Pedro Martins por - Mar 21, 2022

FAR: Changing Tides – Análise

Em FAR: Changing Tides, somos a nossa melhor companhia. O novo jogo da Okomotive é um belo exercício em escapar para uma realidade diferente – e tentar escapar dela durante a nossa jornada. Porque consegue ser claustrofóbico em tantos pontos, o jogo fecha-nos com os nossos pensamentos.

Não é a primeira vez que a produtora entrega algo deste calibre. Em 2019 tivemos oportunidade de jogar FAR: Lone Sails, uma proposta que nos fez explorar a superfície. Agora, contudo, estamos perante um novo título de puzzles mecânicos e plataformas que nos leva a navegar – e, por diversas vezes, a mergulhar – com o nosso veículo.

Temos então que controlar um barco, aproveitando a navegação à vela misturada com a deslocação proporcionada pelo queimar de diversos itens que vamos encontrando espalhados pelos cenários. A vela é um exercício que nos faz escalar um mastro, ajustando a sua direção consoante o vento. Temos também que prestar atenção aos obstáculos que vão aparecendo, baixando o mastro atempadamente.

Ao longo da nossa aventura, todavia, a nossa barcaça steampunk vai também recebendo melhorias que vão desde a habilidade de resgatar tesouros a aumentos temporários na força que o veículo tem. Tudo é introduzido no jogo segundo o seu próprio ritmo, ou seja, a jogabilidade nunca dá saltos que tornem os processos difíceis de compreender e acompanhar.

O processo de exploração também cai num ritmo próprio. FAR: Changing Tides coloca pontos nos seus cenários que nos obrigam a sair do veículo até encontrarmos uma solução para o puzzle – e, por diversas vezes, receber uma das melhorias já aludidas. O que aprendemos faz-nos perceber o que temos para fazer, onde procurar uma solução, dificilmente deixando-nos sem saber como desvendar o enigma. E quando isso acontece, é um simples caso de analisar os detalhes dos cenários.

Outro dos destaques do jogo são as secções que nos obrigam a mergulhar na água gelada. Graças às melhorias, o barco está preparado para funcionar como um submarino, o que nos faz sentir como seres num casulo muito próprio. Naturalmente, aqui as velas não funcionam, mas nunca passei por um momento em que não tivesse combustível para a fornalha. Basta que prestem atenção ao radar que está instalado no próprio veículo.

São momentos que ficam na memória devido à sua escuridão, aos limites meticulosamente calculados pela Okomotive para representarem o lento descobrimento alicerçado nos apontamentos visuais. Há um momento relativamente perto do final em que o próprio barco faz parte do cenário, ou seja, é um trecho de uma grandiosidade memorável que culmina precisamente no momento de voltar à superfície num comungar metálico.

Controlar o veículo é, tal como na obra anterior, um bailado que nos vai chamando a atenção em diversos pontos. Além da já mencionada vela, temos que tratar da fornalha do barco onde os diversos itens são queimados como forma de combustível. Somos nós que vamos encontrando o que podemos queimar, sendo ainda possível alinhá-los para mais fácil gestão.

Nunca é um processo deveras complicado, ainda que seja necessário prestar atenção ao sobreaquecimento – há uma mangueira a bordo para essas situações, além de servir como parte do processo para fazer o barco submergir com o peso da água.

Há, aliás, algo satisfatório em tomar conta do veículo, algo que nos faz sentir bem quando na nossa mente sentimos que fizemos uma série de tarefas com sucesso. Quando tudo está controlado, podemos simplesmente apreciar a nossa organização da casa temporária. FAR: Changing Tides permite-nos sair da barcaça por diversos pontos, claramente indicando que nos quer também como exploradores subaquáticos.

Torna-se então evidente que não há um chorrilho de novidades comparativamente ao jogo de 2018, mas são processos que resultam com eficácia. Por exemplo, a banda sonora tem o tom certo para não só nos deixar entregues aos nossos pensamentos, como para os espicaçar nos momentos oportunos.

E o grafismo resulta numa aventura íntima, onde é possível avistar a vastidão graças às suas duas dimensões falsas. Os cenários que vão passando como panos de fundo são ricos em detalhes, tal como é o interior do barco. Mesmo depois de sabermos onde tudo está localizado, é um prazer ver os efeitos de luz e de apontamentos azuis-esverdeados brilhantes, a fornalha a funcionar como um pulmão em tons alaranjados.

Seja com a pequena e, aparentemente, frágil personagem, seja com as gigantes estruturas onde o metal e o cimento se unem para fornecer uma sensação que mistura o frio com a imponência, FAR: Changing Tides crava os seus dentes como uma aventura memorável. Mas não é perfeita. Os jogadores podem ficar desiludidos com a falta de desafio e com os controlos algo rombos quando o nosso caminho nos obriga a passar por entradas estreitas, algo que acontece nas sequências subaquáticas.

A jogabilidade e a história do jogo são apresentadas da mesma forma, ou seja, sem qualquer explicação detalhada. A produtora quer que sejam os jogadores a descobrirem o que resulta graças a pistas visuais. Uma vez que nunca há complicações em demasia, é uma abordagem que resulta. E estarmos entregues a nós próprios, uma personagem que atravessa um mundo pós-apocalíptico é um convite a tentar perceber o que se esconde quando a jornada chegar inevitavelmente ao seu fim.

Não devem esperar uma revolução de FAR: Changing Tides, mas sim uma aventura pejada de momentos que facilitam a contemplação. Do desolador vazio que proporciona a divagação. É a superação do indivíduo que não é permanentemente manchada por comandos ocasionalmente rombos e pela falta de desafio. Quem gostou do primeiro jogo, encontrará aqui um reconfortante regresso a casa que choca com as visões de um baldio aniquilador de esperança além da que encontramos em quem vestimos a pele ao longo destas cinco horas.

veredito

FAR: Changing Tides é um exercício de solidão em que continuar é a melhor forma de aspirar a qualquer resquício de esperança. O desafio é escasso, mas a aventura é evocativa e memorável.
8 Sentido de jornada. Curiosidade de ver o resto da viagem. Bela representação gráfica da desolação. Controlos ocasionalmente rombos.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments

FAR: Changing Tides

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series
FAR: Changing Tides

Sequela de FAR: Lone Sails.

Lançado originalmente:

2022