Se com Fe, a Zoink provou ter capacidade para produzir experiências mais melancólicas e contemplativas, com Flipping Death a produtora regressa ao registo através do qual se destacou aquando do lançamento de Stick it to the Man, em 2015. As comparações com esse esforço do estúdio sueco são inevitáveis, se tivermos em conta que as duas obras partilham o mesmo estilo visual, contudo, Flipping Death mostra-se mais do que capaz de se afirmar como um produto de qualidade sem necessitar desses paralelismos.

Tal como o título indica, em Flipping Death somos a Morte. Bem, na verdade somos só o substituto temporário da Morte, uma vez que a mesma partiu em direção à Lua para umas merecidíssimas férias longe de qualquer alma humana. Assumindo o controlo de Penny, uma jovem sarcástica que, em busca de um pelouro para passar algum tempo com o seu namorado, acaba por morrer após cair num profundo buraco no interior de um mausoléu do cemitério, sendo imediatamente transportada para o mundo dos espíritos.

Sem compreender ou aceitar a sua situação, a protagonista parte à procura da Morte para que esta a faça regressar à terra dos vivos. Infelizmente, através de uma sequência caricata de sucessivos mal-entendidos, Penny acaba por assumir temporariamente as funções da Morte que julga ter visto os seus pedidos por um substituto serem finalmente ouvidos. Sem grandes hesitações, a jovem dá por si a interagir e a resolver os problemas dos espíritos que se mantêm ligados ao mundo dos vivos devido a questões que ficaram por resolver.

Como facilmente se percebe, Flipping Death é uma experiência extremamente bem humorada, com a escrita a não desperdiçar nenhuma oportunidade para colocar um sorriso na cara do jogador. O seu elenco caricato de personagens, aliado à sarcástica protagonista, é fonte de inúmeros momentos de hilaridade que raramente falham o alvo. A qualidade da vocalização, as interações, os objetivos que somos obrigados a cumprir, os métodos que temos de utilizar para o conseguir, todos estes elementos são conjugados na perfeição para entregar uma obra que, tendo a duração ideal, se mantém interessante do princípio ao fim.

Ao ganhar os poderes normalmente apenas ao alcance da Morte propriamente dita, o jogador alternará entre o mundo dos espíritos, onde a jogabilidade assenta acima de tudo em segmentos de plataformas acessíveis, e o mundo dos vivos com o qual poderá interagir possuindo o corpo das personagens que habitam o cenário. Após possuírem estes corpos, podem ler as suas as suas mentes e falar com elas, bem como utilizar as suas características únicas para a resolução de puzzles.

Sem surpresas, os puzzles desta obra são pródigos em momentos cómicos e mais do que um desafio à nossa massa cinzenta, são acima de tudo oportunidades para a produtora aplicar o seu sentido de humor diretamente na jogabilidade. Aliás, fica por demais evidente que o objetivo não é colocar um entrave à progressão do jogador quando percebemos que basta ir ao menu principal para encontrarmos pistas que praticamente nos dizem como resolver o próximo puzzle.

Pode desagradar a alguns, mas a existência desta opção é a forma mais eficaz de garantir que o principal objetivo da experiência, o de divertir e provocar o sorriso no jogador, não é estragado pela frustração que está sempre associada à incapacidade momentânea para resolver um quebra-cabeças. É por isso que os poucos segmentos de plataformas que envolvem uma corrida contra o relógio podiam perfeitamente ter sido evitados, pois não trazem nada de valor e apenas complicam uma obra que se destaca sobretudo por não complicar.

No que diz respeito ao departamento técnico, o estilo visual que já havia sido utilizado em Stick it to the Man continua bastante apelativo, com cenários que parecem saídos de pinturas a óleo e designs das personagens altamente caricaturados que apenas acentuam o tom humorístico do jogo. A banda sonora está longe de ser memorável, mas faz o seu trabalho no acompanhamento da jogabilidade, uma vez que é a já mencionada vocalização das personagens que mais destaque merece.

Flipping Death é uma óbvia e fácil recomendação para qualquer jogador que esteja à procura de uma experiência com um sentido de humor apurado e que possa ser concluído em apenas duas ou três sessões de jogo. Mais uma vez, a Zoink prova a sua excelente capacidade para entregar aventuras divertidas capazes de proporcionar momentos cómicos através do seu elenco de personagens, das interações entre os mesmos e da própria jogabilidade.