Com PES 2017 já disponível no mercado e a fazer as delícias dos fãs, a pressão está agora nos ombros de FIFA 17, a nova entrada da série de simulação de futebol que tem dominado as vendas nos últimos e gozado de uma sequência constante de críticas positivas juntos dos jogadores e da crítica especializada. Disponível desde o final de setembro nas lojas portuguesas, a série da Electronic Arts prometia oferecer uma experiência suficientemente renovada para convencer os jogadores a darem o salto de FIFA 16 para o novo título.

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Se esperavam uma revolução completa relativamente ao capítulo anterior, FIFA 17 não a entrega. Na verdade, as novidades relativamente à ação dentro das quatro linhas são tão diminutas que a própria produtora tem dificuldade em fazer delas um elemento de destaque nas campanhas de marketing. Esperava-se que a muito necessária transição para o motor de jogo da DICE, o Frostbite, fosse uma lufada de ar fresco na jogabilidade e que introduzisse algo de novo na forma como o jogamos, mas tal não é o caso, com a nova iteração da série a conservar praticamente todos os elementos provenientes dos seus antecessores.

Já o tinha mencionado quando escrevi as minhas impressões sobre a demonstração jogável que antecedeu a chegada do título às lojas, mas é importante voltar a fazê-lo. Falta espetacularidade às partidas de FIFA 17, faltam transições rápidas para o ataque, faltam contra-ataques mortíferos, faltam oportunidades de golo frequentes, falta, acima de tudo, golo à obra da EA Sports. Esta série sempre se destacou por oferecer a versão mais aproximada do futebol real, mas parece ter chegado ao ponto em que a busca pelo realismo começa a perturbar o fator diversão.

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Não significa isto que a jogabilidade não seja agradável ou satisfatória, significa apenas que é uma abordagem completamente diferente do seu rival às partidas de futebol. Os jogos estão mais lentos e deliberados. Chegar à área adversário requer um processo mais demorado que nos obriga a trabalhar melhor as jogadas de ataque. Muito disto deve-se às melhorias notórias realizadas à inteligência artificial dos defesas contrários que cometem menos erros, cobrem melhor os espaços, antecipam intenções e cortam linhas de passe de forma mais eficaz do que nunca.

De facto, a inteligência artificial está tão focada na defesa que por vezes se esquece que marcar golos é indispensável para ganhar jogos. Isto verifica-se tanto nos vossos companheiros de equipa, que muitas vezes optam por recuar no campo para prevenir uma perda de bola e o contra-ataque adversário ao invés de se tentarem desmarcar e oferecer linhas de passe ofensivas, como nas equipas adversárias que, mesmo a perder, continuam a estacionar o autocarro e a trocar a bola entre os defesas.

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Falta algum equilíbrio a FIFA 17 neste departamento, algo que os fãs já fizeram a produtora saber e que já resultou numa atualização de jogo, entretanto disponibilizada, que tenta reequilibrar as forças entre o ataque e a defesa e tornar as partidas mais apetecíveis em termos de futebol ofensivo. Neste momento, tentar ultrapassar as defesas adversárias apresenta-se quase como um quebra-cabeças à espera de ser constantemente solucionado pelo jogador, daí que muitos dos jogos realizados contra a inteligência artificial terminem com resultados magros.

Ainda dentro das quatro linhas, a EA Sports optou este ano por repensar os lances de bola parada e oferecer um maior controlo e, consequentemente, um maior leque de opções para os jogadores aproveitarem estes momentos do encontro. Lançamentos, cantos, livres laterais e grandes penalidades, todos eles contam agora com um novo esquema de controlos que, após um período notório de aprendizagem e habituação, acabam por tornar-se intuitivos e uma novidade de relevo que poderá perfeitamente ser explorada pelos jogadores mais habilidosos. Exceção para os penaltis, que se tornaram desnecessariamente complicados.

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Referi também na minha antevisão que os guarda-redes aparentavam estar mais seguros, mas não foram precisos muitos minutos com o produto final para perceber que tal não era o caso. Sim, é verdade que estão mais eficazes em situações de um contra um com avançados isolados, mas também dei por mim a assistir a guarda-redes a aliviarem bolas de cabeça na grande área em vez de usarem os punhos e a afastarem de forma deficiente bolas que pingam na área. E depois há momentos como este, que captei na minha PlayStation 4.

No que diz respeito ao modos de jogo, FIFA 17 continua a apresentar um leque mais apetecível de opções à disposição do jogador. Embora os modos tradicionais continuem praticamente inalterados, FIFA Ultimate Team continua a ser um caso de sucesso gigantesco e permanece como o porta-estandarte e cabeça de cartaz de toda a obra e a principal razão pela qual FIFA continua a gozar de uma popularidade sem igual. Já o Modo Carreira continua a apresentar-se como a principal atração para quem não quiser investir tempo e dedicação na componente online.

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Mas mais do que as ligeiras melhorias na jogabilidade e nos modos de jogo já bastante familiares, a principal novidade de FIFA 17 é a introdução de um modo história intitulado A Caminhada. Seguindo a carreira futebolística de Alex Hunter desde os primeiros toques na bola enquanto miúdo até ao estrelato com o emblema do clube do coração no peito, o novo modo de jogo é uma interessante adição ao leque de experiências oferecidas pela série de desporto e, logo à primeira tentativa, comprova desde já existir nesta componente narrativa potencial para muito mais, caso o tempo e dedicação necessária lhe seja investida.

Algo limitada devido aos momentos pré-definidos da história que acontecem independente da qualidade, ou falta dela, das vossas atuações dentro das quatro linhas, a narrativa tenta ser algo mais do que apenas um festival de clichés e estereótipos deste tipo de histórias e, embora muitas vezes não o consiga evitar, momentos que se focam no drama familiar, a habitual pressão dos pais para o sucesso dos filhos, a vontade de corresponder às expectativas e ao legado dos familiares, bem como a forma como lidam com o sucesso ou insucesso são de longe os pontos altos de um modo de jogo que procura ser algo de diferente.

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A execução está longe de ser brilhante, ou não fosse esta a primeira vez que a série tenta enveredar por este caminho, mas existe aqui muito para ser explorado e aprimorado em futuras iterações. Por enquanto limitado a equipas da Premier League e a um número reduzido de equipas do Championship, A Caminhada sofre de forma significativa com cinemáticas recheadas de atuações e animações algo robóticas e, em várias ocasiões, bastante constrangedoras, aspeto que se torna ainda mais óbvio devido à curta duração da grande maioria das conversas.

Para além das partidas propriamente ditas, o modo de jogo utiliza também os jogos de perícia para simular os treinos durante a semana e será o vosso desempenho nestas duas situações, treino e jogo, que afetará o melhorar mais ou menos significativo de determinados atributos de Alex Hunter. Fora das quatro linhas, a interação fica limitada a opções de diálogo durante algumas interações com personagens secundárias que incluem treinadores, familiares, amigos e as clássicas entrevistas rápidas pós-jogo. A forma como decidirem responder - de forma arrogante, equilibrada ou tranquila -, afetará a vossa percepção junto do treinador que quer jogadores de equipa e junto dos adeptos que querem jogadores sem medo de se destacarem. Nada de muito complexo, mas o suficiente para oferecer momentos interessantes.

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Graficamente, FIFA 17 é um título sólido que aproveita a transição para o novo motor de jogo para oferecer ambientes mais atmosféricos nos principais estádios da Europa, seja através dos adeptos, dos efeitos de luz e sombra ou das condições meteorológicas. Dito isto, não deixa de ser algo desapontante a fraca modelagem de todos os jogadores que não sejam grandes nomes do futebol mundial e até dos treinadores da Premier League que podem ser vistos a gesticular junto das quatro linhas, especialmente quando estamos a falar de um jogo que corre no mesmo motor de jogo de portentos técnicos como Star Wars Battlefront e Battlefield 1.

FIFA 17 faz os mínimos para assegurar que a série mantenha a qualidade a que nos tem habituado nos últimos anos, mas não o suficiente para ser um salto qualitativo significativo relativamente aos capítulos mais recentes, sobretudo dentro das quatro linhas. Numa entrada que parece querer sobrepor as defesas em relação aos ataques, o título carece um pouco dos elementos que tornam este desporto espetacular e isso pode perfeitamente afastar alguns jogadores para o seu principal rival. Dito isto, FIFA Ultimate Team continua imparável e o modo história é uma muito interessante proposta que deverá convencer os céticos a dar uma oportunidade à obra.