Dulce Maria Cardoso é uma excelente escritora, discutivelmente uma das melhores que figura no panorama literário português contemporâneo. E tem um novo livro: Tudo São Histórias de Amor. Num dos seus contos, o desconcertante convite ao leitor: "Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada". A Square Enix fez um convite idêntico ao jogador quando lançou Final Fantasy X em 2002: "Tu, jogador, vem cá, caminha comigo na berma deste amor".

Os tempos eram diferentes, as vontades também. Muitos que lerem esta análise estarão agora entre dias laborais, pequenas ilhas de tempo livre em que brincam à adolescência de início de milénio, relembrando tardes inteiras dedicadas ao que na altura não era um passatempo, era um modo de vida à volta do qual orbitavam idas às aulas. Completar os jogos não era suficiente, consultavam guias - e escreviam outros - para consumir tudo o que os produtores tinham colocado no disco. Todos os jogos tinham multijogador, pois os intervalos das aulas eram lições dadas aos outros colegas. Sentiam-se heróis mesmo quando não estavam com um comando na mão. E eu estava com vocês todos.

Final Fantasy X foi o primeiro título da série a ser publicado na PlayStation 2, aproximadamente dois anos seguiu-se Final Fantasy X-2. Agora, na PlayStation 3 e na PlayStation Vita, o duo está mais unido do que nunca, sendo apresentando quase como duas partes de uma única aventura. Final Fantasy X/X-2 HD Remaster é um remoer e regressar a essa altura da vossa vida, contudo, graças à remasterização, é quase impossível deixar de sentir que a dupla de Role Playing Games cresceu com vocês quando não estavam a olhar, alimentando a nostalgia com matéria contemporânea.

Tendo comprado os dois aquando do seu lançamento, temia que os avanços técnicos danificassem as minhas memórias quase a entrar em domínio retro. Isso nunca chega a acontecer, funcionando como uma atualização às memórias criadas, em vez de as obliterar num manto contínuo de desilusão. Se ainda não tiveram oportunidade de experimentar Final Fantasy X e/ou Final Fantasy X-2, têm aqui um trabalho de restauro notável, capaz de proporcionar as mesmas sensações que as suas iterações originais na PlayStation 2.

Começando por Final Fantasy X, esta é a prova que algumas vezes, algo que tem quase tudo para falhar, acaba por não o fazer. Mais, acaba por se tornar um dos capítulos da série mais estimados pela sua falange de seguidores. Reparem: Apesar de ter em Sin a sua grande ameaça, a narração impõe-se num território geralmente pantanoso: uma relação de confiança que desagua em algo ainda mais sentimental entre Tidus e Yuna. Acredito que isto tenha despoletado dois focos de interesse: por um lado, os jogadores queriam ver o que ia acontecer entre Tidus e Yuna e, por outro, quiseram acompanhar o que o protagonista iria fazer em Spira depois da sua Zanarkand ter sido destruída. Aos jogadores é dada a oportunidade de lutarem com tudo o que têm contra a perda, um tema que ressoa junto de quase todos que experimentam o título da Square Enix.

Final Fantasy X resulta porque a criatividade investida na profundidade das personagens não esgotou com Tidus e Yuna. O resto do elenco está à altura e servem de alicerces à narrativa e à boa estadia proporcionada pelo título. Auron, Wakka, Lulu e até Kimahri têm os seus méritos, sendo praticamente impossível esquecer o enigmático Auron durante esta última década, um testemunho real da sua complexidade enquanto personagem.

Falar de Final Fantasy X é falar do seu sistema de batalha. Numa decisão que corrobora o que afirmei no início de outro parágrafo, trocar o sistema Active Time Battle pelo Conditional Turn Based Battle poderia ser um atestado de falhanço, pois é uma rutura com aquilo que os fãs da série estavam habituados. Na prática, tornou possível a troca de personagens durante as batalhas, congelando o tempo de cada turno. Isto fez com que os ataques fossem mais deliberados. Outra mecânica que merece ser ressalvada é o Overdrive: estado em que é dada a oportunidade ao jogador de desferir ataques especiais. Contudo, em vez de assistirem de palanque, os jogadores são convidados a intervir, tornando-os parte integrante de cada batalha.

Final Fantasy X-2 também tem os seus atributos, apesar de não estar à altura do jogo original. O tempo que passou na vida real teve o mesmo curso no jogo, ou seja, depois da ameaça principal de Final Fantasy X ter sido contida, é a vez de os jogadores partirem numa aventura mais ligeira. A história nunca consegue estar à altura do precedente e o sistema de batalha oferece algumas funcionalidades diferentes, sendo que a principal anotação recai sobre o Dress Sphere Grids: resumidamente, o jogador vai alternando os desígnios das três personagens consoante a sua roupa.

Ao jogar esta compilação descobri alguns sentimentos novos em relação ao que tinha sentido nos seus lançamentos originais: Final Fantasy X-2 complementa Final Fantasy X, ou seja, não ter que esperar alguns anos entre os dois jogos provou que X-2 não quer ser uma aventura tão pungente como o jogo original e funciona melhor se pensarem desde o minuto zero que estão a experimentar algo que tem o propósito de esticar a epopeia de Final Fantasy X.

Mas o propósito desta análise não é versar profundamente sobre cada pormenor dos dois jogos, como a mecânica Sphere Grid do título original, sistema que vos permitirá desenvolver as personagens do jogo original. O importante é o que Final Fantasy X/X-2 HD Remaster coloca em cima da mesa na PlayStation 3 e na PlayStation Vita. Qualquer um tem acesso às versões originais dos dois jogos, contudo, só aqui encontrarão novo grafismo, novo áudio e novo conteúdo.

O primeiro de vários socos no estômago que vão levar é, obviamente, o grafismo. A nossa memória molda o visual daquilo que gostamos. Removendo esse perigoso filtro, o trabalho feito pela produtora é notável: claro que alguns pontos revelam a sua idade, contudo, olhando para o quadro geral facilmente percebemos o trabalho dedicado ao seu restauro. Os cenários ganharam uma nova vida, a modelagem das personagens foi refeita com novas texturas, enfim, praticamente todos os parâmetros que poderiam ter sido melhorados, foram.

Se forem jogadores das versões originais, existem dois patamares em que vão notar estas diferenças: primeiro está o choque inicial, a cinemática de abertura, a constatação que estão de volta ao vosso alimento durante os dias em que viveram para terminar o jogo. Depois, aos poucos, vão reparando em pormenores que a vossa memória ainda conserva enquanto repetem interiormente: "Já sei o que vem a seguir" e "Lembro-me de ter estado aqui mas algo está diferente". Essa diferença é o resultado da operação plástica executada pela Square Enix, provando que é possível publicar uma remasterização sem aniquilar a obra original, uma mensagem numa garrafa enviada à Konami depois de Silent Hill HD.

Mas não é apenas do grafismo glorificado que vive esta compilação. A banda sonora também foi trabalhada e existe novo conteúdo à espera de ser experimentado. Final Fantasy X Eternal Calm é uma cinemática que permite perceber o que aconteceu entre os dois jogos e que foi extraída da versão International de Final Fantasy X. Outra opção presente no menu principal do jogo dá pelo nome de Final Fantasy X-2: Last Mission, um minijogo posterior a Final Fantasy X-2 que até tinha sido apenas publicado no Japão. Não são pérolas que vão impulsionar a compra da compilação, contudo, é bom saber que estão incluídas, permitindo alguma contextualização adicional por todos os apaixonados pelo dueto de títulos principais.

Tive oportunidade de experimentar o jogo na PlayStation 3 e na PlayStation Vita, o que me permitiu comparar o trabalho desenvolvido em cada uma das plataformas. Sem grande surpresa, a versão para a consola caseira apresenta um grafismo superior, contudo, há algo de quase mágico em ter oportunidade de levar duas aventuras desta envergadura comigo, algo que pareceria ridículo em 2002. A framerate é mais estável na PlayStation 3, mas se estão apenas a pensar em comprar a versão Vita não ficarão desiludidos com a sua prestação técnica. De ressalvar que no cartucho só está Final Fantasy X, ou seja, para acederem a Final Fantasy X-2 terão que resgatar o código incluído na embalagem e aguardar que 3GB de jogo seja transferido para o vosso Cartão de Memória.

No cômputo geral, esta acaba por ser a derradeira experiência que se pode ter com este período da série. Claro que existem pontos negativos: a vocalização deixa bastante a desejar e continuo a achar que o Blitzball nunca deveria ter sido uma modalidade desportiva de proa, todavia, é ideal para reviverem outra era da vossa vida ou para conviverem pela primeira vez com um dos Final Fantasy mais bem conseguidos da série e a sua sequela. Quase como nota de rodapé importa mencionar que Final Fantasy X/X-2 HD Remaster está disponível na PlayStation 3 e na PlayStation Vita, contudo, não usufrui de cross-buy, ou seja, terão que comprar cada versão separadamente se quiserem desfrutar do cross-save, funcionalidade que vos permitirá começar o jogo em casa e continuar no metro ou vice-versa.