A nostalgia é como a parede de uma casa antiga: com o passar do tempo vai levando novas camadas de tinta, alterando a cor, o padrão, a atmosfera que a pintura original exalava. Presente em todas as vertentes das nossas vidas, a nostalgia nos videojogos rege-se exatamente pelos mesmos princípios, contudo, como a indústria dos videojogos ainda é imberbe, não é preciso recuar muito para que a saudade das obras pretéritas comece a ressoar no presente. As crianças da década de oitenta começam a sentir esse estado de alma, tal como as nascidas no novo milénio sentirão em relação aos títulos das plataformas mais recentes - é um ciclo imparável e inevitável.

DuckTales chegou à NES no último mês de 1990, portanto perfila-se como o alvo perfeito para as saudades de muitos. Não só pela sua idade, mas também porque foi comprado e jogado por muitos, ou seja, são muitos os que desejavam poder tornar àquela aventura. Provavelmente alicerçada por uma linha de raciocínio idêntica, a Capcom entregou à WayForward a produção de DuckTales com uma visão contemporânea em Alta Definição. O resultado final já está disponível em várias plataformas, nomeadamente, PC, PlayStation 3, Nintendo Wii U e Xbox 360 e nós já o terminámos.

Convém não esquecer que a história do jogo original estava intrinsecamente ligada aos desenhos que passavam na televisão nessa altura e a WayForward resolveu - e bem - manter-se o mais fiel possível a essa versão do jogo, portanto, o Tio Patinhas vai novamente viajar pelo mundo à procura de maneiras de aumentar o dinheiro que tem em caixa. Apesar de ser a estrela principal, está quase sempre ladeado por caras bastantes conhecidas da Disney. Convém mencionar que apesar da história se apresentar praticamente inalterada, a sua apresentação sofreu várias melhorias para, provavelmente, estar mais de acordo com a norma da indústria em 2013, ou seja, agora somos presenteados com cenas de vídeo que servem para enquadrar os vários cenários do jogo, assim com uma introdução às várias mecânicas que compõe a sua jogabilidade.

Estes ajustes são compreensíveis, pois servem como uma introdução do jogo a todos os jogadores que não tiveram oportunidade de experimentar o original. A chave para as maiores frustrações do jogo está na última palavra do último parágrafo: jogabilidade. Talvez já não se lembrem ou ainda não saibam, mas uma das principais mecânicas do jogo advém do "Saltitão" que o protagonista usa para se deslocar e matar os inimigos. É verdade que também se pode deslocar pelo próprio pé, mas este acessório permite-lhe saltar mais alto e mais longe, ou seja, o seu uso não é só recomendável como obrigatório em alguns casos. O problema é que o seu controlo não está tão apurado como é desejável, o que leva muitas vezes a arcos de salto inconsistentes e levaram-me por diversas vezes a perder de maneira injusta.

Além disso, alguns inimigos aparecem no ecrã do nada e nem mesmo o jogador com melhores reflexos do mundo consegue evitar sofrer dano. Se perderem três vidas são enviados de regresso ao início do nível em que estão, o que assume um novo contorno de frustração nas etapas mais longas. Podem optar por atravessar o jogo no modo de dificuldade mais ligeiro, mas com a atribuição de vidas infinitas é impossível deixar de sentir que estamos a fazer batota, além do factor desafio ser totalmente aniquilado. Pessoalmente, não tinha problema nenhum com a dificuldade do jogo se sentisse que as vidas me foram subtraídas de maneira justa. Existem jogos no mercado que são extremamente imperdoáveis com os deslizes dos jogadores, porém, quando morremos sentimos que tivemos oportunidade de fazer e que fomos traídos pela nossa aselhice, distração, enfim, que perdemos à nossa mão.

Como provavelmente já devem saber, DuckTales não é 100% linear, ou seja, oferece alguns caminhos alternativos, áreas secretas e mais do que um final possível. Esta liberdade dada ao jogador está ainda patente na maneira como fazem a vossa progressão pelo jogo: existem cinco níveis principais que podem ser jogados sem ordem definida. Seja qual for a vossa prioridade, todos os caminhos vão dar a uma última etapa, a sexta. Isto foi impressionante quando a versão do jogo se estreou no mercado e ainda é assinalável hoje em dia.

Se a jogabilidade deixa algo a desejar, o trabalho da WayForward nos campos mais técnicos é assinalável. Começando pela animação das personagens, o resultado impressionante está espalhado pelo elenco todo e não se cinge de maneira nenhuma ao protagonista. Em termos práticos, isto faz com que todos os intervenientes, incluídos os inimigos, pareçam que estão num jogo original e não num remake de algo com aproximadamente vinte anos. Seria um erro crasso reutilizar os movimentos das personagens duas décadas depois, pois o resultado final iria certamente parecer desajustado. Como está, nem mesmo o uso mais exaustivo do "Saltitão" provoca soluços no que está a acontecer no ecrã.

O mesmo pode ser dito dos panos de fundo onde esta ação decorre. A produtora conseguiu acertar na mouche, tornando os cenários reconhecíveis mas com mais profundidade e muito mais agradáveis ao olhar. Diga-se em abono da verdade que apesar de ser curto, o jogo original já oferecia uma variedade de cenários apelativa, o que foi interessantemente adaptado para algo contemporâneo. Além das texturas propriamente ditas, existem efeitos que complementam a atmosfera e lhe dão um toque atual e confirmam ao jogador a certeza de terem em mãos algo que não era possível em 1990.

Passando do visual para o sonoro, a vocalização também merece uma menção, sobretudo, a voz de Alan Young como Tio Patinhas. Ouvir o protagonista terá sido o ponto em que a nostalgia me atingiu com mais força, transportando-me para as manhãs de fim-de-semana passadas em frente à televisão.

Além de tudo o que foi mencionado até aqui, terão que explorar os cenários à procura de diamantes, pois são a moeda de troca para comprarem os vários extras que foram colocados nesta versão do jogo. Arte, músicas, personagens, enfim, uma miríade de adições que certamente fará com que a longevidade do jogo aumente, pelo menos para aqueles que são perfecionistas e fazem questão de desbloquear tudo o que o jogo tem guardado para eles.

Não deixa de ser irónico que o ponto mais fraco desta remasterização seja a sua jogabilidade. Os comandos não foram bem trabalhados, resultando em todos os momentos frustrantes que já tive oportunidade de descrever. Ainda assim, tecnicamente estamos perante uma obra interessante, com vários momentos assinaláveis, sejam proporcionados pelo grafismo ou pela sua componente sonora. Nestes campos, a produtora percebeu perfeitamente o que tinha fazer: trazer DuckTales para o século vinte e um sem cortar o cordão umbilical com a versão que o tornou um dos marcos da NES em 1990.