Lidar com a morte, de forma séria, não é fácil num trabalho de ficção. E os videojogos não estão alheios a esta dificuldade, por isso a comédia é, normalmente, a abordagem mais simples para evitar entrar em debates sobre um tema tão complicado. Como é habitual nos videojogos, a morte é um estado temporário, porque não fomos hábeis o suficiente para enfrentar uma dificuldade. No entanto, quando o jogo faz da morte o seu tema central, a proposta é substancialmente mais interessante.

Felix the Reaper, a obra publicada pela Daedalic Entertainment e criada pela Kong Orange, tem como objetivo fazer com que o jogador faça as personagens morrer, afinal somos um agente da morte semelhante à figura alegórica “Grim Reaper”. Contudo, este facto não nos impede de nos divertirmos, aliás serve sobretudo para nos rirmos, principalmente se formos apreciadores de um bom humor negro.

Descrito como “uma comédia romântica sobre a vida da Morte”, Felix the Reaper é um jogo de puzzles onde nos é pedido para colocar tudo no devido lugar para que possamos completar os vários níveis que nos são apresentados. Felix é a personagem principal do jogo que trabalha no Ministério da Morte, mas que se apaixonou por Betty the Maiden, uma funcionária do Ministério da Vida.

Assim, a nossa personagem espera que se possam cruzar no reino dos mortais. O seu trabalho requer que cumpra o objetivo do seu ministério, ou seja, convém que construa certas armadilhas para provocar acidentes fatais. Estas fatalidades acabam sempre de uma forma cómica, com vítimas a morrerem de uma forma digna de estarem presentes numa banda desenhada.

O protagonista do jogo, Felix, é uma personagem cheia de vida e, por isso, é também um dos aspetos mais interessantes do jogo, tal é a sua riqueza em personalidade. Apesar do seu trabalho exigir que esteja na causa de mortes horripilantes, o jogo apresenta-o como um romântico deseperado que está mais interessado em ouvir música, em passos de dança e em ler poesia. Este aspeto torna-o ainda mais interessante para jogar em cada um dos diferentes níveis, visto estar sempre a dançar, sem nunca estar quieto durante um único segundo.

No que toca à jogabilidade, o jogo coloca os jogadores a controlar Felix num ambiente em grelha, com espaços divididos em quadrados. Estes espaços em branco vão representar inúmeros locais em diferentes períodos do reino dos mortais. Basicamente, temos de nos mover e fazer com que os objetos do ambiente em que estamos estejam no sítio correto à hora certa, para o acidente fatal poder ocorrer.

A dificuldade reside na impossibilidade de Felix se poder movimentar onde a luz do sol está a incidir; como criatura das trevas que é o funcionário do Ministério da Morte tem de andar pela sombra. Como é óbvio, os níveis mais complicados são os que têm sombra em quantidade limitada. Há, claro, formas de contornar esta situação.

Os jogadores conseguem rodar o Sol, noventa graus de cada vez, e assim conseguem criar sombras onde não existiam, removendo obviamente as outras, que estavam presentes na posição anterior do Sol. Felix terá de ser criativo e criar sombras com as várias caixas e barris que se encontram espalhados pelo nível e assim, quando rodar o Sol, poder ir onde estava interditado.

Estes elementos são interessantes até um certo ponto. Após uma utilização exaustiva em vários níveis, estes objetos manipuláveis provam ser cansativos, pois acabam por ser sempre a mesma forma de ultrapassar as dificuldades. Infelizmente, não há grande variedade, nem houve muita imaginação na entrega dos níveis que temos de resolver. A campanha também é curta, cerca de três a cinco horas para ser completada; mas é possível aumentar este número ao jogar o conteúdo extra.

Um ponto mais negativo do jogo é a sua câmara. Na maioria dos casos a câmara funciona perfeitamente bem, mas à medida que os níveis ficam cheios de itens para trabalhar com as sombras na criação de trilhos para Felix percorrer, alguns itens ficam a obstruir a nossa visão. Portanto, é irritante termos uma má perceção daquilo que podemos fazer no cenário. Estes controlos da câmara acabam por nos confundir e fazer-nos demorar mais do que deviámos num determinado nível.

Apesar dos produtores definirem o jogo como uma comédia romântica, são os puzzles o cerne do jogo, não a narrativa. Por muito que Felix se queira cruzar com a sua paixoneta, é nos puzzles que se foca o jogo, ou seja, nas vítimas de Felix. Embora Betty nunca deixe de estar presente no pensamento de Felix, os jogadores tem de pensar como fazer avançar a narrativa, por isso são os quebra-cabeças que ficam com o jogador, não é a história de amor que o jogo nos quer vender.

É pena que assim seja, porque Felix the Reaper tem momentos muito divertidos e tem uma personagem cheia de charme que tem de trabalhar para o Ministério da Morte. Depois do jogo, ou mesmo antes de começar um nível, os ecrãs de carregamento revelam um Felix apaixonado fora do seu horário de trabalho. São imagens de uma arte muito bem desenhada, como se pertencessem às páginas de uma novela gráfica, o que acaba por dar coerência ao grafismo do jogo quando estamos a jogar com Felix.

Apesar da Morte ser o tema central de Felix the Reaper, é um conceito que ficou mal aplicado à realidade dos videojogos. O que se extrai daqui são bons puzzles, com uma jogabilidade focada em nos fazer ver o caminho que podemos percorrer. Infelizmente, os problemas com a câmara e a jogabilidade demasiado simples, que não evolui em crescendo, não atrairá jogadores que não apreciem bons puzzles. Mas se os quebra-cabeças são o vosso formato de videojogo favorito, tem aqui umas horas interessantes para passar com a personificação da Morte.