A Formula 1 tem estado em alvoroço nos últimos tempos. Com a saída de Bernie Ecclestone sente-se um mudar no ritmo das mentes de quem lidera os desígnios da modalidade automóvel rainha. A temporada que está em curso nota também alterações no desporto propriamente dito, bastando olhar, por exemplo, para os pneus traseiros que equipam os carros, este ano mais largos.

Rosberg, ainda campeão em título, não está nas pistas para defender o galardão conquistado no ano passado, contudo, Hamilton, crónico candidato ao primeiro lugar, não está a ter vida fácil. É provável que no final seja ele o novo campeão, mas neste momento, apesar de ter reduzido a diferença em Spa-Francorchamps, importa não esquecer que está em segundo lugar da geral, sete pontos atrás de Vettel (213 contra 220 pontos).

Há uma grande falange de jogadores que se interessam por esta modalidade desportiva. E essa falange pode contar na atualidade com a Codemasters para entregar uma representação digital do seu desporto automóvel preferido, com F1 2017 a já estar disponível. Depois de testar a nova aposta, é fácil recomendar o jogo e afirmar que é bom, bastante bom.

Imagens Analise F1 2017

É um título que obviamente recompensa a vossa habilidade na pista, contudo, a produtora britânica continua a dar-nos motivos para preparar cada corrida durante as sessões de treinos, para estudar ao máximo as estratégias para a prova e, não menos importante, dá-nos motivos para não saltarmos logo para a qualificação e posteriormente para a corrida no domingo. Mais: com F1 2017, sente-se que cada fim-de-semana é um evento por si próprio.

Há alguns modos secundários, mas o principal a solo é a Carreira. Com um alcance que pode chegar a uma dezena de temporadas, somos convidados a escolher uma equipa, criar um novo piloto e personalizá-lo, e posteriormente tentar estar à altura das expectativas da formação. Sente-se que o jogo não luta contra nós e fornece-nos as ferramentas necessárias para termos sucesso ou, pelo menos, para não sermos uma desilusão contínua.

E isto está presente logo no momento de escolhermos uma equipa. Se quisermos fazer apenas uma temporada sem nos preocupar muito com melhorias dos carros, podemos escolher uma equipa de topo: Mercedes, Ferrari ou Red Bull. Obviamente, ser campeão do mundo com a Mercedes pode ser feito ao final de uma temporada. Escolham uma equipa do meio do pelotão, como a Force India, a Williams ou a Renault, e os objetivos são diferentes. Caso queiram apostar em extrair o máximo da colaboração com a equipa, sabendo perfeitamente que vão terminar a primeira temporada no último terço da tabela enquanto almejam passar à segunda fase de cada qualificação e tentam desesperadamente os primeiros pontos, então escolham a Sauber ou a McLaren. 

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Isto não é uma piada fácil às custas da histórica McLaren, mas sim a representação digital do que a equipa tem feito nos últimos tempos. Basta olhar para esta temporada: são semanas em que Alonso e Stoffel Vandoorne têm dificuldade em terminar uma corrida. Basta olhar para o Grande Prémio do fim de semana passado onde Alonso foi humilhantemente ultrapassado nas rectas de Spa depois de uma qualificação interessantíssima.

Claro que há a tentação de fazermos equipa com Vettel ou com Hamilton, mas há também uma enorme atração por sermos - ou tentarmos ser - a surpresa da época. Obviamente, escolher uma equipa da segunda metade da tabela abre também espaço a progressão pessoal, a dar nas vistas. Se nos aliarmos logo à Ferrari ou à Mercedes, não há muito por onde possa subir na carreira. Têm, porém, um carro mais divertido de pilotar e que não se arrasta na pista.

Essa colaboração entre engenheiros e piloto faz-se sobretudo durante os treinos livres: há dois treinos de noventa minutos e um terceiro de uma hora. Tal como o campeonato real, a equipa pede ao piloto que teste o carro, vários procedimentos que dão informação vital para melhorar o bólide. Há um sistema de melhorias que rapidamente se torna viciante e profundo - são quatro áreas de R&D (Research and Development) para melhorar, nomeadamente, o chassis, a parte aerodinâmica, a durabilidade do carro, e a parte da performance (powertrain).

Pedindo inspiração aos Role Playing Games, pela frente tempos uma árvore em que vamos colocando os Resource Points ganhos. Ou seja, a evolução do carro acaba por ser escolhida pelo jogador. F1 2017 mostra-nos como está a concorrência, permitindo-nos ver o quão à frente ou atrás estamos. Na prática, isto permite-nos tentar acompanhar o resto do pelotão, especialmente se estivermos sentados num carro das equipas mais fracas.

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A questão é que são muitos componentes que podem ser desenvolvidos em cada uma das quatro áreas. É possível ir desenvolvendo a resistência da caixa de velocidades, a fonte de energia, os hidráulicos, até a tampa do motor pode ter o seu peso reduzido. Aliás, são tantos pontos que a equipa tem as suas recomendações, que podemos ou não acatar. Não pensem, contudo, que ao gastarem os pontos ficam logo com todas as melhorias disponíveis. As mais básicas são instantâneas, sim, mas há peças que demoram duas, quatro, e até seis semanas a serem desenvolvidas. E não há a garantia de sucesso, pois mais que uma vez fui notificado que os avanços tinham falhado.

E isto depende também da equipa onde estão. Por exemplo, se estiverem na Sauber, terão muito trabalho pela frente na componente aerodinâmica. Se tiverem escolhido a já mencionada McLaren, é a Unidade de Potência que precisa de mais trabalho. Desbloquear tudo isto torna o carro obviamente melhor com o passar do tempo, sendo que o jogo recompensa o jogador, ou seja, sentimos que tal aconteceu devido ao nosso envolvimento e ao nosso trabalho. Quanto mais tempo dedicarem a F1 2017, mas se sentirão recompensados no final da prova que encerra o campeonato em Abu Dhabi.

Apesar de toda esta informação, o título faz um trabalho sólido em nunca nos deixar à deriva: podemo ver o R&D que temos em progresso, o progresso geral do desenvolvimento feito, seja o nosso ou das restantes equipas do pelotão. Quem conhece minimamente bem a Formula 1 estará mais à vontade, claro, mas mesmo quem não é fã acérrimo consegue extrair algo deste envolvimento graças à forma arranjada para manter o jogador incluído no processo.

Além de participarmos na qualificação e na corrida, em estarmos à altura do que a equipa quer de nós, os Resource Points são também atribuídos ao participarmos em Programas de Treino durante as sessões livres. Por exemplo, é nestes programas que nos é explicado como gerir o combustível e os pneus, assim como aprender a estratégia de corrida, o ritmo da qualificação. 

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São pequenos exercícios que nos explicam também como é que o jogo funciona. Pegando na gestão de combustível, o jogo explica aquilo que os fãs da modalidade já viram na televisão: o Lift and Coast. Ou seja, em vez de passar do acelerador para o travão imediatamente, deixar um breve tempo para o motor não estar esforço e assim poupar combustível. São trechos interessantes, porque além do desenvolvimento do carro, permitem também aprender técnicas que serão úteis nas corridas. 

A longo prazo, o modo acaba também por ser um ensinamento no desgaste do carro. Ou seja, tal como no desporto real, também aqui os componentes (caixa de velocidades, unidade de potência, turbo, etc) vão deixando de estar a 100%, sendo preciso fazer a sua substituição e, caso assim sejam obrigados, a uma penalização por exceder o permitido.  

Por esta altura já devem ter percebido que sim, é possível jogar F1 2017 apenas como um jogo de corridas, mas o jogo da Codemasters é também um exercício de complexidade estratégica e de profundidade. E esta estratégia continua na corrida: Com que pneus arrancar? Quantas paragens fazer nas boxes? Não é uma novidade, a F1 vive disso, da tentativa de recuperar tempo com uma abordagem diferente, de jogar na antecipação da chuva, aproveitar a entrada em pista do safety car. O jogo imita a realidade de uma forma sólida e convincente.

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Sólida é também um bom adjetivo para classificar o que se passa na pista, ou seja, a jogabilidade. Não há propriamente uma revolução perante a F1 2016, mas sim uma continuidade. Como os carros são mais largos e têm outras especificidades técnicas, a aerodinâmica permitiu-me uma condução mais agressiva. Novamente, depende do carro que têm em mãos, mas durante as provas foi-me permitido experienciar momentos de enorme adrenalina, de diversão, e claro, de frustração.

Quem está habituado a ver e a ouvir as corridas na televisão, certamente já ouviu as expressões “pendurado nos travões” e “atirar com o carro para a curva”. Há pistas que permitem tão bem isto: travar na última oportunidade fugindo por milésimos ao bloqueio das rodas e depois empurrar o carro para o ponto de corda, imaginando as forças G enquanto lutamos para ver até onde o analógico direito pode chegar.

A frustração não é tanto com questões do jogo, mas sim a irritação inerente ao desporto. Aprender que não podemos ganhar todas as corridas é meio caminho andado para aceitar o destino de algumas provas. Jogando com os danos a 100% e sem a possibilidade de Rebobinar o Tempo para corrigir o erro, houveram abandonos por erro meu, situações em que fui forçado ao erro, e situações em que a Inteligência Artificial poderia ter reagido melhor. Não é má, mas não é perfeita, especialmente no momento de seguir a linha artificial que tem estabelecida pelo código do software. 

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E claro, sendo uma réplica oficial e autorizada do campeonato do mundo da FIA, são várias as pistas que se prestam a momentos mágicos. A já mencionado pista belga, mas também Monza, as pistas ao fim da tarde e à noite, o eterno Mónaco, tão amigo de me proporcionar momentos memoráveis e também de me atirar contra um muro. Baku também, especialmente o trecho com a chicane tão rente aos muros. Deixei lá, por diversas vezes, tinta; quando não foi uma roda. Pode-se dizer que é falta de habilidade, mas prefiro pensar que é uma homenagem aos grandes (Hamilton, 2016).

Há muito que se diz que o piloto da Formula 1 moderna tem muito em que pensar além dos pedais. F1 2017 prova-o. Além de termos que estar constantemente a supervisionar o combustível (ajustar a mistura se for necessário), os pneus e o estado dos diferentes componentes durante a corrida, temos ainda a opção para comunicar com a equipa através do rádio. São inúmeros comandos: saber quem está à frente ou atrás, onde está o companheiro de equipa, pedir para ir às boxes, mandar calar o Jeff ou pedir mais informações.

Enfim, é um manancial de comandos. É verdade que o engenheiro comunica os desenvolvimentos mais importantes de forma automática, mas se precisarem de alguma informação, acreditem que o efeito de distrair da corrida, imitando a sensação que o piloto deve sentir, ou seja, monitorizar as informações e falar com a equipa pode, mesmo que feito nas rectas, distrair e levar ao erro. Com o passar do tempo vamos memorizando onde está o comando que queremos, mas nunca deixou de ser uma distração.

Juntem-lhe a atenção que é preciso ter ao procedimento de partida, às zonas de DRS (onde se abre a asa traseira para um aumento temporário de velocidade) e o procedimento de ida às boxes, que pode ser manual, e ficam com uma clara ideia do quão complexa pode ser uma corrida. E claro, tudo isto além de terem que pilotar o carro e tentar chegar à melhor posição possível.

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Como modos complementares temos a hipótese de realizar Grandes Prémios isolados, campeonatos fora do mundo profundo da carreira e ainda provas em contrarrelógio. Em alguns destes modos e em certas provas na carreira - onde somos convidados para eventos especiais - temos os carros clássicos, veículos presentes também no online. E são um prazer de conduzir.

A Codemasters foi inteligente ao incluir veículos de várias épocas distintas. Eu cresci com tudo isto, desde MP4/4 de 1988 ao Red Bull de 2010 (RB6), passando pelas “naves espaciais” que foram os Ferrari, Renault e McLaren de 2004 a 2008. Olhem para o MP4-23 e ficam com uma ideia clara do falo: asas em cima de asas, flancos ridiculamente complexos, e as inesquecíveis coberturas das rodas.

Foram outros tempos, alguns algo controversos, mas voltar ao pretérito é excelente. Não só porque o seu comportamento em pista é diferente, mas sobretudo porque o som é diferente. O som dos motores já foi pior do que é este ano, mas ouvir estes gritos, especialmente com auscultadores, é um deleite. Conduzir um McLaren no Mónaco e reviver a era de Senna, o homem que se tornou lenda e que para mim continua a ser o melhor de todos os tempos. Ou voltar ao tempo de Schumacher na Ferrari. 

São “só” carros, sim, mas têm um lugar especial. Os motores, a representação visual do interior e do nariz, levaram-me por um atalho até à minha infância - onde a Formula 1 era na RTP e os almoços de domingo tinham mais interesse que a comida. Não importa se são melhores ou piores, se são mais rápidos ou mais lentos: são carros evocativos, com um som que é como o canto de uma sereia.

Esta sonoplastia e este grafismo assenta em capítulos sólidos que se prolongam por todo o jogo. Jogado numa PlayStation 4 Pro ligada a uma televisão 4K, não posso dizer que o jogo é feio, com os destaques a serem os efeitos dinâmicos da meteorologia, a luz e as sombras. A modelagem dos carros está idêntica à do ano passado. No som é o mesmo: é uma continuidade do que já tínhamos ouvido. De notar que passar de um carro clássico para um carro moderno é um retrocesso incrível. Muito se tem debatido sobre o som dos motores modernos, mas F1 2017 é novamente uma prova inequívoca do quanto se perdeu.

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Já agora uma linha para a modelagem das personagens. É um desastre. Os pilotos são reconhecíveis, mas têm expressões no mínimo cómicas. Mas a cereja no topo do bolo é o rosto da vossa assistente, dos vossos engenheiros, e de algumas caras conhecidas do paddock. Lembro-me de Maurizio Arrivabene (Ferrari) e de Vijay Mallya (Force India), lembro-me porque são rostos digitais capazes de alimentar pesadelos.

Para acabar numa nota mais positiva, o multijogador. Não há grande latência, ainda que algumas pistas apresentem um resquício de screen tearing, mas nada que afecte a descarga de adrenalina de fazer uma qualificação e de lutar pelos lugares possíveis. A estrela da longevidade são os campeonatos online, mas mesmo aceder ao online para uma corrida, desde que seja com jogadores que não estão ali para fazer donuts, foi sempre uma experiência que prolonga a já extensa longevidade do jogo. E sim, há eventos disponibilizados pelo próprio jogo. Na semana de estreia, era fazer uma recuperação com Max Verstappen em Spa.

Há muito para fazer em F1 2017 e a Codemasters consegue uma obra que pode ser complexa, capaz de consumir dezenas e dezenas de horas, mas que pode ser também ligeira e divertida para quem procura apenas vestir a pele do seu ídolo. São muitos pormenores que compõem um título que não esquece a jogabilidade aprimorada, que representa bem o desporto real, dando-lhe até um toque de drama com as rivalidades que nos arranja. Sim, porque este ano há drama que chegue, basta ver o que os rapazes da Force India têm feito, ou as declarações de Alonso via rádio. Agora venha Monza, que cá estarei para ver na televisão e jogar novamente.