Ah, o Campeonato do Mundo de Futebol. Aqueles loucos trinta dias em que os protagonistas das principais equipas se tornam heróis nacionais, os noticiários esquecem a austeridade e o primo em sexto grau de Cristiano Ronaldo se torna numa pessoa suficientemente mediática para ter direito a tempo de antena. Tudo isto, enquanto os meandros do mundo do futebol são expostos aos olhos de milhares de fãs assíduos e outros tantos milhões que se juntaram à onda sem conseguir resistir ao contágio pela febre tão bem associada a este fenómeno. O futebol é mesmo assim.

O menu mantém-se até a Seleção Nacional ser eliminada, pelo menos. Mas apesar de tudo, depois dessa catástrofe portuguesa, não adianta chorar sobre leite derramado. Continuamos a ter direito a uma boa dose de Doodles temáticos, à transmissão em directo das partidas dos vilões que nos fizeram ficar pelo caminho, e claro, a uma obra inteiramente dedicada à competição organizada pela FIFA. 2014 FIFA World Cup Brazil, de seu nome.

Depois de o Euro 2012 não ter tido direito a muito mais do que um pacote de conteúdos transferíveis que adicionava algum conteúdo específico, segue-se agora a altura de regressar ao modelo inteiramente dedicado, que desta feita utiliza como principal chavão a edição de 2014 do aclamado simulador de futebol da Electronic Arts.

Sem grandes perífrases, posso dizer que considero que existem dois tipos diferentes de jogadores eventualmente interessados em adquirir este título. Aqueles que compraram FIFA 14 e estão a tentar perceber se a EA tem uma proposta suficientemente tentadora para os voltar a fazer abrir a carteira e investir num novo simulador futebolístico, e aqueles que não tendo FIFA 14, vêem neste novo lançamento a oportunidade de juntarem à sua coleção um jogo de futebol arejado. Em ambos os casos, reina a necessidade de pegar em cada uma das obras com uma mão e pesar as diferenças entre ambas, na tentativa de inferir acerca da necessidade de investir em 2014 FIFA World Cup. Por isso não desperdicemos mais tempo.

Os modos Captain Your Country e Road to the FIFA World Cup são os pratos do dia, numa obra que se apresenta suficientemente consistente a nível de conteúdo, pelo menos face às permissas que o seu conceito original estabelece. Sem grande margem para dúvidas depois da análise dos nomes, o primeiro modo deixa que os jogadores vistam a camisola de uma única personagem na caminhada até à fase final, numa luta marcada pela ambição de representar as cores da bandeira com o bónus de ter a braçadeira de capitão no braço. O segundo, disponibiliza todas as duzentas e três seleções que tiveram oportunidade de se bater durante a qualificação, deixando que os jogadores vão construindo aos poucos uma fase final de constituição distinta daquela que se joga na realidade. Um claro convite aos mais masoquistas para investirem numa dolorosa jornada com as Ilhas Samoa ou o Yemen, quem sabe.

Os jogadores mais experientes na série - e principalmente, aqueles que tiveram oportunidade para jogar com alguma atenção as últimas iterações -, vão notar à partida que a versão videojogável da vigésima edição do Campeonato do Mundo de Futebol inclui uma série de adições na lista de animações no que toca a passes, remates e outras ações básicas. Existem pormenores que tal como a mim, deverão deixar vários fãs a fazer um pequeno exercício de memória até concluírem, encantados, que se trata de uma nova adição.

Esta experiência pode ocorrer logo durante os primeiros minutos de comando na mão, lançando de imediato uma sensação - que mais tarde se vem a provar algo falaciosa - da existência de um catálogo considerável de alterações. Infelizmente, a situação fica-se mesmo pela pura sensação errónea. 2014 FIFA World Cup Brazil é um jogo lançado em exclusivo para a já ultrapassada sétima geração de consolas, e assim sendo, construído a partir de um molde cujo desempenho já foi em muito superado pelas versões de nova geração do FIFA 14 original. Vários meses depois desse lançamento, torna-se algo estranho estar a investir num jogo que - sendo atual em termos burocráticos - se prova rapidamente obsoleto no que toca à oferta de uma experiência de simulação de futebol ao melhor nível.

Apesar de tudo, as diferenças em relação ao lançamento natalício estão efetivamente lá, o que não significa que sejam necessariamente positivas. Pessoalmente, considero o comportamento da componente de inteligência artificial muito relevante neste tipo de simuladores de futebol e o jogo oficial do campeonato do mundo não se destaca pelos melhores motivos. Ao fim de algum tempo de jogo, os problemas apresentados na sequência das alterações feitas ao nível do comportamento dos adversários controlados pelo sistema flutuam até à superfície, tornando-se cada vez mais evidentes com a acumulação de partidas realizadas, algo que vai contribuir em muito para diminuir o grau de contentamento dos mais exigentes.

Os pontapés de canto sofreram uma das modificações mais óbvias, tal era o exagero na facilidade com que podiam resultar em golo em edições anteriores. Os jogadores vêem-se agora confrontados com uma situação mais próxima da de jogo real, com todos os obstáculos normalmente impostos pela turma adversária. A pedra basilar que sustenta o sistema de marcação de grandes penalidades também foi ligeiramente esculpida, oferecendo agora um conjunto de mecânicas mais descomplicadas.

Aparte de todas as alterações técnicas e modos de jogo, existe um parâmetro que faz desta obra um indubitável hino ao futebol. 2014 FIFA World Cup consegue captar toda a aura festiva que abordei nos primeiros parágrafos do jogo e concentrá-la com mestria ao longo da nossa jornada. Seja ao percorrer os menus, ou ao assistir entusiasmados ao ritual que antecede o começo de cada partida virtual, somos envolvidos num ambiente temático que faz jus à festa real que tem preenchido as cidades cariocas.

Fazer deste jogo um aperitivo para as partidas propriamente ditas tem o seu quê de mágico, na medida em que existe esta tal coerência na forma como todo o evento é retratado, seja na apresentação em tons tropicais da interface do jogo ou até mesmo na visita pormenorizada aos estados oficiais do Mundial.

Em termos técnicos este lançamento sazonal pode não ser a melhor forma de justificar o investimento num novo simulador de futebol. O conteúdo é consistente mas a forma como as rodas dentadas da jogabilidade encaixam pode deixar muito a desejar, ao ponto de me fazer aconselhar os exigentes a darem prioridade à versão vanilla de FIFA 14. Se pelo contrário procuram uma peça de coleção que vos possa proporcionar um boa experiência temática que transpira o ambiente festivo da Copa do Mundo, então esta pode ser uma boa solução.