Numa altura do ano em que o mercado vai sendo inundado por obras de bombástica ação, resultantes de orçamentos milionários e com direito a campanhas de marketing ainda mais financeiramente exigentes, Far From Noise destaca-se claramente de tudo o resto que vai competindo pela atenção dos jogadores. Fazendo jus ao seu nome, o título de George Batchelor chegou ao Steam e PlayStation Store de forma quase despercebida, esperando que a audiência que aprecia este tipo de experiências lhe desse um voto de confiança.

Far From Noise Imagens Analise

Tendo figurado, há já vários meses atrás, numa edição da nossa rubrica “Luzeiro do Escondidinho”, esta estranha aventura narrativa estava há muito no nosso radar e agora que está finalmente disponível e já tivemos oportunidade de a jogar, percebemos que as expectativas para o título foram claramente correspondidas. Não estamos certamente perante uma obra capaz de incendiar a indústria ou até de nos surpreender por completo, contudo, estamos perante um jogo com uma visão bem definida para aquilo que pretendia oferecer e que executa essa mesma visão de forma bastante eficaz.

Essencialmente, Far From Noise é uma aventura cuja única interação do jogador passa pela escolha de diferentes opções de diálogo. Com um pano de fundo constante, o jogo coloca-nos no controlo de uma personagem presa no interior de um carro balançando perigosamente num precipício. Com a nossa vida presa por um fio, é através da progressão da narrativa que ficamos a conhecer a personagem em questão, os motivos que a levaram até aquele local e como é que acabou numa situação tão precária.

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Sozinha com o cenário que a rodeia, o jogo não demora muito a deixar-nos entrar na mente da protagonista, uma personagem dividida entre o pânico de saber que a qualquer momento pode cair em direção à sua morte e a resignação com o seu destino trágico. Através dos seus monólogos, a obra permite-nos também, ainda que de forma ligeira, moldar a personagem à nossa própria imagem, com as opções de diálogo a alternarem frequentemente entre uma visão mais pessimista ou otimista da situação.

Dito isto, apesar da circunstância em que se encontra, o sentido de humor da protagonista permite que o jogo nunca se torne demasiado negro, mesmo quando estamos perante alguém a questionar o seu futuro, a sua própria existência e se vale ou não a pena continuar a tentar. Para além disso, Far From Noise utiliza de forma inteligente o bonito e relaxante cenário que nos apresenta como contraste para o estado psicológico mais negativo da personagem e a má situação em que se encontra.

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No fundo, a obra de George Batchelor é, acima de tudo, uma experiência contemplativa e terapêutica. Servindo-se de um enigmático veado falante para nos deixar explorar o passado e o presente da personagem, para nos forçar a olhar o mundo de uma forma distinta, o título coloca todos os problemas que afligem a protagonista em perspetiva e questiona a sua importância. Ao substituir os monólogos iniciais pelo diálogo com este estranho psicólogo, Far From Noise cria um elo de ligação entre o jogador e a personagem que é vital para a aventura ter o impacto desejado.

Sem grande surpresa, esta é uma experiência altamente metafórica, em que nem tudo é exatamente o que parece, em que a beleza e a continuidade perpétua da vida e da natureza contrasta com o estado psicológico da personagem e a sua situação, em que temos uma protagonista à beira do abismo - literal e metafórico. Tentando colocar tudo em perspetiva e questionando a importância do que consideramos importante, o título entrega uma narrativa que brilha pela forma como pode ser facilmente aplicada e adaptada à vida do jogador.

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Embora tenha lugar num único cenário, Far From Noise não é uma obra visualmente pobre. Para além do progredir do dia e da meteorologia, o jogo introduz pequenos elementos ao seu cenário que servem para quebrar ligeiramente a narrativa e para permitir que este consiga destacar, mais uma vez, a beleza da vida. Com cores convidativas e um estilo visual bastante apelativo, George Batchelor criou, de forma simples mas eficaz, uma experiência esteticamente relaxante que se adequa na perfeição à sua narrativa e temática.

Por sua vez, a sonoplastia opta também por uma abordagem minimalista, ficando reduzida quase sempre ao som ambiente. Seja o cantarolar dos pássaros, o som das ondas a colidir com os rochedos ou o soprar do vento, a mínima poluição sonora permite igualmente que a obra entregue a sua mensagem com o mínimo de distrações possível. Obviamente, existem algumas notas musicais em momentos fulcrais da aventura, mas são utilizadas de forma inteligente e sem nunca quebrarem o tom relaxante da obra.

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Far From Noise é uma experiência diferente daquela que caracteriza a maioria das obras atualmente no mercado. Reduzindo todos os seus departamentos aos mínimos essenciais, o título de George Batchelor consegue produzir uma aventura altamente terapêutica que não exagera na tentativa de entregar a mensagem pretendida. Com uma duração de pouco mais de uma hora, Far From Noise não é uma obra para as massas, mas é uma obra que merece ser jogada por quem aprecia este género de experiências.