Quando Ole Gunnar Solskjær chegou ao Molde, da Noruega, os jornalistas perguntaram-lhe quais eram as razões que o levavam a acreditar que iria ser bem sucedido enquanto treinador. Sem papas na língua, o ex-jogador nórdico respondeu que a primeira seria ter tido Sir Alex Fergunson como mentor durante mais de oito anos. A segunda, e mais importante para os propósitos desta análise, "sou muito bom no FM".

A profundidade com que Football Manager se tem apresentado ao longo dos últimos anos tem dado este tipo de frutos. Essa é uma das grandes provas de que o produto da Sports Interactive representa uma obra de cariz único no mercado - a veracidade com que retrata um meio complexo e com que cria ferramentas para que os jogadores se sintam verdadeiramente inseridos em toda esta simulação, ao ponto de a conseguir transportar de forma bem-sucedida para fora do ecrã.

Não fez muito tempo desde que escrevi nestas mesmas linhas sobre um jogo com uma unidade a menos no título. Na altura descrevi a componente gráfica da edição 2014 de Football Manager como tendo evoluído ligeiramente em relação à do ano precedente, mantendo uma essência que apenas foi afinada aqui e ali, sem modificar a sua fenomenologia. Este ano foi diferente.

Os primeiros passos em FM2015 poderiam ser dados ao ritmo do genérico de um qualquer programa de reconstrução de habitações particulares. De facto, a sensação assemelha-se à de mudar de casa. Tudo aquilo que conhecemos e nos acompanhou ao longo dos últimos anos vem connosco, mas está arrumado em prateleiras diferentes, gavetas distintas. O primeiro impacto faz-nos tactear tudo o que nos rodeia, mas rapidamente começamos a encontrar a localização das componentes de que sempre conhecemos e a habituação faz-se rapidamente. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

A mudança é para melhor, disso não tenho grandes dúvidas. Os menus, paredes, sub-menus e divisões foram derrubados durante a construção de um loft mais amplo, em que todas as componentes do jogo aparecem mais à mão de semear. A consequência imediata poderia ter sido a de uma sensação de maior balbúrdia no ecrã, mas a experiência dita que não é disso que se trata. Com a nova interface, melhora-se consideravelmente o problema dos menus fantasma que os jogadores só descobriam passadas várias dezenas de horas de jogo.

Football Manager 2015 também põe fim a um paradigma que já estava instalado há quase duas dezenas de anos. Quando começamos uma nova carreira no jogo, somos forçados a partir do mesmo ponto do que outros milhões de jogadores, não tendo em consideração as nossas tendências naturais enquanto gestores/treinadores e o cunho pessoal que de uma maneira ou de outra acabamos por ver refletido dentro de campo.

O jogo deste ano destaca-se então por apresentar uma nova componente que oferece a possibilidade de definirmos diversos pontos das nossas caraterísticas a nível anímico. Um pouco ao estilo do que os compêndios do género RPG apresentam, podemos atribuir pontos em componentes como a capacidade de ataque, a construção tática, ou o desempenho a nível defensivo, definindo-nos enquanto treinadores e possivelmente, dando asas para que os jogadores se recriem como a versão virtual de um dos seus ídolos.

Muitos poderão questionar-se em relação ao efeito prático desta componente no jogo da Sports Interactive. À primeira vista, pode de facto parecer algo bastante teórico que apenas serve para engrossar a lista de adições implementadas, mas a realidade difere bem dessa premissa. É fácil escolher um exemplo para figurar o que pretendo transmitir - um treinador que possua uma personalidade que envolva baixas capacidades motivacionais terá muito mais dificuldades em completar com sucesso as conversas com os elementos da sua equipa, algo que acaba por se refletir no desempenho da mesma.

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Todas estas alterações têm a sua determinada importância na experiencia que é proposta aos jogadores, mas aquela que acaba por ser realçada de forma mais evidente é, como seria de esperar, a reformulação do motor 3D. Esta é a parte em que uma extensa legião de jogadores pudera ser levada a pensar que estamos a tratar apenas de assuntos supérfluos. que não trazem nada de essencial ao jogo de planeamento e gestão das atividades do clube cujo leme guiamos. Desenganem-se esses, porque a minha experiencia com Football Manager 2015 revelou que a forma como o desempenho da equipa é retratado nos encontros simulados oferece a melhor ferramenta para irmos avaliando o seu desempenho.

Efetivamente, mais do que um acessório à gestão da equipa, o reformulado motor de jogo 3D oferece agora uma transmissão muito mais fiel e imediata das ordens que vamos transmitindo para dentro de campo, permitindo-nos ir ajustando a situação conforme vamos detetando erros naquilo que a equipa vai demonstrando, muito graças ao novo leque de animações captadas diretamente da fisionomia de dezenas de jogadores reais.

Ao nível das buscas de novos talentos e utilização de olheiros, a Sports Interactive também fez os trabalhos de casa. Os jogadores podem agora seguir determinado atleta de uma forma muito mais pormenorizada, escolhendo o número de vezes que os seus scouts viajam até aos seus jogos. A mecânica implementada para gerir este tipo de componente também foi ligeiramente alterada, já que agora temos a oportunidade de receber um relatório com notas atribuídas a cada uma das capacidades do jogador em causa, que depois vão sendo aproximadas do valor real enquanto o número de visitas ao seu clube vai aumentando.

Ainda antes do apito final, nota para o Challenge Mode que continua presente na obra. Entre a lista de desafios prontos a serem escolhidos pelos jogadores, continuam a destacar-se tarefas que podem exigir maior destreza aos aventureiros que as resolverem concluir - retirar determinada equipa da zona de despromoção a meio da época é uma delas. Infelizmente, todo este modo continua a ser um reflexo daquilo que vimos na edição do ano passado, sem novidades que justifiquem o regresso dos jogadores mais experientes.

Um ano depois de a Eletronic Arts ter posto fim à vida do seu principal corrente (FIFA Manager), Football Manager apresenta-se no mercado com um arsenal pronto para voltar a dominar as tabelas de vendas de um forma sem procedentes. Ao prato principal que já tem vindo a ser suficiente para fazer os jogadores lembrem os dedos até ao cotovelo - com uma média de longevidade que ascende às duzentas horas - a equipa de Miles Jacobson adiciona um tempero que confere consistência à receita e a torna ainda mais tentadora.

E mesmo apesar de a revisão final continuar a acusar a permanência de alguns dos problemas que ao longo dos últimos anos têm vindo a ser acusados e que continuam sem sofrer grandes alterações, Football Manager 2015 é a edição mais completa e consistente de sempre.