas questões, é importante mencionar que a câmara pode ser algo problemática, sobretudo em locais apertados como o interior de edifícios.

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Visualmente, Dragon Quest Builders prima pela utilização de uma panóplia de cores vibrantes e diversificadas que fazem com que cada cidade seja o seu próprio mundo com uma diferente aparência e identidade. Não é um portento técnico, nem deixará ninguém de queixo no chão, mas é um título extremamente apelativo capaz de proporcionar vistas bastante bonitas e horizontes interessantes. A banda sonora faz o seu trabalho e dá um tom pitoresco à aventura, alterando-se consoante estejam no conforto do lar ou em rota de colisão com monstros durante a escuridão da noite. Não é fundamental para o título, aliás, diria até que este é um título bastante bom para se fazer acompanhar pela vossa própria banda sonora, mas está lá se assim desejarem.

Dragon Quest Builders é especial. Tinha tudo para correr mal, mas acabou por apanhar todos de surpresa. Pegando na fórmula de Minecraft e tornando-a mais acessível para as massas, o título da Square Enix conseguiu entregar um produto de enormíssima qualidade que oferece um número gigantesco de horas de conteúdo na campanha e um número ilimitado de horas na Terra Incognita - o modo de jogo livre do título, onde poderão construir à vontade sem se preocuparem com monstros ou os desejos das personagens secundárias. Cativante, satisfatória e extremamente viciante, Dragon Quest Builders é uma obra de recomendação bastante fácil. Afinal de contas, é "só" um dos melhores jogos do ano.