Phil Fish criticou severamente a política da Microsoft em relação às atualizações dos jogos no Xbox LIVE Arcade, depois de não querer pagar a quantia acordada entre as duas partes para corrigir o seu famoso jogo. Por sorte, o erro afetou apenas uma pequena fatia de jogadores. A partir daí este começou a namorar o famoso serviço de distribuição digital Steam. Sabíamos por isso que mais cedo ou mais tarde FEZ ficaria disponível para PC. O dia chegou e nós avaliámos a obra de entrada de Phil Fish no mundo dos videojogos.

As influências de FEZ são claras. Paredes cravadas com os padrões das peças de Tetris; a componente de exploração com a solidez de Zelda; plataformas atravessadas à boa moda do famoso canalizador italiano. Títulos que entreteram a geração de crianças dos anos 80. O criador canadiano está incluído nessa falange de jogadores e transpôs em FEZ as vivências na sua infância.

A narrativa é tão simples quanto os seus objetivos. Vocês são um pequeno ser branco com o nome de Gomez e acordam uma bela manhã numa pequena vila bidimensional. Mal ele sabe que, neste dia, a sua perceção da realidade mudará para sempre. Este é o dia em que Gomez receberá Fez - um chapéu com o poder de rodar o cenário em 90 graus. No entanto, nesse mesmo instante um terrível acontecimento ocorre: um cubo dourado estilhaçou-se em 64 partes por todo o universo. Isto faz com que se instale o caos e a desordem no mundo de Gomez. E vocês têm, por conseguinte, o dever de recuperar pelo menos 32 dessas partes para aos poucos irem repondo a paz e harmonia neste mundo de três dimensões.

É aqui que começa a jornada do herói. Não só no jogo como fora dele. Cedo aperceber-se-ão que FEZ recupera algo perdido há muito nos videojogos. Porque é na busca dos cubos que vocês começarão a coçar a cabeça e tentar adivinhar como os descobrir, pois alguns deles requerem que se traduzam códigos e que esses mesmos sejam inseridos em dispositivos que vos abrirão passagens para estarem mais próximos de adicionarem mais um cubo à vossa coleção. Neste caso é imperativo ter papel e caneta - e por vezes um telemóvel com um leitor de códigos QR - para apontarem as inscrições enigmáticas. Algo que já não fazia desde os tempos das consolas de 16 bits. Alguns puzzles são bastante complicados e, claro, requerem que vocês desliguem literalmente do jogo, para regressar de cabeça fresca.

A aventura é percorrida com uma tranquilidade incrível. A única punição por morrerem depois de caírem de uma altura assinalável - das poucas razões pela qual Gomez poderá perecer -, quando um salto é mal calculado, é regressarem do ponto em que vocês falharam o vosso salto.

A mecânica central do jogo é o poder que Gomez recebeu do chapéu: rodar os cenários a noventa graus. Imaginem que têm um paralelepípedo nas vossas mãos e que o vão rodando noventa graus. É o mesmo que acontece em FEZ, a cada viragem vemos outro plano da estrutura em que estamos. Brincar com esta mecânica é bastante divertido e encerra em si muitos segredos por desvendar nos variados cenários.

Por falar nos cenários, este estranho mundo tem lugar em ilhas verticais suspensas no ar ou na água. Não assumam logo que por tratar de um jogo com aspeto retro, que não nos oferece paisagens deslumbrantes. Gomez vai de nível em nível por um mundo vivo e ativo, com personagens a desenvolver as suas rotinas quotidianas e animais que vão vagueando pelo ambiente. Porém, foi quando me apercebi pela primeira vez que todos os cenários têm um ciclo e dia/noite, que fiquei de queixos caídos. Tudo isto está conjugado com efeitos sonoros e uma banda sonora belíssima. A música criada em chiptune por Rich Vreeland (também conhecido por Disasterpeace) revela-se, tal como todas as outras componentes técnicas de FEZ, um excelente meio de transporte para os tempos em que tinha nas minhas mãos controladores com apenas dois ou três botões.

O mundo de FEZ é enorme e por vezes podemos sentir-nos sobrecarregados com tantas localidades a decorar. Para não nos perdermos FEZ tem um mapa em três dimensões de difícil leitura caso não estejamos com a perspetiva adequada. É um ponto menos conseguido de FEZ, porém não me travou em nada na minha calma aventura. Aliás cheguei a um ponto em que já tinha decorado quase todos os níveis que tinha visitado e usar o mapa era automático e simples.

Depois de terminarem esta agradável viagem, têm a opção para continuar em New Game +. Mas mesmo que apanhem todos os cubos numa única vez, certifiquem-se que iniciem uma partida neste modo. Uma boa surpresa aguarda-vos.

FEZ é talvez o culminar de toda uma geração que foi esquecida pelos produtores e os grandes executivos atuais. As razões pelas quais nos rendemos aos encantos da NES ou da Mega Drive encontram-se aqui. Talvez por abundarem tantos jogos violentos no mercado que Phil Fish tenha concebido este mundo livre de sangue e armas de fogo.

Por apenas dez euros têm um jogo completo, uma verdadeira obra de arte que andou aos rebuliços durante o seu longo desenvolvimento, mas que por fim chegou ao XBLA e agora ao PC. Comprem-no, seja no Steam, GOG, ou XBLA valerá todos os cêntimos investidos.