A 28 de novembro de 2016 escrevi isto no especial The Tomorrow Children: Mais um exclusivo a ser lançado para morrer: “Drawn to Death está a tentar fugir à força toda do modelo free-to-play, tendo recentemente anunciado que será um título pago tradicional, embora corra o risco de ser uma decisão tardia, especialmente quando, tal como os outros jogos já mencionados, apenas teve direito a uma aparição em grandes palcos no PlayStation Experience, em 2014”. Poucos meses depois, o título está finalmente disponível no mercado e nem mesmo o facto de ter sido disponibilizado de forma gratuita para membros PlayStation Plus o livrou da sentença que já se adivinhava.

Incluído num especial que umas linhas acima mencionava Kill Strain, jogo free-to-play que já se sabe verá os seus servidores serem encerrados menos de um ano após o seu lançamento, o meu otimismo relativamente à obra de estreia do estúdio The Bartlet Jones Supernatural Detetive Agency já há muito tinha desaparecido, praticamente há tanto tempo quanto aquele em que a Sony Interactive Entertainment havia desistido de o promover nos seus canais oficiais. Depois de passadas algumas horas com o jogo, percebe-se rapidamente que, no seu estado atual, o seu futuro não será risonho, nem particularmente longo. 

Drawn to Death Imagens Analise

Tal como havia sido o caso aquando do seu anúncio em 2014, aquilo que mais salta à vista durante o nosso tempo com o jogo é o seu curioso estilo visual, que é um resultado direto do conceito em que a experiência assenta. É um grafismo interessante, diferente e que lhe dá uma identidade própria, contudo, isso não significa que faça do jogo uma experiência visualmente apelativa. A ausência quase total de cor nos cenários e a sua estética baseada nos rabiscos pouco aprimorados que encontrarão nos cadernos de muitos estudantes aborrecidos torna com frequência a ação algo confusa. Funciona claramente melhor de forma estática do que em movimento e não demora muito até que o efeito novidade que suporta as primeiras partidas seja perdido e o título tenha de procurar outros elementos para cativar o jogador.

Esses elementos serão certamente a diversidade de mapas, de armas e personagens jogáveis que tem para oferecer. Como se sabe, Drawn to Death é a materialização dos mundos e personagens criadas pelos desenhos mal alinhavados de um estudante no seu caderno de rascunhos, o que significa que encontrarão aqui tubarões-ninja, ursos de peluche munidos de motosserras, uma fusão de um ciborgue com uma gárgula que apenas poderiam sair da imaginação de um adolescente. Por sua vez, os mapas destacam-se pela sua verticalidade, incentivando o movimento, estando recheados de áreas de mais difícil acesso, armadilhas ambientais - Alientown possui um extraterrestre gigante que vos pode matar se vocês se aproximarem demasiado - e pontos estratégicos.

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Ainda assim, é no seu arsenal de armas que o título mais se destaca. Não só existem as tradicionais snipers, caçadeiras, metralhadoras e espingardas, como temos ainda armas mais condizentes com o estilo e tom do jogo. Desde macacos que atiram fezes aos inimigos, atletas sem pernas que atiram bolas de Dodgeball, canhões que disparam cadáveres, enfim, nota-se um esforço claro para entregar um armamento capaz de oferecer diferentes estratégias, vantagens e desvantagens, que se adeque a vários estilos de jogadores e que fosse visualmente estimulantes. Nesse departamento, Drawn to Death não falha, sendo por isso uma pena que a jogabilidade não seja capaz de cativar ou de se manter fresca durante longas sessões de jogo.

Poderia pensar-se que a enorme variedade seria um incentivo à maior longevidade do jogo, mas tal não é necessariamente o caso. Isto porque, apesar de ser mecanicamente sólido, o atirador na terceira pessoa do criador de God of War nunca consegue ser recompensador. Com confrontos caóticos, mas sem grande velocidade devido a barras de saúde que prolongam artificialmente os combates e que fazem as armas parecer menos poderosas, as suas partidas tornam-se rapidamente num exercício de repetição. 

Por sua vez, a variedade de armas e personagens obriga a um maior período de adaptação, mas a jogabilidade não consegue justificar esse investimento de tempo, sendo a obra igualmente pouco convidativa a novos jogadores que serão rapidamente dizimados antes de sequer conseguirem encontrarem a sua combinação preferida de armas e personagem e que poderão muito bem não encontrar satisfação suficiente nessas primeiras partidas para continuar a jogar.

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Aliás, fica desde já claro, menos de um mês após o seu lançamento, que a comunidade necessária para suportar o título não parece existir ou pelo menos não tem a dimensão que se esperaria de uma obra disponibilizada gratuitamente através do PlayStation Plus. Os sinais são vários e bastante óbvios. Os longos períodos de espera que se verificam tanto em partidas Ranked - que contribuem para a tabela de líderes -, como em partidas Unranked ou indicam problemas de matchmaking ou, mais provável, a ausência de uma comunidade ativa, algo que é assustador se pensarmos que todas as partidas de Drawn to Death envolvem apenas quatro jogadores. Mas basta olhar para a lista de troféus para perceber que a comunidade não está lá, uma vez que um troféu tão acessível de se obter “Terminar 10 partidas” é considerado bastante raro.

Nem mesmo as seis personagens que compõem atualmente o elenco do título são suficientes para impedir que o jogo caia rapidamente na monotonia. Sim, cada uma delas tem a sua progressão e objetivos secundários que incentivam os jogadores a utilizar as suas diferentes habilidades e ataques especiais e também é verdade que diferentes personagens têm vantagens e desvantagens relativamente ao confronto direto com outras - por exemplo, Alan pode tornar-se momentaneamente invisível, mas esse truque não funciona com Cyborgula -, no entanto, a ausência de um real incentivo à progressão faz com que todo esse investimento de tempo não tenha grande sentido. Talvez para alguns baste a satisfação de subir na tabela de líderes, mas certamente que não serão Skins ou Taunts adicionais que motivarão os restantes.

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É também de lamentar que a originalidade colocada no seu conceito, no seu estilo visual, nas suas personagens e nas suas armas não tenha sido igualmente aplicada aos seus modos de jogo. Deathmatch, Team Deathmatch - ambos com a versão Core que atribui pontos por cada morte, mas retira-vos pontos sempre que morrerem -, Brawl e Organ Donor são os modos de jogo disponíveis e nenhum deles oferece uma experiência que seja impossível de encontrar em incontáveis obras do género que apresentam uma jogabilidade bem mais refinada que esta obra. 

Poder mudar o arsenal de armas antes de fazerem respawn, o que ajuda a manter as partidas dinâmicas e a exploração do cenário para obter bónus como munições adicionais, regeneração de saúde e cooldown das habilidades especiais mais rápidos, por exemplo, obrigam-nos a ser mais ponderados nas abordagens aos confrontos, mas nem assim se consegue evitar que a experiência se torne repetitiva e cansativa após apenas meia dúzia de partidas. A impossibilidade de escolher o modo de jogo que pretendem jogar é também algo estranha, mas tendo em conta a dificuldade em encontrar sessões de jogo de forma aleatória, muito pior seria se a pequena comunidade que existe se fosse fragmentando por diferentes modos.

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Igualmente frustrante é a utilização de humor juvenil em todos os elementos do jogo, seja nos Taunts utilizados no período de espera antes do início das partidas ou após matarem outro jogador, seja no vocabulário recheado de palavrões das personagens ou até nas caixas de texto que vão explicando ao jogador os diferentes elementos da obra. Isto é especialmente notório e cansativo no tutorial, que se arrasta durante mais tempo do que o desejável porque o seu locutor insiste em lançar piadas e fazer pouco do jogador. Podia ser interessante se fosse utilizado de forma inteligente, mas este é mais um exemplo de um jogo com sentido de humor datado, pouco original e que nunca sabe quando parar.

Em suma, Drawn to Death é mais um atirador na terceira pessoa com multijogador competitivo assente na diversidade de personagens como tantos outros atualmente disponíveis no mercado. Apesar do conceito interessante e de um estilo visual distinto, este acaba por ser um jogo extremamente familiar que nunca se consegue distanciar daquilo que é oferecido por outros, mais competentes títulos do género e que se torna rapidamente monótono após o efeito novidade desvanecer. O futuro dirá se existe uma audiência para a nova obra de David Jaffe, mas os sinais atuais não são nada animadores.