por - May 21, 2021

Famicom Detective Club – Análise

Um bom mistério policial pode ter os elementos perfeitos para um bom videojogo, contudo, convém que quem produz jogos deste género tenha as ideias certas para aquilo que quer entregar. Infelizmente, não há muitos jogos que sejam bons exemplos nesta categoria tão específica, embora haja alguns que sejam excelentes como Her Story, Gabriel Knight e Broken Sword. Por isso, acho louvável os esforços de produtoras ou editoras que queiram fazer um bom policial; é algo difícil de realizar, mas quando o fazem bem ficamos bastante satisfeitos com o resultado final.

Famicom Detective Club, para a Nintendo Switch, é um par de jogos vindos da Nintendo Entertainment System, ou melhor, da Famicom (como o próprio nome indica) visto que só esteve disponível no Japão para um periférico da consola – o Famicom Disc System. Se comprarem este título, têm acesso a dois jogos: The Missing Heir e The Girl Who Stands Behind. Estes dois jogos são narrativas policiais que se passam no Japão, durante os anos oitenta.

Vocês são um dos assistentes da Utsugi Detective Agency e foram incumbidos de investigar dois casos de homicídio. Em The Missing Heir têm de investigar as circunstâncias em torno da morte da matriarca do clã Ayashiro, uma das famílias mais ricas do Japão. Já em The Girl Who Stands Behind, um estudante requisita os nossos serviços para que consigamos descobrir o que realmente se passa nos corredores da sua escola, porque acredita estar lá um fantasma a assombrar o local.

É fácil perceber que este par de jogos são visual novel, mas fazer esta afirmação diz-nos muito pouco do conteúdo que podemos encontrar. Nestas duas obras estamos perante aventuras cheias de mistério, o facto de serem visual novel não lhes retira qualidade, a experiência é somente menos interativa do que um jogo na terceira pessoa em que se controla uma personagem que empunha, normalmente, uma arma de fogo, ou seja, como L. A. Noire. Tal como os jogos de apontar e clicar, um visual novel é apenas uma outra forma de contar uma história.

Em cada capítulo, o nosso objetivo passa por interrogar todas as personagem que possam ter informação relevante para o caso em curso, para a narrativa poder progredir naturalmente. As entrevistas, ou uma simples pergunta, podem ser feitas de acordo com uma lista pré-definida de tópicos, ou com as provas que já recolheram ao longo do processo criminal. Também podem e devem passar os vários cenários a “pente fino”, para encontrar um pormenor que possa mudar o rumo da investigação ou aprofundar uma pista que já estavam a seguir.

Tanto em The Missing Heir como em The Girl Who Stands Behind, vão ter que estar muito atentos, porque o jogo não vos vai levar pela mão e dizer-vos o que têm de fazer. Se não conseguirem perceber qual é a lógica do jogo para poder avançar com a narrativa, será muito provável que fiquem bloqueados e, consequentemente, frustrados. Um dos problemas do jogo é que vos causará frustração e uma das razões para tal acontecer é o não sabermos quantas vezes é que temos de carregar numa pergunta até que uma personagem, que está a ser interrogada, nos forneça informação diferente e relevante para a investigação.

Estes jogos têm uma grande importância histórica para a casa de Quioto, porque quem escreveu a narrativa de ambos os jogos foi Yoshio Sakamoto, designer que ficou responsável pela produção de vários títulos da série Metroid – ainda hoje trabalha na Nintendo. Talvez por ter apresentado um bom trabalho com os títulos Famicom Detective Club transitou para a produção de uma série tão importante como Metroid. Vê-se que é na escrita que o jogo brilha, nomeadamente, em The Girl Who Stands Behind, visto que os pensamentos do protagonista não são tão expostos como em The Missing Heir

Convém que prestem sempre atenção ao que todos os intervenientes da investigação têm para contar. Por vezes, um mero habitante da aldeia onde ocorreu a tragédia ou uma simples empregada de limpeza podem ter informações muito mais valiosas para o vosso trabalho do que alguém, supostamente, próximo da vítima. Também é preciso ter alguma sensibilidade para ler nas entrelinhas e alguma capacidade de interpretar para que a nossa dedução não nos induza em erro.

Ambas as narrativas são muito boas, embora The Girl Who Stands Behind seja claramente melhor, sobretudo por ter uma apresentação mais cuidada e por dar-nos o que é estritmente necessário, sem criar confusão naquilo que devemos ou não fazer. The Missing Heir é um drama familiar onde vão encontrar superstições, rivalidades entre irmãos e segredos bem guardados. É uma narrativa bem contada, mesmo que tenham adivinhado o seu desfecho antes da personagem principal. The Girl Who Stands Behind, por sua vez, conta com uma trama muito lúgubre, o que é surpreendente descobrir visto que conhecemos a casa de Quioto como uma empresa de valores muito conservadores.

A produtora Mages fez um trabalho fenomenal ao dar um novo estilo visual a Famicom Detective Club. Nestes visual novel, não temos só cenários e personagens estáticas como se fossem modelos das páginas de uma banda desenhada tipicamente nipónica, que são conhecidos como mangá. Há um certo dinamismo nas poucas ações das diversas personagens do elenco, sentimos que é um jogo com vida de tantos pequenos detalhes visuais que nos oferece.

Se estão reticentes em querer adquirir um jogo bastante antigo que foi adaptado para uma consola moderna – porque o que não faltam são exemplos de más adaptações -, então fiquem descansados porque Famicom Detective Club é um bom policial com um par de histórias que nos motivam a ficar interessados a chegar à verdade. Mesmo que não haja a interatividade típica de um jogo Nintendo, este jogo vale a pena adquirir para Switch.

veredito

A Nintendo foi desenterrar o seu passado e trouxe-nos dois jogos num só que nunca foi comercializado fora do Japão. Felizmente, agora que o podemos jogar, temos em mãos dois bons dramas que nos vão deixar sempre cheios de curiosidade para saber a verdade da investigação.
8 Narrativas maduras. Bons visuais para o género que é. Vocalização japonesa. Por vezes é confuso.

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Famicom Detective Club: The Missing Heir & The Girl Who Stands Behind

para Nintendo Switch

Lançado originalmente:

14 May 2021