Revelado na Paris Games Week, em 2017, como parte da então recém-anunciada iniciativa PlayLink da Sony Interactive Entertainment que visava facilitar o acesso do público em geral a conteúdos videojogáveis substituindo o DualShock por um dispositivo móvel como método de interação, Erica apresentou-se ao mundo como mais um esforço no género Full Motion Video (FMV) que conta nas suas fileiras com mais desastres do que destaques positivos.

No entanto, depois do seu anúncio o jogo não mais voltou a receber qualquer tipo de destaque ou atualização sobre o estado do seu desenvolvimento. E assim continuou até ao dia em que foi efetivamente colocado à venda para todos os interessados o experimentarem. Revelado uma segunda vez durante o evento Gamescom Opening Night Live, agora com uma protagonista diferente, Erica chegou em exclusivo à PlayStation Store poucas horas depois. 

O PlayLink pode entretanto ter caído no esquecimento, mas Erica ainda tem os fundamentos da iniciativa no seu design. Aliás, uma das primeiras mensagens que o jogo coloca no ecrã refere precisamente que a experiência foi pensada para ser jogada com auxílio de um smartphone, fazendo uso de uma aplicação de transferência gratuita. E é óbvio que a obra está otimizada para esse esquema de controlo, uma vez que mesmo que optem por jogar com o DualShock 4, a vossa interação será feita com o deslizar do dedo no touchpad do comando que, por ter uma superfície mais pequena que a de um ecrã de telemóvel, torna este processo pouco funcional.

Infelizmente, independentemente da forma como decidirem controlar a ação, Erica tem demasiados problemas para se tornar uma experiência recomendável. Apesar de valores de produção simpáticos e de desempenhos, de uma forma geral, competentes do seu elenco, o título falha em criar uma narrativa que nos cative de sobremaneira, mesmo quando as respostas às várias perguntas que levanta vão chegando. Mesmo sabendo que, como o jogo refere antes do seu arranque, “nenhum caminho contém todas as respostas”, terminar a obra mais que uma vez apenas elucida algumas dúvidas, não lhes confere o impacto que tanto precisavam.

Erica acompanha a história de uma protagonista, cujo nome não é difícil de adivinhar, com um passado turbulento, tendo ficado orfã após encontrar o corpo do seu pai assassinado. Sem grande justificação para um período de tempo tão longo entre os vários homicídios que assolam a narrativa, Erica é levada para uma instituição psiquiátrica em tempos liderada pelo seu pai após receber na sua porta uma mão desmembrada a segurar um medalhão com o mesmo símbolo que havia sido cravado no peito do seu pai aquando da sua morte.

Essencialmente, a obra da Flavourworks pretende ser uma experiência de mistério com inúmeros momentos de tensão. Contudo, não só o mistério nunca consegue cativar devidamente, como a tensão está longe de alguma vez ser um fator real na aventura. Isto deve-se em grande parte à fraca caracterização das personagens, umas porque têm a densidade de uma folha de papel e outras porque simplesmente não têm o tempo necessário para se estabelecerem devidamente e brilhar.

O facto da história ter uma duração aproximada de uma hora e trinta minutos e de muitas personagens apenas terem direito a duas ou três cenas, dependendo das vossas escolhas, faz com que mesmo as personagens que revelam algum potencial não o consigam concretizar. Ainda assim, não haverá personagem mais desaproveitada que a própria protagonista, especialmente porque está presente em todas as cenas. O facto de ter pouquíssimas linhas de diálogo e de o seu tempo no ecrã ser passado quase na totalidade com uma expressão de forma perplexa ou incrédula em relação ao que vai observando não ajuda a fazer com que o jogador se deixe investir na história de Erica, a protagonista.

Como seria de esperar de uma obra do género, a interação do jogador com a mesma está assente na tomada de decisões que, mais do que afetarem rumo da narrativa, influenciam sobretudo a informação com que terminam a história. Aliás, terminar o jogo uma única vez significará que ficarão com muitas perguntas sem resposta, pelo que será através da utilização da informação obtida na primeira passagem que guiarão as vossas opções nas demandas subsequentes. É uma estrutura bastante inteligente e que dá maior incentivo a voltar a entrar pela vida de Erica. No entanto, seria muito mais eficaz se tivesse ao seu serviço uma história e personagens mais cativantes, o que não se verifica.

Tecnicamente não há muito a apontar ao título da Flavourworks. A cinematografia não deixará ninguém de queixo caído, mas faz um trabalho suficientemente competente para preservar a aura de mistério em que pretende envolver a sua aventura. A transição entre os momentos de interação e as cenas de vídeo é geralmente feita sem grandes soluços ou de forma abrupta. A banda sonora da autoria de Austin Wintory, compositor de Journey e muitas outras obras, serve sobretudo para acentuar determinados momentos da história, não sendo uma presença assídua.

Erica não é um desastre como muitas obras FMV acabam por ser, mas também está longe de ser uma obra recomendável. Mesmo que a sua estrutura premeie e incentive múltiplas passagens pela sua história, o seu fracasso em dar relevo à mesma e em dar às personagens a oportunidade de se tornarem mais interessantes acaba por retirar muito do entusiasmo em jogar um título deste género. No fundo, a sua narrativa é demasiado básica e simplista para agarrar verdadeiramente a atenção do jogador.