Era um miúdo quando o Senna morreu. Lembro-me de na altura gostar de ver os carros às voltas e lembro-me de termos parado o que estávamos a fazer. Não sabia muito bem porquê, mas era um desporto que me fazia sentar em frente ao ecrã da televisão. Desde então, a Formula 1 passou a ser o meu desporto favorito, fazendo-me ficar acordado para ver as imagens que todos os anos chegam do Japão e da Austrália, por exemplo.

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Claro que Senna ainda paira sobre o desporto, como qualquer génio paira sobre a sua arte. Vi o documentário homónimo mais que uma vez, percebendo o que ele passou para ganhar em Interlagos - colapsando após a bandeira de xadrez graças a uma caixa de velocidades com sérios problemas; percebendo a experiência espiritual que teve no Mónaco, onde demonstrou todo o seu talento e acabou nas barreiras antes do túnel.

E claro que também compreendo que seja um desporto que para muitos não está no seu auge - além de comentários constantes sobre a inferior cavalagem dos motores e do barulho abafado, houve também um domínio da Red Bull com Vettel e agora um domínio da Mercedes com Hamilton e Rosberg. Além disso, algumas políticas e a chegada aos carros de pilotos com maiores patrocínios podem não ajudar à imagem que se tem do espetáculo tantas vezes descrito como o "circo da Formula 1".

Ainda assim, sigo um processo metódico: ver os três treinos livres para ver o afinamento das equipas, ver a qualificação - que no arranque desta temporada originou mais um flop - e, finalmente, ver toda a preparação que leva ao Grande Prémio, incluindo a formação da grelha. Tudo isto para chegar a F1 2016; tudo isto para mencionar que, pessoalmente, o jogo é uma oportunidade não de prolongar o que vejo na televisão, mas sim para decalcar os seus processos, transcrevendo o que aprendi e, porque não, viver aquelas vidas com um comando nas mãos.

F1 2016 chega ao mercado quando a temporada está parada para férias - regressa amanhã com os primeiros treinos livres em Spa-Francorchamps - propondo a quem o compra testemunhar todas as novidades, embarcando na representação do seu piloto e equipa preferidos durante 21 corridas, ou seja, durante a temporada com mais corridas na história do desporto.

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Como seria de esperar, os vários modos de jogo permitem corridas rápidas, provas em contrarrelógio, um campeonato e partidas multijogador. Contudo, pessoalmente, vejo tudo isto como interessantes complementos ao modo principal, ou seja, que indubitavelmente ajudam a prolongar consideravelmente a longevidade do jogo além do destacado modo carreira, onde podem brincar ao faz-de-conta enquanto - como provavelmente adivinharam - investem tempo numa carreira na Formula 1.

Já conhecem o procedimento: assinem contrato com uma equipa substituindo um dos pilotos reais e comecem a conhecer o vosso novo bólide participando nos treinos livres na Austrália. Antes já terão moldado o piloto digital ao vosso gosto, escolhendo o rosto, o capacete, o número, a nacionalidade, os nomes (primeiro, segundo e abreviado). Não se pode afirmar que a variedade é muita, mas convém não esquecer que não estamos a falar de um Role Playing Game.

Se dedicarem tempo suficiente a F1 2016, têm pela frente uma carreira com dez temporadas, evoluindo o vosso conhecimento do meio, conduzindo de acordo com expetativas das equipas com que assinam contrato: obviamente, assinar pela Manor, pela Renault ou pela Haas não têm as mesmas exigências que assinar pela Mercedes, Ferrari ou Red Bull.

Compreendo perfeitamente o apelo de querer medir forças com Hamilton ou Rosberg pelo troféu mais cobiçado do fim de semana, de querer lutar pelo pódio com Ricciardo ou Vettel, de querer ser o novo fenómeno como Verstappen, todavia, F1 2016 tem também algum encanto na hora de ser parte integrante no melhoramento de um carro que não é considerável favorito às primeiras linhas da grelha, fazendo parte de um projeto como a Williams, Force India, ou a eterna McLaren, que está a viver a segunda temporada na sua aventura com a Honda depois de ter deixado a Mercedes.

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No modo de carreira simples podem ajustar a duração de cada fim de semana, ou seja, podem participar em sessões de treinos, qualificação, e corrida com uma longevidade completa ou encurtar esse tempo, sendo possível até participar em corridas com apenas cinco voltas, por exemplo. É claro que cada um ajustará as opções a seu bel-prazer, contudo, se escolherem dedicar o menor tempo possível a cada fim de semana acabarão por não conseguir participar ativamente nas disputas da corrida, uma vez que uma recuperação memorável raramente se faz em menos de meia dúzia de voltas, a não ser que joguem também com o menor grau de dificuldade possível.

O melhor é não ter pressa em chegar a Abu Dhabi, aprender cada pista ao longo dos treinos livres, não escolher fazer a qualificação apenas com uma volta lançada e participar no modelo tradicional: duas sessões (Q1 e Q2) em que os últimos são eliminados e uma derradeira sessão (Q3) em que os melhores dez medem forças durante 12 minutos. Há algo de recompensador em mimicar o que vemos na televisão, sentido a pressão a ajustar-se à nossa prestação, especialmente se estivermos a lutar para não sermos eliminados ou para nos qualificarmos no topo da tabela.

Entre cada ida à pista não paramos de trabalhar. Seja em frente ao ecrã do nosso portátil ou em conversas com os nossos técnicos, há quase sempre algo a fazer. Agora o jogo não se ensaia muito para nos arranjar rivalidades com outros pilotos, dando-nos uma motivação adicional para fazermos melhor que eles, obviamente derrotando-os na qualificação e nas corridas. Durante o meu tempo com F1 2016, a Codemasters arranjou-me várias rivalidades, ou seja, mesmo depois de derrotarem o vosso primeiro "amigo", há uma continuidade.

Podemos ainda pegar no telemóvel e ficar a conhecer os objetivos para o futuro próximo, assim como receber as últimas novidades da equipa sobre a pesquisa e desenvolvimento do carro, onde participamos de forma ativa. É possível gastar os pontos de pesquisa ganhos na melhoria de vários aspetos do carro: potência do motor, gestão do combustível, chassis, downforce, aerodinâmica, com o jogo a informar-nos da comparação do nosso desenvolvimento face às restantes equipas, tabela que sem grande surpresa é liderada pela Mercedes.

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Foi a forma da Codemasters tentar cativar os jogadores a não ignorarem os treinos, imitando o que se passa na realidade. As equipas precisam dos treinos para cimentarem o desenvolvimento do carro ao longo da temporada, aqui colocando vários programas em frente aos pilotos virtuais, permitindo-lhe, por exemplo, conhecer melhor os pneus, tentar andar a um ritmo de qualificação, assim como vários objetivos, por exemplos: completar uma volta com pelo menos dois Setup diferentes ou conseguir três voltas rápidas consecutivas.

Ainda que todos os métodos nos ajudem a sentir como um piloto, convém mencionar que F1 2016 falha em oferecer mais variedade à vida no paddock. É bom que possamos desfrutar destas funcionalidades, contudo, a sua ilustração é reduzida: têm o computador à vossa frente enquanto estão numa sala que é igual em todos os locais, o técnico que entrega as novidades é sempre o mesmo, tal como a assistente. Obviamente, não é disto que vive o jogo, porém, depois de dez, quinze, trinta corridas, instala-se um sentimento monótono que poderia ter sido facilmente adiado.

A experiência com o jogo dependerá dos parâmetros que têm para ajustar: que tipos de ajudas precisam: querem uma linha que indique a melhor trajetória? Querem assistência na travagem e no controlo da tração? Querem uma inteligência artificial perspicaz ou que leve os carros a passear na pista? Isto determina o quão à vontade estão, com o jogo a recompensar os mais destemidos, aqueles que não querem dar trinta segundos de avanço ao segundo classificado. E claro, permite irem aumentando a dificuldade consoante vão evoluindo a vossa habilidade.

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Dificuldade ajustada, pneus escolhidos, descrições do paddock, mas afinal como é F1 2016 na pista? Bem, pressionem o botão da embraiagem, aumentem as rotações até ao ponto certo e sejam bem-vindos a corridas memoráveis. Por muito que o jogo desiluda na apresentação fora da pista, aqui, onde a ação acontece, é uma jogabilidade que não se escusa a ser uma simulação sem assistências, mas que oferece uma aproximação acessível a todos que o quiserem experimentar.

Houve um piloto que afirmou que as melhores corridas da vida dele não foram a lutar pelos lugares da frente. Isso está aqui espelhado. Seja com a Mercedes, com a Ferrari ou com a Sauber, há tensão, há a satisfação de ativar o DRS, de pedir informações à equipa, de receber instruções via rádio que nos indicam as bandeiras amarelas, o Safety Car e o Safety Car virtual, há, sobretudo, uma experiência que domina aquele momento da vossa vida com uma imersão que me fez pensar muitas vezes se era algo próximo isto que os pilotos sentiam, esta vontade de não desistir mesmo estando na cauda do pelotão; o cerrar de dentes quando se está no miolo do grupo; a tensão de não arruinar a próxima curva quando se está na liderança.

Em vez de ser um bloco massudo de corridas, F1 2016 tenta ao máximo que os jogadores desfrutem de cada corrida por si só, pensando no campeonato quando estão fora do carro. Lutar pelo ponto de corda é uma adrenalina viciante, uma busca de melhorar volta após volta, raspando centésimas à volta anterior, tentando escapar aquele segundo de diferença que fará com que o piloto atrás de nós possa ativar o DRS.

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Ao longo da minha experiência com jogos de corridas tive oportunidade de correr em muitas destas pistas, fazendo o Raidillon de Spa, levando o motor aos limites em Monza, testando a Força G em várias encadeadas, contudo, o Mónaco tem sempre a minha curiosidade. Para F1 2016 havia um traçado que disputava essa curiosidade: Baku, Azerbaijão. Vi a estreia do traçado há algumas semanas na televisão e desde então era um daqueles traçados em que tinha que correr. E não desilude, com aquela esquerda a ser, como esperado, um desafio e a definição de afinar a nossa habilidade, chegando ao cumulo dos centímetros, tal como na chicane depois do túnel do Mónaco.

Fim de semana após fim de semana, F1 2016 conseguiu manter-me investido no campeonato, nunca me fazendo pensar que ainda faltavam X corridas para o final da temporada. A jogabilidade é moldável, contudo, se estão a ler estas linhas e são mestres da condução, podem sempre optar pela versão profissional da carreira: não há assistências, a temporada joga-se a 100%, não podem trocar de câmara e veem a corrida pelos olhos do piloto, se baterem não têm a possibilidade de puxar o tempo atrás e terminam a sessão. Pode ser um choque para muitos - não se admirem se bloquearem as rodas e forem em frente na primeira curva de Melbourne -, contudo, certamente fará as delicias dos melhores jogadores.

O outro grande modo em destaque é o multijogador online. Tive oportunidade de participar em várias corridas inseridas em vários modos de jogo, participando em lutas memoráveis. Posso ter tido muita sorte, mas a comunidade volta a afirmar-se pela positiva: claro que há toques, mas há uma cordialidade que transforma as corridas em acordos de cavalheiros. Todos, ou quase todos, sabem comportar-se na pista, seja a lutar pelo primeiro lugar ou pelo penúltimo. E em termos técnicos, é uma obra assinalável, nunca tendo sentido latência, com as corridas a nunca falharem uma batida.

E por falar em termos técnicos, F1 2016 não é um desastre. É verdade que não é o jogo mais bonito que passou pela nossa PlayStation 4, contudo, a modelagem dos carros é sólida, com o grafismo a brilhar nas provas disputadas à chuva, oferecendo efeitos interessantes, tanto de água como de luz. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da modelagem dos pilotos ou das personagens que contracenam com vocês fora da pista.

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No áudio, o destaque são as comunicações com a equipa durante as provas, dando uma nova camada de imersão, especialmente porque as conversas saem da coluna do DualShock 4, o que de alguma forma nos transporta para aquele cockpit. Os motores dos carros também estão afinados, ou seja, quem se queixa que parecem abafados tem aqui a oportunidade de deitar mais uma acha para a fogueira.

F1 2016 é uma obra que se afirma graças à sua jogabilidade, aos processos que espevitam a imersão na nossa carreira, participando no desenvolvimento do carro e comprando um bilhete para a fantasia da Formula 1. A Codemasters consegue entregar uma obra facílima de recomendar aos amantes da modalidade e aos amantes do género, contudo, tem que melhorar o acessório, nomeadamente o que se passa fora do alcatrão.