Se me perguntarem sobre a minha existência no ano de 1994 não conseguirei lembrar-me como foi o Natal nem tão pouco o meu dia de aniversário. Contudo, lembro-me como se fosse ontem onde estava no dia 1 de maio. Estava um sol copioso, churrasco na casa de uns amigos da família e na televisão o circo da Fórmula 1 tinha chegado ao Grande Prémio de São Marino. Sentado no chão com as costas encostadas a um sofá via a última curva de Ayrton Senna da Silva. Enquanto se averiguava o que se tinha passado, os meus olhos infantis esperavam ver um dos meus ídolos sair do carro e confirmar com o seu aceno que estava tudo bem. Esperei. Esperei. Os veículos de emergência acumulavam-se e começava em mim a sensação que aquele talvez não fosse um despiste qualquer. Ainda que percebesse muito pouco do desporto motorizado que havia de crescer comigo até hoje, começou a pairar no ar um silêncio denso, em muito provocado pela sua extensão Senna morria a fazer o que mais gostava e eu tinha um dos meus primeiros contactos com a perda de um ídolo a ver o que mais gostava.

A Fórmula 1 mudou muito desde então. Regras milimétricas, mais e melhores medidas de segurança, um enxame de regulamentos trouxeram o rei dos desportos motorizados até a esta época dominada, novamente, por Sebastian Vettel e pela Red Bull. Muitos alegam que se perdeu espetáculo, outros afirmam que a mão de Bernie Ecclestone só tem servido para castrar as corridas com políticas externas pouco explicadas. Seja como for, existem jogadores suficientes para a Codemasters publicar um novo videojogo dedicado à modalidade. F1 2013 chegou ao mercado e depois de largas dezenas de voltas e milhares de curvas a tentar aproximar-me do ponto de corda, posso finalmente pronunciar-me sobre a nova aposta da produtora inglesa.

Antes de entrar no cockpit pela primeira vez, ponderei sobre qual é a verdadeira intenção dos jogos licenciados. Depois de uma análise cuidada, cheguei à conclusão que a Codemasters anda a vender sonhos. Milhares de jogadores compram o próximo jogo de Fórmula 1 porque observam as corridas na SportTV e sabem que muito dificilmente poderão entrar num bólide real. É por isso que tantos vão diretamente para o modo Carreira do jogo. Aqui, depois de passarem os testes preliminares durante dois dias em Yas Marina, Abu Dhabi, é-vos dada a fantasia digital de serem pilotos de Fórmula 1. Começando por baixo - no meu caso, pela Toro Rosso, onde esperamos ver brevemente Félix da Costa - e escalando a tabela de resultados até sermos convidados a juntar-nos às fileiras hierarquicamente superiores. Diria que o sonho de todos os que colocaram F1 2013 a rodar no PC, PlayStation 3 ou Xbox 360 é ombrearem com Vettel, Alonso ou o enigmático Kimi Raikkonen. O sonho não é vestirem a pele dos pilotos mas sim chegar ao topo com o vosso nome e lutar de igual para igual com eles.

Quem jogou F1 2012 sentir-se-á em casa. Aliás, demasiado em casa, pois as alterações feitas nos últimos 365 dias são praticamente inexistentes. Sim, continua a ser viciante fazer a tal escalada que mencionei no parágrafo anterior, todavia, as ideias novas, mesmo que fossem o limar de algumas arestas, nunca chegam a ser notadas de maneira significativa. Além do modo carreira, convém desde já mencionar que F1 2013 conta ainda com provas em ecrã dividido, multijogador com suporte para corridas com até dezasseis jogadores em simultâneo e com os Grandes Prémios do circuito mundial que podem ser escolhidos e desfrutados individualmente. Ironicamente, uma das maiores novidades é o regresso deste último modo de jogo, depois de estar ausente na versão 2012 do jogo.

Tacteando pelas escassas novidades presentes nesta versão, impera mencionar em algo que poderá passar despercebido à maior parte dos jogadores até necessitarem dela. Em F1 2013 é possível gravar o progresso feito durante uma corrida, ou seja, deixa de ser obrigatório começar tudo de novo quando algo corre mal e já gastaram todas as oportunidades de rebobinar a corrida até ao ponto prévio àquela distração ou aquele ataque cerrado de um piloto que vos arruinou a corrida. Esta funcionalidade assume ainda mais importância quando estão a participar em corrida mais longas como, por exemplo, as que compõe o modo Carreira.

Outro modo de jogo que merece ser mencionado dá pelo nome de Proving Grounds. No seu interior estão encerrados três variantes do jogo, de onde se destaca a variante "Scenario". Aqui F1 2013 coloca o jogador face a desafios específicos, ainda que seja algo já feito por outros jogos. Estas situações engendradas pelo próprio jogo são boas para perceberem até onde podem ir, até onde são capazes de recuperar, enfim, serve para testarem os vossos limites enquanto jogadores e, se forem competitivos, para os tornarem mais amplos ao longo dos seus vinte desafios.

Depois de experimentar estas novas adições e novas funcionalidades, comecei a perceber porque é que o modo destinado aos carros clássicos foi amplamente divulgado e mencionado pela Codemasters. É, indubitavelmente, um dos poucos pontos onde podemos olhar para o ecrã e perceber que quem está a segurar no comando está a jogar a versão 2013 do jogo. Coloquem o disco na vossa consola ou PC e têm automaticamente à vossa disposição um arranjo considerável de carros, pilotos e até traçados que estiveram em voga na década de oitenta. Contudo, ainda deliciado com este novo modo, comecei a perceber que o mesmo conteúdo referente à década de noventa está apenas presente na edição especial do jogo ou poderá ser comprada através de DLC. Compreendo perfeitamente o lado comercial dos videojogos, mas não deixa de ser irónico que o modo tão incansavelmente divulgado pela produtora esteja dividido.

Depois de terem acedido à vertente "F1 Classics", esta vai buscar vários modos de jogo a outras secções, nomeadamente, Grand Prix, Time Trial, Time Attack e o modo Scenario. À vossa escolha têm, entre os cinco disponíveis, o Williams de 1980, o mítico Lotus 98T de 1986 ou o incontornável Ferrari 87/88C de 1998. Em termos de pilotos, podemos jogar na pele de Michael Schumacher, Berger, Prost, Mansell ou Damon Hill. Um toque interessante é que, independentemente da equipa que escolherem, o jogo oferece duas opções para piloto: o piloto original ou a lenda da equipa.

Como qualquer ponto é uma boa entrada para começarmos a discutir a jogabilidade do título, comecemos pelas sensações que tive com os clássicos e depois abordarei a jogabilidade proporcionada pelos carros da era temporal presente. O primeiro carro que experimentei foi o Williams de 1988 no traçado de Brands Hatch. Se, como eu, dedicaram centenas de horas ao primeiro jogo TOCA, também produzido pela Codemasters, sabem bem do declive que existe após a primeira curva. Escusado será dizer que assim que a pista inclinou para a direita, o meu carro provava gravilha. Estes carros requerem algum tempo de habituação, pois a sua potência parece muito mais crua, mais selvagem, como se os cavalos andassem à solta em vez de estarem domados por mil e uma complicações informáticas. Além disso, depois de apanhar o jeito, devo dizer que soube muito bem-estar sozinho com as sensações que o carro me ia dando, sem me preocupar com KERS e DRS. Depois de algumas provas, não era o homem contra a máquina, mas sim os dois a trabalharem em conjunto para negociarem da melhor maneira cada curva, cada ultrapassagem, fazendo lembrar o que o Hamilton disse depois ter oportunidade de experimentar o MP4/4 de Senna.

Regressando à temporada atual da Fórmula 1, a jogabilidade dos carros parece mais acessível que nos títulos anteriores, porém, é sempre possível ajustar aquilo em que querem ter ajuda. Seja como for, percebe-se facilmente que a Codemasters está numa missão de continuidade e não de medidas drásticas para modificar a jogabilidade central do seu jogo. Como até aqui os jogos da produtora têm tido uma jogabilidade satisfatória e quase sempre apurada, não é de estranhar essa aposta. Todos estes ajustes demoraram algum tempo a fazer efeito. Sejam veteranos ou seja este o vosso primeiro jogo de Fórmula 1, as suas mecânicas de condução não afastarão ninguém, nem tão pouco serão o motivo pelo qual possam não gostar do jogo.

O multijogador online comporta-se da maneira esperada, ou seja, a experiência da Codemasters vem ao de cima e decorre quase sempre de maneira suave. À vossa disposição terão corridas rápidas, personalizadas e um campeonato cooperativo, além da possibilidade de consultarem as tabelas de liderança.

Tecnicamente nota-se, novamente, o trabalho de continuidade. Sim, o jogo apresenta texturas bem conseguidas, efeitos meteorológicos bem representados e que ajudam a diversificar a já mencionada jogabilidade, contudo, com a exceção a serem os modelos dos carros clássicos, parece que estamos perante um reciclar do material do ano passado. Sinceramente, não houve nenhum ponto técnico que me fizesse perceber imediatamente que estava com a versão 2013 do jogo. O único ponto gráfico que importa mencionar é opção muito bem conseguida de adicionar um filtro quando corremos com os carros das gerações passadas. Pode parecer um capricho, mas a verdade é que ajuda a entrarmos em modo retro.

F1 2013 vale sobretudo pela inclusão do modo clássico, a grande novidade desta versão. Além disso, o jogo não tem falhas graves, contudo, também não inova em praticamente nada. As novidades são limares de arestas e provam sobretudo que a produtora está atenta ao feedback dos jogadores. Se nunca experimentaram um jogo da série - ou caso tenham experimentado apenas o primeiro jogo da modalidade produzido pela Codemasters - têm aqui um bom jogo de condução e uma boa representação do mundo da Fórmula 1, todavia, se compraram e dedicaram dezenas ou centenas de horas aos seus modos, possivelmente vão sentir que estão perante uma expansão em vez de um jogo completo. Possivelmente, este conter de novidades e a aposta demasiada segura de recorrer aos alicerces da série é explicada pelo aproximar da próxima geração, talvez a inspiração que a produtora precisa para uma obra relevante.