Demorou, mas Final Fantasy XV está finalmente disponível. Dirão alguns que o seu atribulado percurso até ao dia 29 de novembro de 2016 é uma história bem mais interessante do que o jogo alguma vez conseguiria ser, mas infelizmente, essa será uma história que dificilmente teremos oportunidade de conhecer na totalidade. Anunciado em 2006 como um spin-off exclusivo para a PlayStation 3 intitulado Final Fantasy Versus XIII, foi necessária uma década inteira e várias mudanças de direção e diretores do projecto para que o título chegasse finalmente às lojas.

Entre anúncio e lançamento, uma geração inteira de consolas ficou para trás, os fãs de Final Fantasy foram brindados com uma trilogia que quase ninguém queria que passasse sequer do primeiro jogo e com uma entrada no género MMO completamente desastrada que teve inclusivamente de ser ressuscitada. Para que fique bem evidente o demorado desenvolvimento deste título, durante o mesmo período de tempo, a Naughty Dog colocou no mercado Uncharted: Drake’s Fortune, Uncharted 2: Among Thieves, Uncharted 3: Drake’s Deception, The Last of Us e Uncharted 4: A Thief’s End, cinco obras aclamadas pela crítica especializada.

Imagens Final Fantasy XV Analise

A E3 de 2013 marcou o regresso à ribalta de Versus XIII e a previsível mudança de nome para Final Fantasy XV. Tetsuya Nomura foi substituído na direção do jogo por Hajime Tabata, diretor de Final Fantasy Type-0, e o título abandonou a PlayStation 3 para se focar em exclusivo na PlayStation 4 e na Xbox One. Já em produção acelerada, os meses que se seguiram não foram propriamente calmos. Várias demonstrações jogáveis foram disponibilizadas, algumas das quais desapontantes, e as aparições em público nem sempre deram as melhores sensações - basta relembrar a batalha com um Boss na conferência da Microsoft há uns meses atrás.

No fundo, serve toda esta introdução para afirmar que a nova entrada da longa e popular série da Square Enix tinha tudo para ser um fracasso e para defraudar por completo as expectativas dos fãs que esperaram anos a fio por algo que lhes havia sido prometido ainda a PlayStation 3 e a Xbox 360 não tinham sequer um ano de idade. Final Fantasy XV não é uma desilusão, isso é certo. Contudo, também não é a resposta às preces dos mais fiéis da série. Na verdade, este título é bastante diferente daquilo que os jogadores teriam recebido, não se tivesse a produção arrastado por tão longo período.

Final Fantasy XV segue a história de Noctis, o rapaz de cabelo espetado que se faz acompanhar pelos seus três fiéis companheiros e amigos, de penteados igualmente exuberantes, Ignis, Gladiolus e Prompto. Herdeiro do reino de Lucis, o jovem faz-se à estrada a bordo de Regalia, o vistoso automóvel da família real, para se deslocar até ao local do seu casamento com Lunafreya, a sua amada e Oracle, ou seja, uma descendente de uma linhagem capaz de contactar com Deuses para auxílio do rei de Lucis. Antes de chegar ao seu destino, a tragédia abate-se sobre a capital do reino e o seu pai é declarado morto às custas da invasão do império - ramo narrativo que é contado quase exclusivamente pelo filme Kingsglaive.

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Mas mais do que a história de um jovem à procura de se preparar para ascender ao trono, o foco principal da obra é a amizade entre os quatro protagonistas, sendo que apenas no último terço da campanha é que a atenção se vira para o arco narrativo mais abrangente e mais próximo daquilo que é normalmente oferecido pelas entradas da série. Infelizmente, a narrativa falha em praticamente tudo aquilo que pretende atingir e fixa-se como o elemento mais fraco e desapontante do título.

Não só o arco narrativo geral está recheado de reviravoltas sem impacto nenhum, plot holes gigantescos e vários momentos que nos levam a pensar o que raio está a acontecer no ecrã, como a própria relação entre os amigos não é devidamente explorada para capitalizar todo o seu potencial. Contam-se pelos dedos de uma mão os momentos em que a obra foi capaz de me fazer perceber que existe uma genuína amizade entre Noctis e os companheiros e isso é um grande problema quando praticamente toda a obra gira à volta da mesma.

É impossível não sentir que estamos a perder algo quando jogamos Final Fantasy XV sem ter visto o filme CG que nos conta a história de Regis, pai de Noctis e Rei de Lucis, ou os pequenos episódios animados que nos dão a conhecer os alicerces para a amizade entre a personagem principal, Ignis, Prompto e Gladiolus. Não existe nenhum problema em expandir o universo de um jogo através de outras formas de entretenimento, no entanto, é bastante problemático quando pedaços essenciais para a verdadeira compreensão da narrativa são removidos por completo do jogo sem razão aparente.

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Felizmente, se não perderem demasiado tempo a pensar na narrativa e na oportunidade desperdiçada que é, têm aqui uma obra que vos proporcionará inúmeras horas de jogabilidade e entretenimento que não ficam a dever muito ao que de melhor se faz neste género no panorama ocidental. A transição de Final Fantasy para o mundo aberto, que se tornou um lugar comum em anos recentes, podia ter corrido mal, mas a divisão nipónica da Square Enix mostrou ter estado atenta à evolução da indústria durante o longo período de produção da obra e criou uma experiência que sabe como retirar o máximo proveito de oferecer um vasto e rico mundo para explorar aos jogadores.

Significa isto que encontrarão missões secundárias que apenas surgirão à medida que exploram livremente as várias áreas do mapa, que conversas opcionais com cada um dos vossos amigos apenas ocorrerão se acamparem num determinado local ou se dormirem num Outpost específico e que a opção de viagem rápida apenas ficará disponível após se deslocarem até ao local pretendido uma primeira vez. De uma forma geral, as viagens serão feitas através do Regalia e, embora a condução esteja limitada às estradas, existe algo de bastante apelativo em observar pela primeira vez um novo horizonte no interior do nosso veículo de luxo ao som de algumas das mais adoradas bandas sonoras da série.

Como seria expectável, o mundo de Final Fantasy XV está recheado de pontos de interesse à espera de serem visitados e explorados, e isso é o mesmo que dizer que são várias as atividades secundárias através das quais podem passar a vossa estadia nas redondezas do reino de Lucis, sejam as missões secundárias provenientes de personagens com as quais vão interagir com frequência ao longo da aventura e que vos incentivam a explorar as diversas áreas do mapa, as missões de caça através das quais terão oportunidade de enfrentar criaturas que de outra forma seriam inalcançáveis ou passatempos como corridas de Chocobo e sessões de pesca.

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Aqueles que gostam de perder dezenas de horas nos seus RPGs sem fazer grandes progressos na narrativa gostarão certamente de saber que a nova entrada da série vos oferece uma experiência que incentiva o jogador a desviar-se do caminho pré-definido e a explorar todos os cantos do mundo em busca de descobrir os segredos que esconde e as criaturas que habitam as suas diferentes áreas, criaturas essas que não são sempre agressivas, pelo que não são forçados a atacar tudo o que move se assim não desejarem. 

É certo que algumas missões secundárias pecam em originalidade e tornam-se rapidamente repetitivas, assim como é incrivelmente frustrante apenas poder aceitar uma missão de caça de cada vez, mas o título esforça-se ao máximo para satisfazer o vosso bichinho de limpar todos os pontos de interesse no mapa antes de avançarem na narrativa e, de uma forma geral, é bem sucedido nessa missão.

Dito isto, todo este conteúdo não seria minimamente interessante se não fosse suportado por um divertido e satisfatório sistema de combate. Atirando o sistema por turnos pela janela fora e abraçando por completo o combate em tempo real, Final Fantasy XV não teve problemas em tomar uma decisão que era absolutamente essencial com a transição para mundo aberto. Tudo funciona de forma simples e eficaz. A movimentação é acelerada graças à habilidade Warp de Noctis e a inteligência artificial dos companheiros é suficientemente boa para nos auxiliar sempre que necessário, lidando de forma inteligente com os inimigos e oferecendo habilidades únicas que evitam que o jogador sinta que está a fazer o trabalho todo sozinho.

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O combate é acessível para jogadores casuais e tem a profundidade suficiente para satisfazer aquele que procuram um maior desafio, contudo, o título está longe de ser exigente e o tão familiar grinding que é frequentemente associado à série está praticamente ausente. Tendo realizado praticamente todas as missões secundárias à medida que estas me eram disponibilizadas, deixando apenas para mais tarde as de nível demasiado elevado para o estado atual dos protagonistas, concluí praticamente todas missões principais com as minhas personagens uns bons 20 níveis acima do nível recomendado. Pelo que não terão de se esforçar muito para atingir níveis que vos permitam aniquilar de forma mais ou menos rápida os principais obstáculos e inimigos do jogo.

À medida que vão combatendo e realizando missões, vão também acumulando pontos de experiência, pontos esses que apenas são assegurados após dormirem em acampamentos ou em Outposts. Para além de elevar o vosso nível e valores estatísticos, os pontos de experiência dão-vos ainda Pontos de Ascensão, ou seja, a moeda com que melhorarão os quatro amigos através da extensa e diversificada árvore de habilidades do jogo, distribuindo a vossa atenção da forma que bem entenderem em categorias como Combate, Trabalho de Equipa, Magia e muitas outras. É importante mencionar que a opção entre acampamentos e Outposts para dormir tem impacto na evolução das personagem, uma vez que os acampamentos dão Pontos de Ascensão extra, enquanto os Outposts multiplicam os vossos pontos de experiência acumulados desde a última conversa com a almofada.

Apesar de ser um jogo em mundo aberto durante praticamente toda a campanha, Final Fantasy XV também conta com dungeons, embora nem todas vos levem, obviamente, para terrenos escuros e subterrâneos. Será nestes locais que enfrentarão os inimigos mais poderosos, contudo, a maioria deles apenas serão visitados através de missões secundárias ou descobertos por acaso durante a vossa exploração, não sendo um exclusivo das missões principais. De uma forma geral, as dungeons são interessantes e desafiantes, mesmo que algumas se arrastem por demasiado tempo.

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Não existem muitos defeitos a apontar ao combate para além da já mencionada possível falta de exigência dependendo da forma como decidirem abordar o jogo, mas é importante mencionar que o novo Final Fantasy poderá desiludir fãs de longa data da série em alguns aspetos. Refiro-me, mais concretamente, ao número reduzido de Summons e à sua escassa utilização - nas 65 horas que demorei a terminar o jogo e a obter o troféu de platina, o número de vezes que recorri aos Summons não chegou a uma dezena -, bem como à diversidade de membros na vossa party. Sim, algumas personagens juntam-se momentaneamente ao quarteto, mas é sempre de forma demasiado breve. Posso também confirmar que, apesar da atualização de lançamento, a câmara continua problemática em situações de combate em locais apertados.

Lembram-se de termos noticiado na semana passada que a Square Enix estava a trabalhar numa atualização para adicionar mais cinemáticas à história e para melhorar o capítulo 13 do jogo? Pois bem, se sobre a história já está tudo dito, sobre o capítulo 13 é preciso dizer que é bastante fraco. Contudo, não me poderei alongar muito sobre o porquê, uma vez que isso envolveria entrar em território de spoilers. Como provavelmente já saberão, o título torna-se bastante linear nas últimas horas da aventura, mas este capítulo em específico comete o erro de remover da experiência tudo aquilo que tornou as horas anteriores tão satisfatórias e fá-lo durante um aparentemente interminável período de tempo.

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Tecnicamente, Final Fantasy XV é um jogo extremamente bonito e que aproveita ao máximo o poder das consolas da atual geração - até porque é importante não esquecer que este é o primeiro título da série produzido em exclusivo para a PS4 e Xbox One. O mundo de Lucis é incrivelmente diversificado, tanto em fauna como em flora, mas é quando vemos o pôr-do-sol dar um tom alaranjado ao horizonte ou quando vemos a meteorologia passar de chuva torrencial para um tempo solarengo que percebemos que estamos a jogar uma obra que foi criada com enorme atenção ao detalhe. No fundo, o ciclo dia e noite e a meteorologia servem sobretudo para demonstrar os efeitos de luz e sombra do jogo, apesar de terem igualmente impacto na jogabilidade - é só na escuridão da noite que os demónios se mostram ao mundo.

Por sua vez, a banda sonora tem a qualidade que seria expectável de um título da série, adaptando-se aos diferentes momentos de jogo e surgindo com a força toda nas cinemáticas mais espetaculares. Contudo, falta-lhe algo para se tornar verdadeiramente memorável. É certo que a história fraca não ajuda a enaltecer a música orquestral que a acompanha e também é certo que passarão muito tempo no carro a ouvir músicas dos jogos anteriores, ainda assim, a única música que ficou cravada no meu cérebro foi aquela que vos acompanha em todos os Outposts.

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Se ainda não ficou claro, afirmo agora que gostei bastante do meu tempo com Final Fantasy XV. Ao contrário de muitos de vocês que estão a ler estas linhas, o meu historial com a série é reduzido, contudo, se o objetivo da Square Enix era entregar uma obra capaz de cativar novos jogadores, então penso que esse objetivo foi bem conseguido. O combate é muito bom, a transição para o mundo aberto é feita com sucesso e o grafismo é um regalo para os olhos. 

Infelizmente, a narrativa, esse tão importante elemento em qualquer RPG, é uma monumental desilusão e a linearidade que provoca nas últimas horas da campanha deixam um sabor amargo na boca na hora da despedida. Se conseguirem ignorar a história e focarem-se na jogabilidade, então têm aqui um Final Fantasy que pode não atingir o patamar de qualidade que a série em tempos apresentou, mas que dá boas indicações para o seu futuro.