E de repente a madrugada. São duas e quarenta e cinco da manhã, apercebo-me que estou numa enseada qualquer e penso "Estou tão longe de casa, tão longe de tudo". Não sei como vim aqui parar nem sei para onde vou daqui - não faz mal, uma boa parte do encanto de Far Cry 4 é divagar pelo seu mapa, criar as nossas aventuras, abolir o tempo, alienarmo-nos de tudo e até de nós próprios. Disseram que "o mundo é a tua ostra". E é mesmo.

Para não tornar esta análise no Memento, comecemos pela história, espinha dorsal do novo jogo da Ubisoft. O jogador é convidado a vestir a pele de Ajay Ghale, um jovem que está de regresso a Kyrat, retalho dos Himalaias onde tem fortes raízes familiares. Logo nos primeiros minutos de jogo ficamos a saber o motivo da visita de Ajay: espalhar as cinzas da sua mãe. Ou seja, esta teia narrativa é urdida desde sempre com uma forte componente emocional.

Continuem a dedicar tempo a Far Cry 4 e ficarão a saber que o seu pai é um dos fundadores do grupo The Golden Path, um grupo de rebeldes com boas intenções. Quem não tem tão boas intenções é Pagan Min, um dos vilões do ano. Podemos acusar Min de muito, contudo, é difícil não reconhecer o seu carisma: cabelo e vestes, sim, mas sobretudo personalidade.

Sádico e perverso, rouba todas as cenas em que está presente. Absorto pelo poder, existe no início uma cena em que ele intimida as restantes personagens, gritando pelo seu socorro, ou seja, provando-lhe que Kyrat está no meio de um nada controlado por ele. Tão controlado por ele que não tem medo de gritar auxílio. Muitos não repararão neste pormenor, talvez imbuídos pela sua dicção, pela maneira como articula cada frase dando-lhe uma conotação perversa, uma decadência que quase todos os jogadores vão amar odiar.

Como tantas outras personagens este ano, Pagan Min é vocalizado por Troy Baker e, novamente, o ator assina uma prestação bem conseguida. Aliás, sempre que o ecrã é dominado pelo vilão, fica a sensação que uma boa parte do seu carisma é indissociável do que Baker conseguiu fazer com ele. Mesmo fechando os olhos e esquecendo a sua aparência, o tom de voz e, especialmente, a cadência com que as frases são ditas ajudam a que Min seja sinónimo de Far Cry 4.

Mas falemos do jovem Ajay Ghale, pois afinal de contas é estarmos a falar de nós próprios. Vão terminar o jogo com um protagonista muito diferente daquele com que o começaram. Os vossos atos são recompensados com experiência que, como provavelmente já adivinharam, serve para subir de nível e conquistar pontos que podem ser gastos na aquisição de novas habilidades. Divididas em dois grandes grupos - Tigre e Elefante - têm aqui muito para ir conquistando, transformando Ghale numa máquina de guerra.

Porém, para evitar que os jogadores divaguem demasiado pelas missões secundárias e enfrentem a narrativa principal muito mais fortes do que era suposto, além dos já mencionados pontos, algumas habilidades requerem outras condições para serem conquistadas. Mas são várias dezenas de habilidades que permitem ao jogador ir moldando a sua personagem de acordo com as necessidades que for sentindo. Trocar de armas mais rapidamente, veículos mais resistentes, barra de energia com regeneração mais rápida, enfim servem os exemplos para ilustrar uma variedade considerável.

Se pensam que a barra de experiência é o único contador do jogo estão enganados. Far Cry 4 tem também um contador de Karma, que vai enchendo consoante a vossa ajuda na proteção dos habitantes de Kyrat face às constantes investidas dos capatazes de Min. Com oito níveis para serem desbloqueados, convém mencionar que é possível perder algum do Karma conquistado, bastando para isso atropelar um aliado sem querer, por exemplo. Dedicar algum tempo a esta funcionalidade e fazer a barrar progredir é garantir descontos de 25% na compra de armas, mapas de colecionáveis, assim como conquistar a possibilidade de chamar reforços em alguns pontos mais delicados.

Tudo isto é apenas a ponta do icebergue. Outro ponto importante do jogo é a criação de itens, uma das funcionalidades com mais raízes. Coldres, carteiras, mochilas, kit de seringas, várias bolsas, enfim, uma miríade de itens que facilitam a vida do jogador. A carteira, por exemplo, serve para conseguirmos armazenar mais dinheiro. A bolsa de explosivos serve para carregar até 5 explosivos e 5 minas. Porém, é no processo de criação que está uma das funcionalidades mais compulsivas de Far Cry 4.

Dando destaque novamente à carteira, podem aumentar a sua capacidade 4 vezes, sendo que precisarão da pele de um animal chamado Diabo-Louco para o fazerem. Se quiserem criar uma mochila que carregue mais itens necessitarão da pele do Urso-fantasma. Há algo de relaxante em explorar o mapa à procura da caça necessária, escondermo-nos e usarmos métodos que não estraguem a pele do animal, ou seja, serão penalizados se encarnarem momentaneamente o Rambo e atacarem a presa com um lança-granadas.

O kit de seringas também pode ser aumentado quatro vezes e serve para transportar um maior número de seringas. As seringas servem para recuperarem vida depois de sofrerem dano. Contudo, existem vários tipos que requerem inúmeras plantas para serem criadas. A mais simples - cura - exige folhas verdes; a variante que permite marcar automaticamente inimigos requer folhas azuis e vermelhas. Querem mais um exemplo? As seringas que permitem correr e nadar mais rapidamente estão dependentes das folhas amarelas e azuis.

Toda essa exploração estará dependente da conquista de Torres, processo necessário para que o mapa fique devidamente desbloqueado, revelando os vários pontos de interesse dessa determinada região. Não demora muito tempo para que estejam também a infiltrar bases inimigas, conquistando Kyrat a pulso. Não são mecânicas propriamente novas, contudo, servem Far Cry 4 como já serviram outros títulos: servem para o jogador ir "limpando" o mapa, tarefa que aumenta de importância consoante a vossa compulsividade.

Tudo isto é patrocinado por um número assinalável de missões, sejam principais ou secundárias. Como seria de esperar, a homogeneidade não é total, ou seja, algumas tarefas são impressionantes e motivadoras, enquanto outras são apenas isso, uma tarefa. A produtora deu primazia às que fazem parte da campanha principal, mas mesmo nessa porção do jogo existem alguns altos e baixos.

Não deixa de ser assinalável que um mundo de jogo tão grande esteja tão apegado a vários pormenores. É possível viajar pelo cenário controlando um girocóptero e se passarem com ele junto às árvores ouve-se as hélices a cortar os ramos. Se estiverem a invadir/defender um posto, podem disparar contra a caixa do alarme para evitar que sejam chamados reforços. Atirar nacos de carne para o meio dos inimigos e assistir à chegada de um animal selvagem ou atirar pedras para captar a sua atenção.

A maneira como o fogo se comporta e se alastra pelo cenário. A possibilidade de destravar um carro e deixá-lo ir pela encosta abaixo, possivelmente cheio de explosivos e em direção a um acampamento inimigo. É a soma de tudo isto e muito mais que dá vida a Kyrat e nos deixa com vontade de investir na estadia, mesmo que depois de dez horas de jogo praticamente não se tenha avançado na campanha.

E não se iludam: Far Cry 4 é um título extremamente violento. Sim, podemos matar inimigos de várias maneiras, contudo, é sobre a relação que o jogo tem com os animais que quero falar. É possível matar elefantes, apesar de serem maioritariamente inofensivos, é possível matar rinocerontes, ursos, águias e uma miríade de vida selvagem.

Mas falava sobre o mapa do jogo e como podemos explorá-lo. Além do girocóptero, podemos usar uma asa-delta, um wingsuit, tal como carros, carrinhas, camiões, moto-quatro, viagem até às montanhas geladas e poderão conduzir motas de neve. Aliem-lhe um gancho que permite continuar a trepar quando o cenário fica mais empinado: fica a sensação que é possível ir até onde conseguimos ver.

E acreditem que é muito. Far Cry 4 tem uma draw distance incrível e mistura floresta com montanhas com mestria. Aliás, transmitiu-me a sensação que este recreio tinha sempre um vale ladeado por montanhas com neve, independentemente de onde estava virado. Há muito para fazer, muito para descobrir, tanto que o mais difícil é continuar a campanha principal sem ser distraído por algo que luta pela atenção do jogador.

Mas se continuarem a história acabarão por descobrir duas personagens caricatas e irritantes: Yogi e Reggie. Quase sempre drogados, são eles que ocupam a vossa casa quando a descobrem, momento em que o jogo vos envia numa das suas missões mais alucinantes. Depois de se afirmarem como proprietários definitivos dessa propriedade, o jogo permite que a limpem e personalizem a vosso gosto, desde que, obviamente, tenham dinheiro para tal - torneiras, iluminação, enfeites para a árvore, jardim ou, porque não, um templo pessoal?

Vários pontos permitem recarregar a totalidade das vossas munições, valor que obviamente sobe consoante for o número e o tipo de armas que carregam na mochila. Podem ainda comprar e personalizar uma miríade de itens: coletes balísticos, minas, granadas e/ou C4 explosivo, um lote extenso de armas - pessoalmente, dei-me particularmente bem com a PKM, enfim, tal como em quase todos os pontos mencionados, também aqui a escolha é abundante.

Outro local que merece ser mencionado é a Arena Shanath. Composta por vários modos que permitem lutar contra tudo e contra todos, coloca o jogador frente a horas infinitas de inimigos, permitindo ainda comparar a nossa prestação em tabelas de liderança online. De salientar ainda que Shanath faz parte da história do jogo e está ligada ao desbloqueio de uma das armas mais poderosas.

E por falar em online, Far Cry 4 tem algumas propostas interessantes. Assim, podemos escolher partilhar a campanha com outro jogador, sendo uma opção bem destacada no ecrã de título. Além disso, temos ainda um multijogador mais tradicional - uma equipa controla os membros do Golden Path enquanto que a outra faz parte da força Rakshasa. Com uma configuração mais tradicional, esta versão é composta por três modos de jogo e uma dezena de mapas.

Composto por três modos de jogo e dez mapas, fiquei com a sensação que foi a maneira da Ubisoft jogar pelo seguro e evitar críticas sobre a ausência do multijogador. Cooperativamente é onde o grosso da diversão está, pois permite diferentes abordagens ao cenário da campanha e, especialmente, dá a habilidade a dois amigos para simplesmente se divertirem.

Portanto, já sabem que há muito para fazer e explorar, contudo, o que falta ainda dizer é que não é por ser um cenário enorme que os pormenores são perdidos. Jogado numa PlayStation 4, Far Cry 4 é um jogo com campos técnicos assinaláveis. O grafismo é impressionante e, felizmente, não se resume a apenas dois modos: floresta e montanhas. Existem aqui incontáveis ajustes na maneira como os gráficos são apresentados.

As texturas, os efeitos da neve quando vemos as pegadas ou aquando de mais uma avalanche, as folhas e os veículos, a água, enfim, ainda que ocasionalmente a modelagem das personagens terciárias deixe algo a desejar, o palco principal de Far Cry 4 deixará qualquer um rendido aos encantos da mais recente geração de consolas.

Sem fazer cair tantos queixos mas igualmente competente é a sonoplastia. Desde a vocalização das personagens - onde, como já disse, se destaca o incontrolável Troy Baker - à música ambiente, ao ecoar das armas, sejam facas, pistolas, metralhadoras ou um mortar. Transversal a toda a obra estão valores de produção elevadíssimos e foram raros os soluços técnicos, independentemente da sua índole. Como nota de rodapé importa mencionar que Far Cry 4 está totalmente localizado em português do Brasil.

Far Cry 4 é o continuar da fórmula que a Ubisoft já tinha testado com o jogo pretérito. Pode não ser um título disruptivo na série, contudo, é uma aposta segura e, especialmente, uma oferta que motiva a estadia do jogador por aquele mundo. O mapa é enorme e suficientemente diversificado, existe sempre algo para fazer, dentro e fora da campanha principal - parece que a obra tem várias vozes que gritam constantemente pela nossa atenção. Fica a clara sensação que o título foi pensado como um retiro: visitem-no pela história, fiquem por tudo o resto.