Que me lembre, Dragon's Dogma foi uma das novas séries que mais celeuma levantou quando chegou à atual geração de consolas no final de maio do ano passado. Não que as críticas tenham sido severas, nem tão pouco que os jogadores que o compraram tenham apanhado um balde de água fria: Dragon's Dogma foi - e é - popular porque a Capcom soube promover o seu jogo com mestria. Portanto, não foi surpresa para ninguém que a produtora quisesse investir novamente na série. Porém, em vez de lançarem uma sequela, optaram por lançar uma expansão intitulada Dark Arisen. Revisitámos o mundo do jogo e sobrevivemos para contar a história.

O primeiro ponto que temos que esclarecer é o que é Dark Arisen. Pois bem, Dark Arisen inclui a versão completa de Dragon's Dogma e acrescenta mais de quinze de horas de novo conteúdo que se desenrolam na nova área de jogo, a ilha Bitterblack. Existe um motivo para o jogo original estar incluído no pacote: para acederem ao novo conteúdo do jogo e conquistá-lo com sucesso, têm que ter uma personagem bastante desenvolvida ou a vossa estadia não vai ser muito demorada. Se já tiverem jogado o original podem importar o ficheiro com o vosso progresso no jogo e continuar a aventura, caso contrário, é impreterível que comecem onde todos os outros jogadores começaram em maio de 2012.

Antes de me alongar no que Dark Arisen oferece de novo, convém esclarecer um ponto sobre a importação do ficheiro com o progresso no jogo original. Se o fizerem, receberão como bónus um Eternal Ferrystone, 100,000 Rift Crystals para gastarem como quiserem e ainda várias armaduras.

Se nunca jogaram Dragon's Dogma, convém explicar alguns pontos prévios para que não se sintam deslocados. A aventura arranca na aldeia de Cassardis - a nova ilha de Dark Arisen aparece ao seu lado - e depois de escolhermos a classe da nossa personagem, partimos numa aventura com um sistema de combate bastante interessante. Além de podermos atacar com armas principais ou secundárias, temos ainda a hipótese de usar habilidades especiais, ou seja, estamos perante um Role Playing de ação. O sistema de combate demora algum tempo a ser dominado, mas vale a pena perder algumas horas a tentar dominar tudo que a produtora colocou no jogo, uma vez que quando a nossa personagem começa a chegar a níveis mais avançados, as lutas acompanham a dificuldade, o que resulta invariavelmente num sentimento de satisfação sempre que prevalecemos face aos inimigos deitados no chão sem vida.

Contudo, discutivelmente, a mecânica pela qual Dragon's Dogma ficou conhecido é a introdução de Pawns. Ajudantes controlados pelo próprio jogo, assumem-se como uma ajuda vital durante a exploração dos cenários e, sobretudo, nos combates, o que ajuda bastante à dinâmica de cada luta. É certo que não são controlados diretamente pelo jogador, porém, de um modo geral não nos podemos queixar das suas decisões. Isto é um resumo geral daquilo que o jogo original colocou em cima da mesa. Ciente disso, em vez de reformular a fórmula, a Capcom optou por refina-la e oferecer conteúdos nunca antes vistos.

A grande estrela de Dark Arisen e a grande força motriz do novo conteúdo é a mencionada ilha Bitterblack. Como é óbvio, a nova localização foi construída para se enquadrar no universo de jogo que tão cuidadosamente foi construído no título original, porém, é impossível sair de lá sem pensar na dificuldade e rudeza da nova área, aliás, parece que a Capcom se apercebeu do sucesso de Demon's e Dark Souls e tentou aproximar o seu jogo da experiência oferecida por esses dois colossos que se tornaram referências do género, o que não é necessariamente mau.

Tal como já sugeri, a nova área do jogo é impiedosa e não deixa grandes margens para distracções. Vi num documentário um americano a ser feito refém no Paquistão e as primeiras palavras que ouvi foi algo como: este país vai-te quebrar. Com as devidas salvaguardas e distinções entre as duas situações, foi exatamente isso que Dark Arisen me fez. Tinha uma personagem num nível elevado e horas de experiência acumulada, portanto, pensei que ia entrar na ilha, matar tudo e todos, tirar notas e acabar a aventura calmamente. Não podia estar mais enganado. Podem ser o melhor jogador do mundo, Dark Arisen faz questão de vos provar que ninguém sai da ilha sem ir ao chão várias vezes.

Foi precisamente nesses combates quentes que a jogabilidade que já referi quando falei sobre o jogo original nos relembra porque passámos tantas horas a lutar contra tudo e contra todos na aventura original. As habilidades da vossa personagem não são estanques e limitadas a cada classe, ou seja, podem adaptar a vossa representação ao vosso estilo misturando os vários elementos que o jogo oferece. Apesar da dificuldade, raramente sentimos que o jogo está a ser injusto e que não nos dá uma oportunidade para sairmos vencedores e talvez por isso, tal como Muhammad Ali nunca atirava a toalha ao chão, também nós sentimos o ímpeto de voltarmos a tentar sempre uma vez.

Os Pawns regressam com Dark Arisen e, tal como já afirmei, ajudam na exploração do cenário de jogo e dão uma mão durante os combate. O sistema de recrutamento e de uso permanece igual, ou seja, têm três Pawns na vossa equipa, sendo que podem recrutar dois deles diretamente de entre os habitantes ou do online e o terceiro, o líder, é criado pelo próprio jogador, o que elimina a desculpa de "não consegui contratar um líder com as caraterísticas que queria".

O grafismo também permanece intocado, o que, sinceramente, desilude um pouco. É compreensível e certamente a produtora alegará que a área de jogo é tão vasta que não há nada que possam fazer, porém, ainda assim esperávamos que houvesse uma melhoria nas texturas ou na modelagem das personagens. O mesmo se aplica aos problemas existentes na framerate que já pautavam o jogo original, assim como o carregamento mais lento de algumas texturas. Os tempos de carregamento também têm tendência a serem pesados para os jogadores mais impacientes.

Por outro lado, Bitterblack é uma das zonas de toda a série com melhor atmosfera. Pútrida, decadente, claustrofóbica, enfim, inúmeros adjectivos que poderiam ser usados para dizer que não se vão sentir nada confortáveis enquanto andarem a vaguear pelo cenário. Além disso, o design das personagens e sobretudo dos inimigos continua bastante artístico, o que sublinhado pelas suas dimensões quase sempre generosas, resulta num sentimento de estarmos a lutar contra algo épico. No campo da sonoplastia, continua a aposta em acessórios que façam transparecer a grandiosidade do jogo. Além disso, as músicas usadas beneficiam a tensão existente, ajudando à experiência.

Dragon's Dogma: Dark Arisen faz bem o seu papel: dar uma nova vida a um jogo que praticamente tem um ano de existência. A nova área traduz-se numa estadia com um pouco mais de quinze horas de duração, dependendo daquilo que explorarem e na vossa habilidade de deixar os inimigos para trás. Ainda assim, a dificuldade poderá fazer com alguns jogadores menos persistentes nunca o cheguem a terminar. Além disso, os problemas técnicos que assolaram o jogo original permanecem praticamente todos na expansão. O preço de venda do jogo situa-se nos 29,99€, uma quantia interessante se tivermos em consideração que além do novo conteúdo, o disco - ou discos na versão Xbox 360 - faz-se acompanhar do jogo original.