A ficção científica, quando bem orquestrada, permite-nos olhar o futuro antes da sua chegada, como um trapezista que conquista a incerteza de não saber o que vai desafiar, mesmo que seja a queda. O entretenimento continua a ter neste género um fruto apetecível, um adivinhar de uma dor que ainda não se sabe onde vai doer mais. 

Os videojogos, obviamente, estão lá - basta ver a antecipação que circunda cada pormenor revelado sobre Cyberpunk 2077. Esta não ainda não é a análise à obra da CD Projekt RED, mas sim ao primeiro episódio de Elea, a obra que nos chega da Kyodai, uma pequena produtora búlgara.

Com o acumular do tempo dedicado a Elea sente-se a ambição e a ansiedade da produtora em contribuir com a sua visão do género. Infelizmente, sente-se uma execução que não esteve à altura da mente, que não coloca nos processos tudo aquilo que a obra poderia ter sido, se houvesse uma acalmia na hora de nos fazer mergulhar neste mundo.

No arco narrativo de Elea, vestimos a pele de River Elea, a protagonista que encontra na gravidez do seu segundo filho e também no facto de ter o seu marido distante, a representação mais notável da humanidade. Aqui estamos no ano 2073, altura em que os humanos já descobriram e executaram a colonização de Marte e de várias luas.

Este avanço, porém, confirmou também a existência de vida alienígena e uma Inteligência Artificial que é capaz de ter a sua própria consciência. Não só estes vectores, mas trouxe também uma época que coloca a humanidade perto da extinção à laia de uma mutação que está a transformar as crianças nascidas na Terra em psicopatas. 

Quem já leu ou viu algumas das principais obras inseridas neste mesmo género poderá achar que tudo isto tem a sua dose de cliché, contudo, esse nem sequer é o maior problema na forma como este novelo narrativo é colocado à frente dos olhos de quem dedica o seu tempo ao primeiro episódio de Elea.

A alimentar estas ideias estão reviravoltas dispostas de forma interessante, mas também uma aposta no surrealismo que acaba por minar a ambição e a execução que deveria captar o nosso interesse. Ao misturar a realidade e as fabricações da mente desde um período tão inicial, esse argumento chega ao jogador de forma confusa e, sem grandes surpresas, diluído e afastado do seu verdadeiro potencial.

Compreender onde é que River Elea verdadeiramente está e qual é a sua identidade, acabam por ser perguntas básicas que falham à laia de alicerces nas memórias e da simulação das mesmas que sucumbem por serem confusas, não permitindo que o jogador consiga ver pelo meio de tamanho nevoeiro.

É preciso destacar este nível de profundidade na construção narrativa e de carácter de personagens, com a produtora a não se ficar pelo ligeiro que habita em tantas obras, contudo, o erro cometido é que essa mesma profundidade não é progressiva, ou seja, este conceito da deterioração acaba por chegar demasiado cedo, como um mergulho diretamente para o lado mais fundo da piscina. 

Importa também mencionar que Elea é uma obra episódica, pelo que há tempo para tudo isto colher os frutos nos episódios que faltam publicar, claro que há. Ainda assim e como só me posso pronunciar pelo passou à frente dos meus olhos, para já este circo é muito mais um ponto de interrogação do que uma vírgula.

Não ajuda que a jogabilidade seja para já assente em processos que não cativam realmente o nosso interesse. Há jogos que assentaram a sua estadia numa jogabilidade ligeira, como Dear Esther ou até mesmo Firewatch ou Everybody's Gone to the Rapture, porém, essas obras tinham outras valências que nos faziam ficar e ir.

Enquanto vamos explorando lentamente estes cenários, os objetivos que nos vão sendo propostos são na sua maioria pertença do mundando, fazendo-nos deslocar do ponto A ao ponto B enquanto vamos absorvendo os cenários, enquanto vamos falando com as personagens e caminhando em direção a mais um item e a mais um trecho narrativo para o tentar assimilar.

Ainda que Elea possa cair na forma como tem o seu primeiro episódio contado e como tem a sua jogabilidade entregue de forma desamparada, a obra é uma afirmação nos departamentos técnicos. O meu tempo foi dedicado à versão Xbox One X, onde os cenários são apresentados a 60 fotogramas por segundo e numa resolução nativa de 4K. Mas mais que isto, a direção artística toma conta da nossa viagem por esta versão da humanidade.

Na prática, tudo isto para dizer que Elea tem no carisma gráfico e na atmosfera que daí advém o seu maior trunfo para contar a componente de ficção científica. Sim, há aqui muito dos melhores filmes já publicados, mas o jogo consegue colocar na televisão muitas das cenas que lemos. 

Um destes trunfos, seja nas texturas ou nos efeitos, é que as panorâmicas brilham porque nos fazem parar, como se tivéssemos chegado finalmente ao nosso futuro. Não se trata do tão badalado fotorrealismo, até porque algumas das animações são más, mas sim de uma execução técnica que parece saída de mentes que leram e viram o mesmo que os fãs; que leram e viram e - sobretudo - compreenderam aquilo que compõe o imaginário dos fãs, seja nos interiores e nos incontáveis pormenores que lhe dão credibilidade, mas também no amplo espectro exterior.

 

Este grafismo cria a ilusão de estarmos por lá, a habitar umas décadas após a nossa própria existência. As cores garridas indicam este futurismo, que não pertence tecnicamente à algibeira e ao recalcado porque há uma inspiração transversal a todo o episódio. E no campo da sonoplastia, menos expressivo, o destaque tem que ser entregue à vocalização da protagonista, voz que neste caso tem um nome a decorar: Leslie Fleming-Mitchell. 

Depois do primeiro episódio, a grande questão é se Elea conseguirá melhorar com os restantes episódios. Ainda que o primeiro episódio seja tremido, ainda há esperança. Se a produtora conseguir que a execução corresponda às suas ideias, então Elea só terá a melhorar daqui para a frente. E sinceramente espero que seja esse o caso, uma vez que os videojogos precisam de um mergulho profundo no género, mas não de um mergulho que seja tão profundo sem aviso prévio.