Vejam o filme Rush - Duelo de Rivais e percebem que a paixão é um motor impulsionador da Fórmula 1 como os que alimentam os carros. James Hunt e Niki Lauda competiram antes de eu me apaixonar pela modalidade, porém, entre provocações e trocas de tinta na pista e uma marcação cerrada fora dos circuitos, estava uma admiração mútua e uma rivalidade que despertou o melhor da dupla enquanto pilotos, tornando-os campeões do mundo. Hoje em dia a modalidade está muito diferente, contudo, quero acreditar que a paixão e a rivalidade entre os pilotos permanecem intactas. F1 Race Stars: Powered Up Edition não tem esses sentimentos e não vai além de uma interpretação livre do desporto, negligenciando a sua simulação e dando-lhe um cunho mais perto de Mario Kart e Sonic & All-Stars Racing Transformed.

Antes de chegar o pé direito próximo do acelerador para a partida da primeira prova, urge esclarecer o que é a Powered Up Edition. Estamos perante uma versão exclusiva da Nintendo Wii U do jogo que foi lançado para PC, PlayStation 3 e Xbox 360 no final de 2012. A reprodução digital dos pilotos foi transformada em pequenas caricaturas do pelotão, os carros em karts e, como já mencionei, o estilo de condução é agora arcada. Contudo, a Codemasters não fez o mínimo esforço para atualizar a base de dados que seria atual no final de 2012. Ver Lewis Hamilton ainda na McLaren faz-me relembrar o momento caricato em que na primeira época ao serviço da Mercedes, por força do hábito, entrou nas boxes e parou o carro em frente à garagem da anterior equipa. Mas há mais. Webber já não está na Red Bull, está na Porsche e numa modalidade diferente, Felipe Massa terminou contrato com a Ferrari, Shumacher deixou a Mercedes e abandonou a Fórmula 1 entretanto. Enfim, muitos pilotos seguiram a sua vida, algo que a Codemasters não fez.

Powered Up Edition é composto por um tríptico de modos: Jogar, que é a distância mais curta entre o ecrã principal e uma corrida, contrarrelógio, que, como o próprio nome indica, vos coloca a tentar serem mais rápidos que três tempos estabelecidos - ouro, prata e bronze - e, finalmente, o modo carreira, onde gastarão a maior parte do tempo dedicado ao jogo. Porém, em vez de jogarem um campeonato do mundo como seria de esperar, terão à vossa frente vários campeonatos, sendo que o número de provas comportadas vai diferindo. Ganhem taças de ouro e/ou triunfem em provas específicas e vão desbloqueando as paragens conseguintes. A longevidade não é tímida e coloca na vossa Nintendo Wii U três dezenas de campeonatos. Porém, alguns são compostos por apenas duas ou três provas.

O ambiente ligeiro já mencionado transparece na maneira como os pilotos e os respetivos carros estão retratados. As caricaturas acentuam as suas feições, como por exemplo o queixo cinzelado de Webber. Os carros e os pilotos são minúsculos, o que ganham ainda maior destaque quando comparados aos capacetes desproporcionais. Pessoalmente, acho esta abordagem interessante, pois permite aos puristas do desporto aprenderem a deixar brincar com o que lhes é querido e, possivelmente, despertará a atenção e curiosidade dos mais novos e daqueles que ainda não se deixaram contagiar pelas valias do desporto real. Se forem puristas e acharem que a Fórmula 1 está num pedestal intocável, não sei como reagirão quando ganharem uma prova e virem Sebastian Vettel a fazer breakdance no pódio.

É nas primeiras voltas aos circuitos que se revela a maior parte do que deixa a desejar. O desenho livre inspirado nos traçados oficiais não é particularmente interessante e apelativo à contínua competição, a inteligência artificial dos adversários é inconstante e a jogabilidade é rígida e pouco dada a brilhantismo por parte dos pilotos. A fluidez demonstrada pelas séries que mencionei no início da análise não está presente, o que sarapintou a minha experiência com tons desenxabidos. O uso dos power-ups também recai sobre o que já foi feito, oferecendo uma paleta de oportunidades que tem um denominador comum: déjà-vu.

Assim, os momentos inspirados são demasiado escassos para avivar todas as competições em que participámos. Além disso, os próprios traçados oferecem caminhos secundários obtusos e a obrigatoriedade de passar por zonas previamente denominadas para reparar as avarias que o embate dos poderes adversários têm no nosso bólide é algo que quebra a motivação. Não digo que seja algo supérfluo, porém, a fragilidade da chapa encerrada pelos logotipos dos patrocinadores parece ter a resistência de uma folha de papel molhada.

A cereja no topo do bolo é o uso estapafúrdio do Safety Car. Respeitando o propósito que tem nas provas oficiais, a sua entrada em pista abranda o ritmo da corrida e permite ao pelotão reagrupar-se. Inúmeras vezes, se estiverem atrasados não é o suficiente para recuperarem o terreno desejado e se estiverem em primeiro é uma questão de segundos até terem o segundo classificado colado ao vosso difusor traseiro. Infelizmente, estes problemas são idênticos em qualquer uma das três classes incluídas, nomeadamente, 1000cc, 2000cc e 3000cc.

Convém ainda destacar outra utilização de um sistema que está presente no desporto real: o KERS. Em zonas alocadas em todas as pistas, o passar do vosso carro acumula energia que pode ser gasta para aumentar temporariamente a sua velocidade máxima. Nem sempre funciona como era suposto, todavia, ocasionalmente dá alguma emoção adicional às ultrapassagens e remexidas no pelotão. Sem ser nada revolucionário, sempre ajuda na alteração de posições, o que não deixa de ser salutar.

Como versão exclusivamente à Nintendo Wii U, a Powered Up Edition pouco faz por oferecer algo único na consola caseira. Em termos de conteúdo, o destaque vai para a inclusão de um quarteto de pistas novo - Canadá, China, Europa e Índia que tinha sido lançado como DLC nas outras versões do jogo. O GamePad serve para controlar os carros usando o giroscópico, o que não é nada prático e não oferece nada de inovador ou interessante, além de poder ser usado como um dos quatro comandos necessários para desfrutar do multijogador local que suporta até quatro jogadores em simultâneo. Infelizmente, esta versão do jogo não suporta multijogador online, portanto se quiserem competir com outros jogadores de carne e osso, terão que ter à mão mais três comandos.

Tecnicamente, esta edição de F1 Race Stars não apresenta problemas de latência e a passagem pelo cenário decorre sem grandes problemas. Importa mencionar que o estilo cartoon das personagens e dos carros é extensível ao cenário onde as provas decorrem. Algumas pistas oferecem um trabalho dedicado aos pormenores, porém, a alteração do traçado nem sempre produz os melhores resultados, como já foi evidenciado anteriormente. O pormenor mais interessante está nas secções molhadas das pistas: o reflexo da água na pista e toda a ambiência provocada está conseguida.

F1 Race Stars: Powered Up Edition consegue oferecer alguns momentos interessantes, em que o encanto dos títulos inseridos na saga Mario Kart está presente. Porém, a jogabilidade é demasiado rígida, o conteúdo novo e exclusivo da versão que agora chega à Nintendo Wii U é risível e a ausência da componente multijogador online é incompreensível. Existem ofertas mais interessantes no mercado e uma abordagem ao género que está prestes a chegar em exclusivo à consola caseira da Nintendo. Nem o preço de venda reduzido a 24,99€ o tornam recomendável.