Existe uma baleia diferente de todas as outras, a baleia mais solitária do mundo. Comunica a 52 Hertz, uma frequência bastante superior à restante espécie. Ninguém a ouve, ninguém fala com ela. A Nintendo 3DS teve um arranque de vida idêntico. Ninguém a compreendeu quando chegou ao mercado. Os jogos não eram muito apelativos, enfim, por muito que tentasse comunicar com os jogadores, ninguém a ouvia.

Felizmente para os cofres da empresa de Quioto, a história da sua portátil mudou drasticamente com o decorrer dos anos. De patinho feio, passou a uma plataforma com jogos irresistíveis e com um cardápio para 2013 considerado por muitos como o melhor de todas as consolas no mercado atualmente, portáteis ou não. De dentes cerrados nessa fileira está Fire Emblem: Awakening. Depois de ter causado sensação no Japão, onde foi lançado em abril de 2012 e de ter sido bem recebido no mercado norte-americano em fevereiro passado, eis que o Role Playing de estratégia chega às lojas europeias precisamente hoje.

Desenvolvido pelos estúdios Intelligent Systems, responsáveis pela viciante série Advance Wars, Awakening conta a vossa história, ou melhor, conta a história da personagem que criaram e personalizaram. Acordados são salvos por Chrom e pelos Shepard, um grupo de soldados que pela lei e pela grei juraram proteger os cidadãos do reino de Ylisse. Provando a fórmula de outros Role Playing Games fantasiosos, também aqui um reino está na iminência de ser atacado por outro. Não esperemos por amanhã e seremos legião hoje contra Plegia, o reino que quer uma guerra desculpada pelo mau comportamento dos antigos governantes.

A história de Awakening é comparável a um comprimido: tomem-no quando começam a jogar e o efeito começa-se a fazer sentir algum tempo depois. Olhando para a descrição, é fácil pensar que é mais uma história de um reino contra outro, o que é um juízo errado. É certo que, tal como descrito no parágrafo anterior, é esse o motor de arranque, porém, com o passar do tempo a narrativa abre-se à complexidade política e amorosa. Decalcando as pegadas dos grandes Role Playing Games que lhe precederam, percebemos que a história está a oferecer mais do que exigimos, quando começamos a ter dificuldade em deixar que os dois ecrãs da Nintendo 3DS se beijem e fiquem em descanso. O desenvolvimento do arco narrativo é apresentado em cenas de vídeo anime muito inspirado.

À semelhança dos outros jogos, também aqui a jogabilidade assenta numa grelha isométrica. O vosso exército, que expande e retrai como um acordeão, é comandado soldado a soldado por turnos. Como no xadrez, movimentam as vossas "peças", terminam o turno, o inimigo movimenta as dele e assim sucessivamente até ganharem ou perderem a batalha. O cerne da mecânica do jogo tem tanto de simples como de gratificante. Contudo, o jogo tem vários truques na manga que são ensinados ao jogador com um timing irrepreensível.

Awakening é a democratização da série Fire Emblem. Muitos jogadores que experimentaram os capítulos anteriores reconheciam a qualidade do produto, mas acabavam por desistir devido à dificuldade do mesmo. Aqui são recebidos de braços abertos, convidados a entrar e a prolongar a vossa estadia por bastantes horas. E esse acolhimento é feito sem tornar o jogo demasiado simplista para os fãs antigos. A funcionalidade que ajudou a série a tornar-se célebre entra a comunidade foi a morte permanente dos vossos soldados. Com um movimento mal calculado ou apenas com má sorte, podiam perder uma personagem para sempre. Além da frustração, quebrava os laços emocionais criados entre o jogador e no monte digital de pixéis no qual tinham investido largas horas a desenvolver.

Agora tudo isso é opcional. Se são da velha guarda e quiserem continuar a jogar em cima do arame, podem continuar a fazê-lo, contudo, optar por jogar num modo em que essa pressão não é um problema. Basta escolherem o modo Newcomer e as unidades aniquiladas regressam. Além disso, neste modo podem gravar o jogo quantas vezes quiserem e em qualquer lugar. Como podem facilmente depreender, em vez de segmentar a audiência, Awakening une-a na combinação do melhor dos mundos. Mas as novidades na jogabilidade não se quedam por aqui. Awakening introduz a opção de unir os esforços de vários soldados que estejam próximos no campo de batalha, resultado num ataque mais eficaz. O sistema "Seal" permite alterar a classe da personagem. Finalmente, como já tínhamos mencionado, agora é possível desenvolver relações entre as diferentes unidades, levando-as a casar e a ter filhos. Não pensem que isto são apenas retoques superficiais à mecânica do jogo. Tudo em Fire Emblem é desenvolvido até à exaustão.

É ainda importante realçar que os recém-chegados ao universo nunca se vão sentir perdidos, graças a um tutorial que de uma maneira inteligente e dinâmica vos explica tudo - e é mesmo tudo - o que precisam saber sobre Fire Emblem, capaz de fazer corar muitas enciclopédias. Se forem veteranos, podem desligar os tutoriais logo no início da aventura.

Durante as primeiras horas de jogo vão sentir-se reis e senhores do jogo. As batalhas vão correndo bem, começam a dominar as mecânicas de jogo descritas aqui e pela soma das inovações e detalhes enunciados regressam sempre ao jogo. As ideias novas vão sendo reveladas e Awakening vai-se moldando ao vosso tempo gasto, ou seja, vai-se mutando em algo novo e apelativo. Fazem do mapa-mundo do jogo a vossa casa e já começaram a subir o nível às vossas armas. Tudo corre bem. Provavelmente até já conquistaram alguns locais e expandiram o vosso exército.

Agarrados pelos colarinhos, é nos últimos dois terços do jogo que o desafio coloca tudo o que aprenderam à prova. Se escolheram o modo de dificuldade Hard ou Lunatic, é altura de começarem a mostrar aquilo que conseguem fazer e se optaram por jogar no modo Classic, ou seja, no modo em que as unidades são perdidas para sempre, é bom que comecem a calcular toda e qualquer decisão. O jogo tem-vos exatamente onde quer e até chegarem ao final do jogo, dez horas mais à frente, vão-se sentir extremamente desafiados. E vão morrer, o que não é o final do mundo. Aliás, perder unidades e sentir a sua falta é parte da experiência do jogo.

Quando estiverem encostados à parede, com menos unidades que o inimigo, com a hipótese de saírem vitoriosos cada vez mais diminuta, é aí que vasculham o cérebro à procura de soluções e o vosso lado de estratega vem ao de cima. Não sei se esta curva de aprendizagem foi propositada, mas assegura que todos os que terminarem o jogo ficam melhores no género do que quando iniciaram a aventura. Awakening é uma experiência que vai permanecer queimada no vosso subconsciente durante bastante tempo e é o palco que vão recordar quando contarem aos vossos amigos aquela

batalha épica em que conseguiram o impossível.

Já devem ter percebido que existem personagens que vão ser as vossas preferidas. Por um motivo ou por outro, o vosso esquema de batalha vai assentar mais sobre elas do que no resto do exército. Para contrabalançar isso e para evoluírem o menos utilizado, podem contar com inúmeras missões secundárias. É quase imperativo que se desviem da rota principal para deixarem o jogo respirar e para que percorram os cantos ao universo do mesmo.

O universo de Awakening tem várias maneiras de se expandir. Além de tudo encerrado dentro do cartucho - ou do ficheiro que descarregarem da eShop - existem mapas e personagens distribuídas via SpotPass, DLC a caminho e multijogador local. Infelizmente, é no multijogador que está uma das maiores oportunidades desperdiçadas: é uma componente muito ligeira, composta por batalhas cooperativas com três unidades de cada jogador a lutarem contra um grupo de inimigos à troca de itens e pontos. É facilmente imaginável uma componente multijogador online, retirando partido das funcionalidades da portátil da Nintendo.

Tecnicamente, o jogo também não é isento de falhas. É certo que o grafismo está muito bem conseguido, os cenários são variados e o efeito 3D convence, porém, a vocalização podia estar um pouco mais aprofundada e mais presente. Ainda assim, a música é épica e a opção de jogarmos com as vozes em inglês ou em japonês é sempre um toque bem-vindo.

Fire Emblem: Awakening é um grande exclusivo Nintendo 3DS. Não, não é um grande Role Playing Game ou um grande jogo de estratégia: Awakening é um grande jogo ponto final. Se são fãs do género e sempre se sentiram intimados pela adversidade da série, têm aqui uma porta escancarada para a experimentarem. O balanço entre a acessibilidade e o desafio não podia ser mais certeiro. A mecânica de jogo e a história encarregam-se do género. Se começarem o jogo, preparem-se para o largarem mais de vinte horas depois, quando tiverem outras tantas histórias para contar.