A indústria dos videojogos tem vindo a ser assolada por uma cada vez mais iminente sensação de ausência de inovação, de exploração de novas ideias e de novas forma de criar experiências videojogáveis. Sobre isto ninguém tem dúvida. O crescimento exponencial das produções independentes nos últimos anos fala por si, aliada ao cada vez maior apoio prestado pelas grandes empresas, fornece-nos informações preciosas na perceção da forma como esta síndrome se tem espalhado.

Felizmente, a saturação de "títulos AAA" que muitas das vezes se limitam a reciclar mecânicas e conceitos que já foram mais explorados do que a base da música pimba porutuguesa, leva a que vários produtores sintam a necessidade de romper com aquilo que tinham feito até à data, enveredando por outros caminhos que lhes possam trazer mais realização pessoal num completo exercer da sua criatividade e imaginação.

O título que hoje analiso é um dos frutos desta situação. Num grito que faz jus à expressão inglesa "my way or the highway", David Pittman, resolveu abandonar o barco da 2K Marin dedicando-se à produção de Eldritch, com a ajuda do seu irmão. É assim que nasce este jogo, com um enredo que perde importância perante todas as mecânicas exploradas, mas que ainda assim continua a ser um ponto presente.

Eldritch

Partimos à aventura com uma personagem da qual nada sabemos, numa biblioteca misteriosa que supostamente foi utilizada por seres ancestrais para selarem de uma vez por todas criaturas que ousavam destabilizar e ameaçar a raça humana. Este espaço serve de pedra basilar para todo o desenrolar das aventuras que nos esperam, devidamente organizadas em diferentes dungeons.

Eldritch é um título que utiliza um sistema aleatório na criação de cada um dos níveis. Este facto poderia à partida provocar algumas desconfianças por parte dos jogadores, mas na realidade, todo o conceito funciona de forma quase perfeita. Cada uma das masmorras pode ser encarada como uma verdadeira caixinha de chocolates - nunca sabemos aquilo que nos vai calhar. Os cenários são sempre variados, convidando à exploração prolixa de cada um dos cantos da casa, guiada pelo desejo de encontrar novas divisões repletas de artigos de valor.

O possível aborrecimento causado pelo facto de toda ação do jogo estar concentrada e estruturada numa sequência de masmorras deixa imediatamente de existir a partir do momento em que nos apercebemos da quantidade de diferentes inimigos que vamos ter que enfrentar. Cada uma destas criaturas vai fazer todos os possíveis para nos complicar a vida à sua própria maneira, num catálogo de ameaças que varia entre quase inofensivas cobras até monstros negros gigantes e extremamente... difíceis de caraterizar.

Eldritch

Para os combater, dispomos da possibilidade de carregar connosco duas armas diferentes e um poder especial. Algumas das opções iniciais passam por revólveres, facas ou o recurso a barras de dinamite, num conjunto variado que rapidamente cria alguma frustração por estarmos limitados a apenas dois slots de inventário. Quanto aos poderes, são mais difíceis de obter, uma vez que em grande parte das situações, possuir o poder certo poderá ditar a diferença entre a vida ou a morte.

As três condicionantes que acabei de referir, quando combinadas, vão ser a principal razão pela qual os jogadores se vão ver obrigados a variar o seu modo de jogo. Cada situação pode ser encarada de formas muito divergentes, tendo em conta o tipo de inimigo que temos pela frente, o nosso objetivo e as armas e poderes que dispomos no momento. Escolher entre uma abordagem silenciosa poderá revelar-se particularmente sensato numa situação em que tenhamos um reduzido número de vidas e queiramos conservar os items que tanto trabalho nos deram a obter.

Após algumas horas de contato com esta obra, fiquei apenas com a sensação de que os dois produtores podiam ter feito um trabalho muito melhor ao nível da componente de som. A banda sonora de Eldritch é exígua, comprometendo uma parte da experiência, que facilmente teria sido elevada a outro patamar com a escolha de uma sonoridade adequada ao ambiente de tensão criado dentro de cada um dos níveis.

Eldritch

Mesmo assim, viver durante minutos (que mais pareceram anos) a tensão de me ver obrigado a explorar uma caverna inteira com poucas vidas e finalmente chegar à segurança da minha biblioteca sabendo que tinha conseguido guardar com êxito todos os artigos adquiridos proporciona uma sensação de realização que só os melhores jogos deste género conseguem oferecer. Eldritch consegue envolver o jogador em toda a sua atmosfera, fazendo-o absorver a necessidade de explorar cada vez mais e mais dungeons e descobrir aos poucos todos os segredos que o jogo tem bem guardados, numa deliciosa refeição que junta dos dois ingredientes mais difíceis de combinar da forma correta na culinária dos videojogos - diversão e desafio.

Aquilo que pessoalmente acabei por caraterizar como uma aventura de terror leve com cenários a lembrar Minecraft e uma jogabilidade que dificilmente não trás BioShock à memória, é na realidade um dos jogos Indie mais bem conseguidos dos últimos tempos. Eldritch utiliza um conceito que acaba por ser bastante simples, conseguindo executá-lo de uma maneira tão brilhante que dificilmente alguém conseguirá jogar este título sem que se sinta de algum modo cativado a continuar a explorá-lo durante mais algumas horas. Ouro sobre azul, é o facto de o jogo estar à venda por apenas 9,59€.