Os treinadores de bancada (ou de sofá) são uma espécie em expansão iminente, desenvolvendo as suas próprias teorias, táticas e filosofias de jogo ao longo dos últimos anos. Esta tendência está presente no coração de qualquer amante de futebol, que para além de torcer pela sua equipa preferida e apreciar o espetáculo em si, desenvolve jogo a jogo um desejo secreto de poder ele mesmo orientar os jogadores e ver o seu clube a jogar à sua própria moda e maneira.

Para satisfazer esta sede e criar uma oportunidade para que mais "Josés Mourinhos" nasçam por esse Portugal fora, a Sports Interactive volta a estar no centro das atenções para nos trazer mais uma edição de Football Manager. E nada melhor do que disponibilizar uma análise ao novo simulador três dias antes do seu lançamento e poucas horas depois de um dos grandes clássicos do futebol português ter voltado a animar as casas dos fãs aguerridos. Estão descontentes com o resultado de ontem? A vossa equipa ganhou mas não gostaram da exibição nem da forma de jogar? Bem, Football Manager 2014 poderá ser uma excelente solução para conseguirem dar a volta ao destino da vossa equipa, ainda que no mundo alternativo a que a SEGA deu vida.

Como habitualmente acontece de ano para ano, ao entrarmos em Football Manager 2014 apercebemo-nos imediatamente de algumas leves mas cuidadas alterações ao interface apresentado aos jogadores. Não se trata de nenhum encontro com uma ossada fóssil que ao aparecer no sítio errado, destrói toda uma teoria geológica que sobre ela assentava. Na realidade, trata-se apenas de um conjunto de pequenos afinamentos que na sua globalidade contribuem para uma experiência visual mais agradável e para uma maior facilidade de navegação através das diversas áreas do título.

A complexidade que resulta da junção de cada uma das componentes e de todos os pormenores e detalhes que a ela estão associados poderia resultar num sistema caraterizado por apresentar uma curva de aprendizagem bastante grande. Quem está por dentro das mecânicas de Football Manager tem perfeita consciência da profundidade atribuída a cada uma das diferentes etapas envolvidas no processo de treino de uma equipa, que poderia facilmente fazer com que os mais novatos se sentissem completamente desorientados e esmagados pela tamanha quantidade de informação que precisa de ser gerida. Felizmente para os jogadores que por esta altura se iniciam no simulador da Sports Interactive, a realidade é propícia a uma aprendizagem que ainda que não seja fácil, consegue acabar por ser bastante intuitiva. Todas as ramificações dentro de cada um dos imensos menus de jogo encontram-se dispostas de uma forma simples e de acesso rápido e eficaz, que simplifica toda a abordagem feita ao jogo.

Mais uma vez, isso não significa que o processo seja fácil, antes pelo contrário. Continua a existir uma exigência bastante elevada de capacidade de gestão das diversas ferramentas disponíveis, mas todo este mundo pode ser apresentado por uma série de tutoriais específicos e detalhados que revelam uma importância extrema na hora de se sentarem na ponta do banco de suplentes pela primeira vez na vossa carreira. Ainda assim, a quantidade colossal de informação a processar poderá continuar a assustar os menos pacientes. É por isso que a opção de iniciar uma carreira no modo de jogo Clássico continua a estar disponível pelo segundo ano consecutivo, oferecendo uma versão dos acontecimentos livre de todas as burocracias relacionadas com o treino da equipa, conferências de imprensa e outras tarefas que poderão ser encaradas como enfadonhas pelos amantes do estilo "escolher a equipa e jogar".

Gerir uma equipa de futebol de topo tendo como base apenas uma série de menus e informações textuais sobre o desempenho dos nossos jogadores pode não ser uma decisão muito sensata a tomar, por melhor que sejam os conselhos dos nossos ajudantes. Por alguma razão, nos jogos reais o treinador encontra-se apenas a escassos metros do local onde a magia acontece, pronto para acompanhar o desenrolar da partida, ajudando cada jogador de forma individualizada e comandando a equipa como um todo. Muito provavelmente, essa foi uma das razões pelas quais a equipa de desenvolvimento desta edição fez questão de introduzir algumas modificações benéficas no motor de jogo utilizado para recriar a simulação das partidas num formato a três dimensões. Os resultados práticos destas alterações revelam-se bastante satisfatórios, com especial ênfase na melhoria da inteligência artificial e na forma como cada um dos jogadores reage perante determinadas ocorrências do jogo. Tudo feito com o objetivo de nos dar uma melhor ferramenta de perceção em relação ao estado do desempenho dos nossos pupilos em campo.

Como não poderia deixar de se verificar num simulador para treinadores de futebol virtuais, Football Manager vive muito da sua componente tática. Na edição que hoje analisamos, esta componente sofreu uma remodelação bastante acentuada. A nível pessoal, creio que o pormenor de maior importância deverá estar relacionado com a forma como a inteligência artificial reage perante os sistemas de jogo que nós próprios apresentamos enquanto treinadores. Cada treinador adversário está agora mais inclinado para modificar a forma como a sua equipa joga em função daquilo que os nossos jogadores estão a fazer dentro de campo, algo que acontece em todas as partidas no futebol real. Mas não é tudo: cada jogador tem agora uma importância ainda maior no sistema tático da equipa que representa, podendo as suas funções ser delineadas de uma forma mais individualizada.

Outra das principais mudanças registadas em Football Manager 2014 em relação aos seus antecessores passa pelo sistema de transferências. Face às escassas horas que tive oportunidade de passar em frente às edições anteriores, creio que as modificações efetuadas tenham sido mais do que necessárias. O simulador dispõe agora de um sistema muito mais próximo daquilo que no mercado real se verifica, com a disponibilização de novas opções relativas ao empréstimo de jogadores e a forma como eles são tratados depois do negócio estar fechado e de já poderem jogar pelo novo clube. Numa altura em que o mercado de transferências do futebol se apresenta mais complexo e exigente do que nunca, um afinamento como estes vem com um timming quase perfeito.

A principal dúvida de alguns jogadores em relação à aquisição de mais um título da saga Football Manager assenta no facto de cada um dos novos lançamentos estar maioritariamente virado para a atualização dos plantéis e de todas as informações que ao futebol real dizem respeito. A dúvida em relação ao facto de a compra de um jogo novo ser justificada por este factor atormenta os mais diversos fãs todos os anos e a sua origem é facilmente perceptível. Pessoalmente, creio que o sistema de disponibilização de conteúdos transferíveis por parte da equipa de desenvolvimento seria um cenário muito mais justo para os fãs, mas excluída essa opção, creio que os amantes de Football Manager vão encarar a nova edição como mais um título a adquirir.

O jogo em si vive um pouco de todas as transferências e alterações feitas no mundo real, cuja ausência e atualização imediata seria responsável pela perda de grande parte da magia associada ao mundo virtual da Sports Interactive. Assim, todo este universo funciona de forma dinâmica, transmitindo uma envolvência e uma sensação ainda maior de veridicidade. Em adição, estão garantidas as pequenas mas importantes melhorias que referimos anteriormente e que pessoalmente, creio que para os fãs mais fiéis da saga, vão servir à tangente para justificar o desembolsar da quantia equivalente à compra de um jogo novo no mercado.

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Como nota final, aproveito ainda para vos chamar à atenção para a introdução de uma nova funcionalidade de gravação "na nuvem". Para muitos, esta nova componente poderá ser encarada com mais uma ameaça de Football Manager à vida social dos fãs, uma vez que desta forma ficam automaticamente habilitados a carregar todo o seu progresso a qualquer altura e em qualquer computador para além daquele em que tinham iniciado a sessão de jogo originalmente.

Decorridos já alguns dias desde que os principais simuladores de futebol chegaram ao mercado português, Football Manager arrisca ter que dividir algum protagonismo com as estrelas da simulação da modalidade propriamente dita. No entanto, a proposta da Sports Interactive acaba por pender para outro lado, apelando principalmente aos adeptos mais informados e com mais cabeça para pensar na parte teórica e de planeamento associada à gestão de uma equipa. Em pleno ano de 2013, quem compra Football Manager sabe perfeitamente o que o espera e todas as burocracias e extensas sessões de gestão de informação não são ameaça para ninguém. Ainda assim, como já foi dito, se fizerem parte de um grupo de jogadores com menos tempo para ser gasto em jogos como este, então o modo Classic deverá assentar na vossa vida como uma luva.

Football Manager 2014 é sem dúvida alguma um jogo perfeito para os amantes de futebol. Durante as dezenas de horas em que me entretive com a minha carreira virtual, percebi que o principal defeito que poderá ser apontado a este jogo reside no facto de poder ser encarado como uma forma de a produtora voltar a encher os cofres ano após ano. Sou da opinião que as adições deste ano conseguem ser suficientemente fortes para justificar uma nova aquisição, principalmente se se tratarem de fãs da saga. No entanto, é preciso ter em consideração que grande parte dos jogadores poderão mostrar-se menos sensíveis às melhorias, encarando-as como uma série de pequenos afinamentos em relação ao jogo lançado durante o ano passado.