O amor pode dar e tirar muito. É à volta desta espinha dorsal que se desenvolve Florence. Publicado originalmente nos dispositivos iOS e agora chegado ao mundo Android, é uma obra que apresenta uma relação. Contudo, o seu maior trunfo está na forma como o faz, não resvalando por caminhos já calcorreados e entregando ao jogador emoções fortes.

Na obra da Mountains e da Annapurna Interactive somos Florence, uma jovem de 25 anos que vive a vida de uma jovem de 25 anos. Ignora o alarme nas manhãs que chegam demasiado cedo, escova os dentes, apanha o autocarro e deixa-se perder no ecrã do seu telemóvel. Pode parecer uma decisão banal da produtora, mas isto fará com a maioria dos jogadores sinta logo uma ligação à protagonista da obra homónima.

Imagens Florence

Florence, que tem aspirações artísticas, acaba por conhecer Krish, um jovem músico de rua que tem planos para ser alguém no mundo das artes. O mundo de Florence é virado de pernas para o ar; o mundo de Florence intoxica quem segura o seu telemóvel. Sente-se fácil e rapidamente a ligação entre os dois, as primeiras conversas e o primeiro beijo - sente-se um íman a fazer serventias à flor da paixão na casa dos vinte anos.

A protagonista deixa alguém quebrar a sua rotina, passam a viver juntos, há que arranjar espaço para ele à volta dela. Quando a obra nos convida a colocar os seus pertences nas prateleiras, é uma excelente metáfora para o ajuste, para o compromisso, uma vez que o espaço não é infinito e Florence tem que remover alguns dos seus objetos de várias divisões.

Imagens Florence

Jogar este título é estar disposto a olhar várias vezes para o ecrã, ou melhor, olhar para o que está no ecrã à nossa frente e olhar também para o que é indiciado. Pistas deixadas para a interpretação que cada um fará cena a cena. Mecânicas da jogabilidade que são muito mais do que apenas o que é executado. Florence é um jogo francamente narrativo, ainda que não sejam vocalizadas palavras. Assim, é com a arte e as vinhetas que tudo passa para o jogador.

Não estamos perante uma história em que todos ficam felizes e morrem de mãos dadas no leito da cama. Não, importa nunca esquecer que Florence se dispõe a contar um amor na sua plenitude, não poupando o jogador a nada. Na prática, não poupando o jogador ao amor real fora dos contos de fadas. Obviamente não vou escrever sobre os momentos que antecedem os créditos, mas posso escrever que não é preciso jogarmos apenas situações perfeitas para que nos seja transmitida esperança - esperança para Florence e para nós.

Imagens Florence

O seu arco narrativo é o ponto mais forte, mas muito pela forma como é contado. Não esperem dificuldades em chegar ao final do jogo, porque não vão encontrar nenhuma. Há interação, sim, mas como se estivessem a ajustar uma deslumbrante banda desenhada. O toque no ecrã não necessita de destreza, apenas de um coração aberto.

Numa parte em que nem tudo corre bem, esse “afastamento” leva-nos a tentar resolver um puzzle em que as peças estão constantemente a afastarem-se do local onde pertencem. Outras secções precisam apenas de toques repetidos e outras fazer com que outro tipo de peças encaixem no seu lugar - cenas de diálogo em que para transparecer a sensação de urgência na discussão o ritmo vai aumentando. Sente-se o tom pela forma como as arestas das peças ficam mais vincadas.

Imagens Florence

São toques subtis que farão as delícias de quem adora obras deste género, mas que não conquistarão fãs de videojogos exigentes. Contudo, o maior problema de Florence para mim é a sua longevidade. Olhando para o meu telefone depois de ter terminado a obra, constato que passei por seis atos e por um total de vinte capítulos. Parece bastante, mas não é.

Demorei menos de uma hora a entrar e a sair da vida de Florence. O jogo não prolonga a sua estadia com artefactos inúteis, mas a edificação destas personagens exige que o jogador continue mais tempo com elas. Isto dá uma dinâmica irrepreensível à história, uma vez que estamos constantemente a ser brindados com novas propostas de interação, mas aproximadamente quarenta e cinco minutos é muito pouco na hora de dizer adeus.

Imagens Florence

Onde a produtora fez um trabalho irrepreensível é no departamento técnico. A arte em todas as cenas é simplesmente inesquecível, tanto porque tem qualidade no traço, como ajuda tanto a contar esta história, sendo claramente uma ideia inspirada. E a banda sonora também não fica atrás. A música é assinada por Kevin Penkin e encaixa na perfeição em todas as cenas que precisam desta força adicional.

Florence é um videojogo fugaz sobre um amor fugaz. O que faz, faz bastante bem. É na combinação da música e da imagem que uma narrativa interessante é elevada a algo memorável. Acredito que estou perante uma mensagem, não de felicidade ou de tristeza, mas sim de esperança, tal como já tive oportunidade de mencionar.

Imagens Florence

É bastante simples. Se rejubilam com uma boa história e acham que 2,99€ é justo para 35-45 minutos de contemplação e, sobretudo, de emoção desbragada, então têm aqui algo que vos ajudará a lavar a alma. Pode ser curto, mas Florence, a protagonista, entra facilmente para a categoria que precisa de mais tempo e de mais destaque. Depois de o ter terminado, Mountains e Annapurna Interactive são nomes a reter ainda com mais convicção. Bem, no caso da Annapurna a surpresa não é tão grande, uma vez que esteve associada ao brilhante What Remains of Edith Finch.