Não são precisas muitas horas com esta edição do simulador de futebol da Electronic Arts, para perceber que FIFA 14 é uma obra de continuidade, uma ponte entre gerações de consolas. Se a série FIFA fosse um automóvel, a divisão canadiana da produtora é a oficina onde se vai fazer a revisão do motor quando atingido um número de quilómetros. Saído da "oficina", não há nada de verdadeiramente revolucionário no seu comportamento, porém, sente-se que o motor está muito bem afinado.

Como o sal acentua o sabor do caramelo e encanta os chefes franceses e americanos, estas alterações acentuam aquilo que já fazia as delícias dos jogadores que compraram as versões anteriores da série. Antes de começar a aventurar-me pelos inúmeros modos de jogo que serão mencionados na análise, realizei um trio de partidas rápidas com o intuito de tentar perceber de imediato se a jogabilidade tinha sido manietada pela produtora. Com os resultados obtidos, desde logo transparece que FIFA 14 é mais pausado e mais ponderativo que as entradas anteriores. Organizar um ataque ou consolidar uma defesa, denota uma maior aproximação à realidade do desporto. Nas dificuldades mais condescendentes continua a permitir aos jogadores comportarem-se como crianças hiperactivas com um par de pulmões emprestados ao maior maratonista do mundo, contudo, experimentem o jogo com alguma resistência adversária e darão com vocês próprios a fazer uma ginástica mental para desmarcar o atacante ou - qual manobra de Garry Kasparov - a colocar os torreões da vossa defesa em posições estratégicas.

Esta contenção e ponderação transformam a jogabilidade de FIFA 14 em algo mais discreto, que não precisa de gritar para chamar sobre si toda a atenção da sessão de jogo. Como a série de quadros "Houses of Parliament" de Monet em vez dos gritos visuais de Andy Warhol na sua "Marilyn Monroe". Não só de passes e posicionamentos vive esta refinação. Além de movimentos mais fluídos e naturais, a maneira como rematam à baliza é feita de maneira mais natural, mais realista, enfim, mais representativa do que veem num jogo de futebol na vossa televisão. Sejamos francos: remates do meio da rua que entram na gaveta são possíveis, contudo, nem todos os jogadores são capazes de marcar livres como o Roberto Carlos, portanto, é natural que este tipo de classe esteja reduzido aos escassos astros que marcam presença nesta reprodução digital. Revejam toda a temporada passada do campeonato português e perceberão facilmente que FIFA 14 não está a retirar nada ao espetáculo, está apenas a aproximá-lo à realidade do futebol atual.

Como prova corroborativa do que acabei de dizer está o refinar dos cantos e cabeceamentos, ou seja, puxem pela dificuldade e a maioria dos vossos golos será marcada desta maneira. Não quero dizer que os golos fora da grande área tenham sido banidos, pois continuam a ser possíveis - o que digo é que para tal é preciso conjugar talento, muitas oportunidades falhadas e um alinhar dos astros. Em vez de resultar num espartilho criativo, estas medidas colocaram-me a conjurar novas maneiras de transformar o meu estilo de jogo no mais letal possível, levando sempre em conta que o futebol nunca foi - e felizmente nunca será - uma ciência exata, portanto, tal como a EA Canadá ajustou a jogabilidade da sua série, também tenho que adaptar o meu estilo próprio aos diversos adversários que me foram calhando em sorte.

Os jogadores têm agora mais peso e o momento que ganham é frequentemente um problema quando dão uso à habilidade de mudar de direção rapidamente enquanto estão a sprintar. Como não poderia deixar de ser, os jogadores de topo encaram esta situação com uma astúcia diferente que as caras secundárias ou terciárias do plantel, porém, convém mencionar que não há super-heróis em FIFA 14 e até Messi, Ronaldo ou Bale não possuem o dom de dominar perfeitamente a bola enquanto tentam mudar o rumo da sua investida. Isto aplica-se também à maneira como negoceiam a conquista de terreno aos defesas. É possível investir numa disputa corpo-a-corpo e conseguem deixá-los para trás em corrida, contudo, os efeitos mencionados nos últimos parágrafos entram em ação e o mais certo é que percam o controlo da bola, acabando a jogada nos pés dos defesas ou fora da área de jogo.

Seja em que modo de jogo estiverem a jogar, nota-se que a Inteligência Artificial do jogo também sofreu algumas alterações. Os restantes dez jogadores da vossa equipa não têm comportamentos para ofuscar a vossa prestação mas sim para estarem lá como ajuda, ou seja, em vez de ficarem estacionados nas posições originais ou de terem comportamentos em que a massa cinzenta parece não ter sido adjudicada, sente-se que trabalham para acompanharem as vossas intenções. Obviamente, este tipo de comportamento não está isento de falhas, porém, estão bastante mais autónomos que nas entregas anteriores da série, tendo uma leitura de jogo contemporânea a prestável para os intentos do jogador que será sempre a estrela da companhia. Como o estilo de jogo varia imenso de jogador para jogador, fiquei com a ideia que a Inteligência Artificial não tenta adivinhar o que cada um fará do jogo, mas sim usufruir da doutrina que lhe foi ensinada, percebendo bem se um jogador é mais flanqueador ou se é adepto incondicional do Tiki-Taka.

O que cada um retira de um jogo de futebol é quase pessoal e intransmissível. Certamente existirão jogadores que acham que FIFA 14 faz demasiado pouco para se manter relevante, porém, pessoalmente fiquei com a ideia que a jogabilidade foi em grande parte evoluída em vez de revolucionada. Obviamente que isto não terá o impacto de introduzir algo que entre em rutura com o que foi feito ao longo dos anos, mas não deixam de serem implementações que em uníssono serviram para a descrição que fiz até aqui da sua jogabilidade.

Em termos de conteúdos, o prato de FIFA 14 está cheio. Com menus refeitos num estilo idêntico ao apresentado por Windows 8 e pelos Windows Phone, os "azulejos" apresentam os vários modos em que vão investir as vossas horas. Totalmente em inglês, estão divididos por quatro categorias principais: Home, Play, Football Club e Customise. O jogo foi testado na Xbox 360 e muito do seu potencial só foi possível alcançar com a consola ligada ao Xbox LIVE, dando vida a uma miríade de funcionalidades apenas disponíveis quando a consola deixou de ser uma ilha. No menu Home estão alojadas as opções que vos permitem continuar imediatamente aquilo que estavam a fazer quando deram por terminada a última sessão de jogo. Seja continuar a carreira, ler notícias e alertas sobre o jogo ou, por exemplo, verem a "Equipa da Semana".

No segundo menu, Play, é onde está o "sumo" do jogo. Carreira, Ultimate Team, Season, Skill Games, partidas online, enfim, as escolhas são imensas e prometem fazer o disco rodar na vossa consola durante longas semanas ou, em muitos casos, meses. Finalmente, na secção Football Club podem consultar o catálogo, os alertas, tabelas de liderança e lerem as notícias dos vossos amigos. O Customise é onde poderão criar jogadores, aceder à loja FIFA 14, ver repetições e alterar as definições do jogo ou Online, assim como editarem o vosso Perfil. Tudo isto é atualizado constantemente em três vectores diferentes: o que fizerem no jogo, o que a comunidade fizer nas suas partidas ou com base nos vários tópicos que a produtora resolver introduzir ou detalhar. Não é obrigatório ter uma ligação à Internet para experimentarem FIFA, todavia, se o fizerem numa consola offline estarão a perder uma imensidão de conteúdo e, não menos importante, aquele sentimento de fazerem parte de algo maior que o que está encerrado no DVD ou Blu-ray do jogo. Com a Xbox 360 ligada ao LIVE, senti que era membro de um ecossistema em constante evolução, mutável de dia para dia.

Nos modos de jogo também não existiu uma revolução, o que deixa algo a desejar. Enquanto na jogabilidade é compreensível que a equipa de produção tenha refinado a fórmula de maneira a oferecer uma experiência mais conseguida e mais aproximada da realidade, os modos de jogo e a maneira como os vão consumir permanece idêntica. Podem fazer carreira como jogador ou treinador, singrando e sendo vítimas de empréstimos - comecei numa equipa portuguesa de primeira linha e passei pelo Portsmouth para melhorar as minhas capacidades -, dando uso ao novo sistema de olheiros à procura de novos talentos. Além disso, podem novamente jogar partidas contra jogadores de todo o mundo - o jogo nunca mostrou sinais de latência excessiva - enfim, tal como já disse, não falta conteúdo, todavia, senti que estava a jogar tudo de novo.

Uma das figuras de proa da série FIFA é, indubitavelmente, a Ultimate Team. Mas também aqui as alterações servem apenas para continuar o que já tinha provado ser uma fórmula de sucesso. Agora podem participar em partidas únicas online, porém, a maior novidade dá pelo nome de "Chemistry Styles". Em português, esta "química" faz precisamente o que o nome deixa antever, ou seja, une o plantel. Quanto maior for a química entre os jogadores, mais perto estão de performances desejáveis nos vários vectores de cada jogo, seja a defesa, o meio campo ou as lanças apontadas às balizas adversárias. Resumidamente, limitam-se a mimicar digitalmente o bom senso, pois na realidade, é lógico que um balneário unido consegue feitos incríveis, muitas vezes suplantando-se a si próprio, aos dirigentes, adeptos, conseguindo entrar para a história do desporto.

Existe a opção para colocar o jogo em português, contudo, isto não traduz os menus, apenas coloca o relato do jogo no nosso idioma. Entregue a Hélder Conduto e David Carvalho, os comentários dão um toque de familiaridade às partidas, porém, depois de passadas algumas horas com o jogo, as linhas de diálogo tendem a tornar-se repetitivas e nem sempre o discernimento parece ter sido prata da casa, pois é possível ouvir tiradas que não vão além de constatar o óbvio. Refiro-me a frases como "Entramos na monotonia e isso é algo prejudicial ao jogo".

As outras componentes sonoras são idênticas às edições anteriores, ou seja, é possível ouvir cânticos de incentivo à nossa equipa e entre jogos, trinta e sete artistas do momento têm oportunidade de brilhar. A edição deste ano inclui nomes como Vampire Weekend, Nine Inch Nails, Bloc Party ou Marcelo D2.

Graficamente, o jogo apresenta detalhes muito interessantes, sobretudo na modelagem das personagens. Ainda que nos estádios não haja uma grande diferença face à entrega anterior, as caras dos jogadores estão aprimoradas, assim como o seu comportamento em campo. Como este comportamento é aplicável aos vinte e dois jogadores em campo, fiquei com a sensação que todo o ensamble está mais polido. Agora, é óbvio que o cuidado dado a Cristiano Ronaldo ou a Lionel Messi não é o mesmo aplicado a um jogador de segundo ou terceiro plano.

FIFA 14 oferece um refinar da sua jogabilidade que o aproxima consideravelmente do desporto rei que estamos habituados a ver na televisão ou nos estádios. Melhorias nos passes, remates, controlo e posse da bola, são muito bem-vindas, contudo, a mesma fórmula foi aplicada aos modos de jogos e aí a ausência de novidades salutares acusa o toque. Fiquei com a ideia que FIFA 14 foi o último polir antes de entrar na próxima geração de máquinas a todo o gás, tentando assim assumir-se como a série referência no que toca ao género onde está inserida.