Há que ser-se seletivo quanto ao desejo de remakes na consola na qual passamos mais tempo. Há experiências que chegam demasiado cedo, outras que uma simples adaptação bastaria para podermos retirar o prazer do original. É o caso da maioria dos títulos lançados atualmente. Quanto a títulos RPG vindos do Japão, como Dragon Quest VII: Fragments of the Forgotten Past, podiam chegar mensalmente à minha 3DS que ficava satisfeito. Do Japão há muito por onde escolher, principalmente, porque o lançamento exterior ao país de origem não era uma norma - basta ver a confusão da numeração dos primeiros Final Fantasy ou de EarthBound.

Dragon quest vii fragments

A espera está quase a terminar para a chegada do sétimo capítulo de Dragon Quest e devo dizer que é um RPG simplesmente envolvente, mesmo que com um começo muito lento sem atirar ação desenfreada para o ecrã. Através da construção lenta das personagens, esta obra japonesa dá tempo ao jogador poder conhecer cada elemento do rico elenco. Cada nome fica gravado na vossa memória dezenas horas depois de terem pausado o jogo. Ou até quando revisitam mais tarde uma personagem, com a qual não é suposto terem travado algum tipo de relação empática.

O protagonista, que terá o nome que vocês designarem, é o filho de um pescador de uma aldeia pacata. O miúdo sonha ser como o pai e seguir os seus passos no vasto mar que circunda a sua ilha. Porém, certo dia com o seu amigo Kiefer, filho do rei, este descobre algo estranho. Estes encontram peças quebradas de azuleijos, que quando reunidos transportam-nos para uma ilha diferente. Não só para um lugar diferente, mas para o passado desse mesmo local. O subtítulo, "Fragments of the Forgotten Past", passa a fazer mais sentido após algumas horas de jogo. A nossa "missão" consiste em perceber o porquê de novas ilhas começarem a aparecer e a ligação que estas têm à nossa terra natal.

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Normalmente, há personagens que não têm qualquer tipo de valor a dar ao jogo para a narrativa. Se fossem removidas do jogo, só notariamos a sua falta por já não ornamentarem o espaço que ocupavam. Em Dragon Quest VII, as típicas personagens NPC tem um enorme valor para dar à história. É através delas que conhecemos o mundo do jogo, que conhecemos mais detalhes que enriquecem o passado e cultura da nossa aldeia. É assim que conhecemos várias características e comportamentos das pessoas que nela habitam. Porém, estas personagens são também incorporadas em puzzles, como saberem que têm um tio alcoólico que possui uma bebida que contém um líquido próprio para a resolução de uma catástrofe iminente numa das ilhas que acabaram de visitar.

Com esta característica intrínseca do jogo, é mais natural perdermos horas e horas a ler as conversas que têm para nos dizer, do que simplesmente martelar o botão A para passarmos linhas de texto bastante importantes que contém detalhes vitais para dar forma narrativa ao jogo. É como passar capítulos à frente de um livro, só porque há uma parte que não tem tanto interesse ou ação imediata. Se há uma parte mais pausada, com ritmo mais controlado, é porque a produtora assim o quis para entregar a experiência como deseja.

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É óbvio que sendo um RPG, este título da Square Enix tem de ter um sistema de batalha sólido - andar de um lado para o outro sem fazer nada acaba por ser esgotante. Vocês controlam a vossa personagem na terceira pessoa, com a vossa party toda atrás do líder, e têm por isso os inimigos a aparecerem no vosso caminho, por vezes repentinamente. Se tocam num deles o jogo entra no modo de batalha onde a vossa equipa está de costas para vocês com os monstros à vossa frente. Aqui vemos um sistema não muito modernizado para os dias de hoje, mas operacional o suficiente para passarem um bom bocado com sistemas e mecânicas satisfatórias. Tal como a própria história, o combate tem um ritmo lento. Aliás, não é o combate em si que é lento, mas sim a sua evolução.

Começam por eliminar toda a oposição com as vossas mãos e só quando amealharem uma boa quantidade de ouro é que poderão trocá-lo por armas, armaduras e itens diversos. Conforme as habilidades que demonstram vão adquirindo novos poderes e golpes. Mas também há lugar para técnicas de defesa, magia que vos confere poderes para restabelecer saúde ou aumentar o poder de ataque de um dos elementos da vossa equipa. Não faltam opções, ou melhor, estas são apenas o começo.

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Após umas trinta e cinco a quarenta horas poderão desbloquear um sistema de "vocations". O que para os entendidos no vocabulário de títulos RPG japoneses, significa "jobs". Na prática ser-vos-ão disponibilizados uma lista enorme de "profissões" para desenvolverem novas habilidades, serem mais aptos para determinadas situações. Se os vossos inimigos são na sua maioria monstros, há uma "vocation" própria para os eliminar.

Não são vocês que controlam diretamente os vossos amigos de batalha, mas vociferam ordens para serem cumpridas. Ou seja, podem pedir-lhes para vos proteger, para assumirem táticas mais ofensivas, ou não utilizarem magia - como é natural, consome a tão necessária "mana" que pode ser vital para uma batalha que se aproxima com um inimigo mais teimoso.

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O grafismo é bastante agradável para uma experiência na Nintendo 3DS, contudo no momento em que saem de um lanço de escadas por vezes a manobra que a personagem efetua para irem para onde querem cruza novamente com as escadas, não indo para onde queriam. O estilo de Akira Toriyama transparece em todas as personagens, mesmo que em modelos tridimensionais. É algo que foi muito bem trabalhado, visto a consola em que o título se destina.

A música é digna de uma verdadeira orquestra. É simplesmente divinal ouvir todos aqueles acordes de instrumentos de sopro, cordas e de percussão. O arranjo e composição da Banda Sonora de Koichi Sugiyama, é tão boa quanto Nobuo Uematsu (compositor de Final Fantasy). Não só acerta em todos os momentos que aparece com maior enfâse, como complementa a ação em que decorre, seja qual for o sentimento ou a emoção a ser transmitida.

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Dragon Quest VII: Fragments of the Forgotten Past é facilmente recomendável para quem tem saudades de um bom RPG à moda antiga, mesmo que estes sistemas falhem em estar modernizados. Há muito que fazer descobrir e ler para ficarmos envolvidos numa história tipicamente nipónica, onde um grupo de crianças atravessa dificuldades para salvarem o mundo como o conhecem.