Pedro Martins por - Nov 29, 2018

Fallout 76 – Análise

Fallout 76 é uma obra com imenso potencial, uma visão para um recreio de jogo exponencialmente maior do que tivemos oportunidade de explorar em Fallout 4. Nota-se claramente a ambição teórica da Bethesda, mas infelizmente é notável o quão aquém está a execução. Há muito, mesmo muito para fazer, com o problema a ser a motivação para permanecer ligado aos servidores durante os próximos meses.

Com um imenso legado, a série Fallout terá em Fallout 76 o seu título de laboratório, ou seja, o transpor para o online e a experimentação dos seus criadores. A tal visão é que a comunidade se una para comungar nas atividades pensadas para prolongar a sua longevidade ad aeternum, mesclando processos normalmente associados às campanhas a solo com aqueles que são prática comuns nas aventuras online. Contudo, é uma mudança demasiado drástica, com o produto final a carecer alma e por vezes a identidade que é apanágio da saga.

A premissa começa como é prática habitual. Criamos a nossa personagem, investimos alguns minutos a compreender que estamos no Vault 76, e saímos pela porta para uma vastidão até perder de vista. Percebemos que estamos em West Virginia e que o calendário marca o ano 2102. Cento e cinquenta anos antes dos acontecimentos de Fallout 3 e de Fallout 4; cento e cinquenta anos antes de visitarmos Beltway e Boston. Inicialmente, nestes primeiros momentos, Fallout 76 parece que está apenas a ensinar-nos o básico num longo tutorial, com o potencial a estar cá todo enquanto os jogadores se vão maravilhando com o pensamento de todos os cantos e recantos que vão poder explorar.

Porém, o passar das horas começa a mostrar o lado mais morno e desenxabido da obra. A humanidade não estava apenas ausente do Vault 76, mas continua praticamente fora de Appalachia à laia da aniquilação nuclear. As horas que vamos acumulando em Fallout 76 vão-se parecendo mais e mais com uma visita prolongada de um país fantasma, onde habitam robots e mutantes que atestam o sentimento de desolação impossível de deixar para trás.

Esta ambição desmedida de colocar um mapa aproximadamente quatro vezes maior da área de Fallout 4 acaba por trazer à superfície um síndroma que não é propriamente novidade. Ou seja, um pouco como certas áreas de Grand Theft Auto: San Andreas, fica a sensação que a produtora chegou a um ponto em que tinha os quilómetros quadrados, mas que não sabia muito bem o que fazer com eles. Fallout 76 tem muito para contar, com os jogadores a poderem descobrir cidades completamente diferentes, seja na arquitetura ou na sua história, sendo possível tentar compreender a diversidade do que se passou ali antes da nossa chegada. Contudo, a forma como este contexto é mostrado – graças à ausência de humanos a dependência formas indiretas (como ficheiros áudio) é enorme -, acaba por cansar e aborrecer o jogador precocemente.

Fallout vive – ou viveu – muito dos diálogos que alimentavam a miríade de personalidades que íamos encontrando pelo caminho. Ao remover praticamente esta faceta do jogo, ao cortar e cortar num bom arco narrativo, a Bethesda fez com que Fallout 76 pareça uma obra estanque, pois as quests (e os diversos processos da jogabilidade que as alimentam) associadas à componente multijogador online não é um substituto para o investimento emocional que apenas é possível graças a um bom argumento. Há histórias que apenas podem ser contadas pelas pessoas que as viveram, não por um infindável chorrilho de Holotapes.

Acredito que mesmo os fãs mais devotos não tenham a paciência e a força de espírito para continuar investidos nesta forma passiva como o lore é fermentado e dado a consumir. Quando a assimilação do leque de processos que compõem Fallout 76 é feita, compreendemos que, apesar de toda a sua ambição e da imensidão do seu mapa, o cerne assenta em poucos pilares: explorem o cenário, matem (ou tentem) tudo o que se cruzar no vosso caminho, recolham o loot, passem tudo a pente fino à procura de recursos vitais, usem a matéria-prima no sistema de crafting, vão evoluindo a personagem e subindo de nível. Não é uma obra complicada de compreender, desde que conheçam os básicos dos Role Playing Games e não percam os medidores de sinais vitais de vista.

Sendo um jogo de índole online, Fallout 76, novamente, tem um melhor alcance na teoria do que na prática. É possível formar equipa e explorar o mundo, assim como participar em missões (public quests, por exemplo) e em combates como equipa. Contudo, não só o mapa de jogo não é propriamente um local cheio de personagens controladas por outros jogadores de carne e osso, como há certos aspetos desta tão divulgada componente que parecem inacabados.

Mesmo em equipa, há detalhes como o loot e os próprios objetivos das quests que não são partilhados. Não deixa de ser algo estranho que o multijogador seja a espinha dorsal da obra, mas que a Bethesda não faça tudo o que tinha ao seu alcance para manter os jogadores em equipa. Ou seja, jogam num mundo partilhado, mas acabam muitas das vezes a explorar e a evoluir por este mundo de forma solitária, não havendo grandes e inequívocos incentivos para dedicar a vasta maioria das horas à formação e manutenção das equipas – nem no modo PvP, que para já parece ser bastante inconsequente, seja nas perdas como nas conquistas.

A jogabilidade que sustenta tudo isto não é, como já foi mencionado, nada de propriamente revolucionário ou inovador. Podem ir moldando a vossa personagem investindo os pontos nos Perks (Perk Cards), que são os tradicionais, ou seja, Charisma, Endurance, Perception, Strength, etc; podem ir apanhando, criando, restaurando e melhorando armas e fatos, itens variados que ajudam a ir combatendo a fome e a desidratação, factores sempre presentes, como foi mencionado, mas também factores que obrigam os jogadores a estarem constantemente a passar a pente fino o cenário.

Obviamente, quantos mais itens apanharem, mais perto ficam de conseguirem criar o que precisam no vosso Camp – que pode ser movido, personalizado e melhorado – ou no Camp da Overseer, por exemplo. Nas várias estações, podem cozinhar, criar ou modificar armas ou fatos/armaduras, tal como mencionado. Sem grande surpresa, comparem as estatísticas e criem o que melhor se ajustar à vossa situação, com a água fervida ou purificada a ser de extrema importância ao longo da jornada – o que não será propriamente uma surpresa se tivermos em consideração o cenário pós-apocalíptico onde estão a jogar.

Quando não estiverem a lutar contra a fome e a desidratação, é provável que o outro tipo de combate seja contra incontáveis tipos diferentes de criaturas que não se ensaiam muito para tentar a sua sorte. Provavelmente conhecem a funcionalidade Vault-Tec Assisted Targeting System, mais conhecida como V.A.T.S.. Era um dos pontos fortes de Fallout, pois permitia abrandar o tempo e pensar o disparo às diferentes partes dos inimigos graças ao investimento dos Action Points. Tido por muitos como recompensador e divertido, é um sistema que está francamente diferente em Fallout 76.

Uma vez que o jogo tem em destaque o seu ADN online, os jogadores não podem demorar enquanto abrandam o tempo, pelo que o V.A.T.S. agora funciona em tempo real. Infelizmente, na prática, isto remove uma parte significativa da diversão e do charme que os encontros costumam ter nos títulos Fallout, pois a parte estratégica dá lugar a combates mais genéricos e sem grande diversão proporcionada aos jogadores.

O melhor que a Bethesda tem para oferecer com o seu novo jogo acaba por ser aquilo que sobrou do legado deixado por Fallout até aqui. Na prática, Fallout 76 brilha quando surpreende os jogadores pela sua exploração, recompensando-os com o que construiu no mapa. A variedade está presente, com Appalachia a apresentar a destruição de várias formas e graus de intensidade. Desde locais que intimidam à exploração dos edifícios, há aqui resquícios do que o jogo podia ter sido. Esta edificação é, no entanto, diluída com o tamanho do mapa, ou seja, os trechos entre locais interessantes são tão grandes, que a monotonia mencionada corta a motivação.

É uma mapa de jogo com locais que não são feios, especialmente se olhados à distância. Vê-se claramente que as texturas não são as mais detalhadas de 2018 – nem sequer as mais detalhada de um jogo em cenário aberto publicado este ano – mas que estão aqui para criar – ou pelo menos tentar criar -, uma atmosfera. Conseguem-no com resultados mistos, como mencionei, ora alicerçando cenários memoráveis que bebem da edificação do mundo de jogo, ora perdendo-se em regiões que praticamente não têm pulso.

A ligação aos servidores e a estabilidade dessa mesma ligação não me tem dado grandes problemas, com os erros técnicos a serem sobretudo abrandamentos na framerate da obra. As obras da Bethesda nunca foram conhecidas pelo seu polimento e acreditem que essa situação não vai mudar com Fallout 76, pelo menos para já. A produtora terá que trabalhar muito no seu jogo ao longo dos próximos meses para que os jogadores continuem a acumular horas neste mundo, penso que não restam grandes dúvidas sobre isso.

Recentemente foi notícia a publicação de duas atualizações em dezembro, ficando pelo menos a informação que algo vai ser tentado. A performance pode melhorar, os ajustes no Stash podem ser feitos, mas a espinha dorsal de Fallout 76 terá que ser repensada, retrabalhada e reajustada ao que os jogadores precisam de extrair de um jogo para se sentirem motivados. Talvez o melhor que a Bethesda tem a fazer é ouvir a sua comunidade, trabalhar com ela e tentar dar uma nova vida ao jogo com novas atualizações. É fácil? Não, claro que não, mas é possível, bastando olhar para No Man’s Sky.

Independente do que vai acontecer com Fallout 76 ao longo dos próximos meses e, quem sabe, próximos anos, é certo que estamos perante um ponto marcante na história da saga e na história da produtora. Não basta colocar um mapa de proporções épicas à disposição dos jogadores sem se preocupar muito com aquilo que eles têm para fazer depois de se ligarem aos servidores. A Bethesda parecia apostada em descobrir juntamente com os fãs que problemas é que o seu jogo iria apresentar, agora está na hora de descobrir juntamente com os seus fãs como os resolver.

veredito

Mais revolução do que evolução, Fallout 76 apresenta um sistema de combate diferente, um mapa enorme que varia entre locais memoráveis e a monotonia, e uma aposta no online da qual advêm mais dissabores do que verdadeiramente conquistas.
5 Alguns locais memoráveis no mapa. Variedade de áreas incluídas. Sistema de combate em tempo real. Mundo de jogo desprovido de vida.

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Fallout 76

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

31 December 2018