É difícil que um JRPG seja aliciante a uma enorme audiência, quando este não tem o peso de um Final Fantasy, Tales ou Shin Megami Tensei. Os jogadores têm que ter tempo para absorver a habitual demorada introdução às mecânicas, à narrativa e à premissa que o jogo pretende entregar. Quem aposta nos trunfos da Square Enix, Bandai Namco ou Atlus tem, supostamente, garantido um jogo no qual não se vão importar de entregar centenas de horas. 

Agora com jogos independentes a história é bastante diferente. Estes precisam de uma grande cobertura previamente ao lançamento da obra que está a ser preparada. Talvez tenha sido isto que faltou a Earthlock: Festival of Magic, quando foi originalmente publicado. A produtora norueguesa Snowcastlle Games decidiu não desistir e construir uns alicerces mais fortes para a propriedade intelectual ter força para ser renovada em futuras entregas. Assim o título foi afinado e foi-lhe removido o subtítulo, passando apenas a chamar-se EARTHLOCK.

Quando comecei este RPG já estava à espera de entrar num mundo de clichés do género e de fórmulas já experimentadas. Não me enganei muito neste aspeto mas, mesmo apresentando alguns laivos de originalidade, ao contrário de muitos JRPG, este título independente foi bastante mais acolhedor, sem complicar em demasia nas mecânicas que estavam à minha disposição. Foi uma boa surpresa não estar preso durante horas a um tutorial, em vez de estar a jogar a obra propriamente dita.

Este jogo norueguês leva-nos a conhecer e controlar Amon, um jovem que recolhe recursos para depois vendê-los a comerciantes e assim conseguir garantir a sua sobrevivência, dia após dia. Certo dia, uma missão não corre da melhor forma e colocámos em risco a vida do tio de Amon. Algumas aventuras depois e somos parte integrante de uma espiral de acontecimentos que vai colocar em risco o futuro de Umbra (o mundo do jogo), como também dos outros cinco amigos de Amon que se juntaram, por diferentes razões, à nobre causa do nosso herói. 

Esta história tem claros paralelismos com Final Fantasy IX, nomeadamente por ser também possível jogar com seis personagens. E, sem darmos por isso, ficamos embrenhados nos vários ramos da narrativa que acabam por se entrelaçar. Infelizmente, nem todas linhas de diálogo são as mais inspiradas, é o traço geral do jogo que vale a pena obter. Contudo, a história não agradará, certamente, a todos, visto os detalhes serem tantos e perder o fio à meada acaba por ser muito fácil se estivermos desatentos. 

Uma das particularidades mais interessantes do jogo são os seus combates, porque conseguimos decidir quantos inimigos é que enfrentamos. EARTHLOCK inicia uma batalha por turnos, após termos feito contacto prévio com o inimigo. Nem toda a gente gosta da aleatoriedade das batalhas em Pokémon, por isso esta possibilidade é bem-vinda para assim não sermos surpreendidos com inimigos demasiado fortes e podermos gerir a experiência que queremos receber. Se acham que o conjunto que se aproxima pode causar-vos problemas, então podem tentar separar os seus membros e atacá-los um a um. Caso vejam que o conjunto que se aproxima é demasiado fraco, ataquem-nos todos de uma só vez para a recompensa da vitória ser mais generosa. 

Tal como Fire Emblem, convém estar atento às relações de entreajuda que são possíveis realizar entre os vários membros da vossa party. Todavia, nem sempre é fácil superar todos os encontros, nomeadamente os bosses de certos níveis. Nestas fases do jogo é necessário ver o que é que resulta para fazerem o vosso caminho para a vitória. Há vezes em que convém usarem uma personagem para absorver os danos e deixar que os restantes elementos da vossa equipa ataquem. Outras vezes, dá jeito eliminar os lacaios do boss para que concentremos as nossas forças no inimigo que nos está a provocar mais problemas. Enfim, o que não faltam são táticas para diferentes abordagens ao combate para sairmos vitoriosos. Todavia, nos primeiros encontros, enquanto ainda estamos a aprender as mecânicas que estão ao nosso dispor, somos obrigados a encarar a luta de uma só forma e se não percebermos como utilizar as nossas vantagens e as desvantagens do oponente, entramos num ciclo repetitivo de combate até chegarmos onde o jogo nos quer levar. 

Uma vez ultrapassada esta confusão, o jogo revelou-se divertido, mesmo que seja um RPG bastante linear. Ficamos mais atentos ao dramatismo de certos momentos, à comédia que entra para pautar as situações mais emotivas ou à própria ação estratégica que o jogo oferece nas suas batalhas por turnos. Este último ponto é a verdadeira razão pela qual vale a pena dar uma hipótese a este jogo escandinavo. 

Num ponto de vista técnico, o jogo tem um design bastante interessante, que prima pela sua grande variedade de modelos de inimigos ou de cores que pintam os ambientes pelos quais passamos. Em termos sonoros, EARTHLOCK tem, sobretudo, peças tocadas em piano fantásticas. Desta forma, o dramatismo que a obra quer entregar fica ainda mais realçada.

Sabe-se muito bem que os JRPG não são para todos. Quem quer entrar e sair de um jogo com uma partida rápida, muito provavelmente não irá escolher um JRPG para partidas deste género. Mas quem aprecia uma boa história, pejada de detalhes como esta ou um combate no qual podemos aprecisar o que é oferecido, ficará muito satisfeito com o que EARTHLOCK tem para oferecer, nomeadamente se estão a pensar entrar neste género que algumas vezes pode parecer pouco convidativo.