A união entre dois géneros por vezes vê-se à distância e assume-se como um acontecimento natural, inevitável. O caso mais recente produziu-se dentro do mesmo género: Enter the Gungeon é uma clara junção entre a ação de Nuclear Throne e The Binding of Isaac. Porém, este título hoje presente para análise não ficou com a sua personalidade perdida nesta junção. Aliás, Enter the Gungeon transborda caráter e estilo próprio, algo que muitos videojogos carecem por saturarem tantos géneros que ganham popularidade no mercado.

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Tal como muitos títulos RPG, o que interessa aqui é o que a obra tem a dar ao jogador. E tem muito. O título da Doge Roll Games aplicou o design clássico de roguelikes às mecânicas de um atirador em perspetiva isométrica. O resultado é uma obra repleta de ação com sequências de combates que conseguem replicar o que vemos normalmente no grande ecrã.

Enter the Gungeon é, antes de tudo, um atirador inserido no subgénero bullet hell, ou seja, muitas balas serão disparadas das câmaras das vossas armas, mas muitas mais serão projetadas dos inimigos para a vossa posição. É imperativo estar em movimento, senão serão atingidos constantemente pela horda inimiga. Por isso, há que escolher estratégias consoante a área em que se encontram para usar e abusar dos pilares que vos oferecem cobertura, dos barris de explosivos que podem direcionar a um grupo de inimigos, assim como a escolha perfeita da arma que possuem no momento.

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Após escolherem a vossa personagem favorita, que vos oferece certas vantagens e desvantagens, começarão uma jornada a abrir fogo por tudo que vos vai barrar o caminho, de forma muito semelhante a The Binding of Isaac, uma sala de cada vez. Ao contrário do jogo mencionado de McMillen, este tem salas enormes, o tamanho ideal para entrar em confrontos em espaços que se vão rapidamente encher de inimigos e projéteis - há por isso muitas manobras de evasão a efetuar e muitas cambalhotas à la Max Payne para evitarem um conjunto de balas que se aproxima do vosso local.

À medida que ia avançando, tive a preocupação do caminho de regresso que me seria requerido fazer para encontrar segredos e mais tarde decidir o que gastar na loja antes da inevitável visita à sala do boss. Felizmente existe uma excelente mecânica de movimentação pelo mapa. Caso tenham de voltar a um local, por exemplo numa bifurcação onde diversas portas levam a diferentes destinos, haverá muito possivelmente um portal próximo para ser usado se estiverem num ponta longínqua do local, assim é um transporte instantâneo ao vosso destino. A produtora soube bem da sua utilidade e colocou portais sempre à porta das lojas e dos bosses.

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Um dos grandes motivos para continuar a jogar Enter the Gungeon é descobrir o seu grande catálogo de armas. As armas de fogo que já estamos habituados de outros títulos aqui não têm grande interesse, encontrar armas ridículas, mas eficazes é que acaba por ser o grande alento do jogo. Há uma em homenagem à pistola de plástico da NES, usada em Duck Hunt, que dispara raios laser e por vezes os patos icónicos em direção ao inimigo. Mas há muitas mais: uma em forma de caixa de correio que dispara cartas, outra que lança t-shirts, ou ainda uma que atira bananas. Enfim, aqui tanto há lugar para o absurdo como para a homenagem, mas aqui reinam certamente modelos cómicos. Seja como for, é essencial estudar o dano que infligem e saber o que usar em lutas com bosses ou inimigos mais pequenos, mas que oferecem um desafio maior.

Mesmo com o extenso arsenal à disposição do jogador, o título da Dodge Roll Games é difícil. E não será com itens, passivos ou para serem usados casualmente, que se tornará mais fácil. Se querem disfrutar do que este título tem para oferecer, primeiro há que se dedicarem seriamente a serem bons nas táticas que usam. Dominar o dodge roll é uma das habilidades básicas. A frustração é algo que vem com o jogo enquanto não forem assimiladas as técnicas para limpar eficazmente as salas que percorrem.

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O estilo artístico escolhido para o jogo é fenomenal. Tanto tem de cómico na sua temática inspirada em armas de fogo - os próprios inimigos são cartuchos e invólucros de de balas chumbo de vário calibre. Como detalhes que preenchem o cenário que lhe dá vida e dinamismo no combate, normalmente algo que não se espera de um título em que o seu grafismo é representado num conjunto de pixéis.

Em suma, Enter the Gungeon recomenda-se aos apreciadores de roguelikes, principalmente se são jogadores que procuram um maior desafio naquele que é apresentado em The Binding of Isaac ou Nuclear Throne, que vos permitem chegar longe se tiverem sorte nos itens que vos são entregues nos baús de loot. Acreditem, se querem passar os primeiros níveis deste título será necessária uma grande habilidade para tal.