Tão inevitável como a discussão das arbitragens no futebol português, a nova época desportiva é igualmente sinónimo do regresso anual à nossa vida de treinadores digitais na aclamada e popular série da Sports Interactive. Focado na simulação e gestão fora das quatro linhas, Football Manager satisfaz um nicho muito específico na indústria dos videojogos, mas isso não o impede de ser um nome facilmente reconhecido por qualquer jogador que se considere fã do desporto rei.

FM 2018 Imagens Analise

Ao retirar-nos o controlo direto sobre o que se passa no relvado, estas obras fundem adepto e treinador, fazendo-nos sofrer impiedosamente sempre que as coisas não correm bem ao mesmo tempo que nos dá as ferramentas para tentar - ênfase na palavra tentar - mudar o rumo dos acontecimentos. A magia de Football Manager está assente na forma como nos faz questionar todas as decisões, como após cada derrota nos leva a fazer uma caminhada introspectiva ao som de Dust in the Wind para perceber o que originou o mau resultado, como nos destrói o ego quando imediatamente após uma exibição de gala na Liga dos Campeões nos surpreende com uma derrota frente ao colosso Feirense.

Obviamente, identificar o que correu bem ou mal nem sempre é fácil tal é a quantidade de fatores que contribuem para o melhor ou pior desempenho dos jogadores, incluindo aquele sempre importante pedaço de sorte ou azar para evitar que um jogo que acabe 1-22 em remates termine com um 0-0 no marcador. Ainda assim, nada é mais satisfatório do que quando conseguimos anular por completo um adversário de igual ou melhor valia através da nossa sabedoria tática, explorando as características específicas dos nossos jogadores e as vulnerabilidades dos adversários.

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Sejam já catedráticos destas andanças ou novatos a dar os primeiros passos neste estranho e implacável mundo futebolístico, Football Manager tem algo a oferecer a todos os jogadores, permitindo escolher o grau de dificuldade com que pretendem iniciar a obra através da sempre importante decisão de onde começar a carreira de treinador. 

Querem um desafio equilibrado? Então os três grandes portugueses são a melhor opção, com a dificuldade a alternar bastante consoante estejam a participar nas competições internas ou nas competições europeias. Querem um desafio exigente? Peguem num modesto clube das divisões secundárias e tentem levá-lo até à conquista da Liga dos Campeões. Não será para todos, mas terão uma boa história para contar aos netos.

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Se em 2017 o foco esteve em tornar a obra mais acessível para novos ou jogadores regressados após vários anos de ausência, 2018 centra atenções na personalidade dos atletas e na sua influência junto do grupo de trabalho. Intitulado Dinâmicas, este novo sistema dá destaque às políticas de bastidores a que o adepto raramente tem acesso, mas sabe que existem. Com uma hierarquia bem definida no balneário que vai dos jogadores mais influentes no grupo aos menos influentes, cabe ao jogador, enquanto treinador, manter a harmonia, utilizando os capitães para apaziguar os ânimos dos menos utilizados de forma a que a moral da equipa continue em grande e a sua performance dentro das quatros linhas seja apenas afetada pela positiva.

Cometam o erro de irritar um dos jogadores mais influentes do plantel e não demorarão muito a ter uma parte importante do balneário a convocar uma reunião convosco para dar a conhecer o seu desagrado e a mostrar solidariedade para com o seu capitão. Lidem de forma questionável com estas situações e não se espantem quando a equipa deixar de render e os jogadores vos virarem as costas, um pouco como aconteceu a José Mourinho na sua segunda passagem pelo Chelsea. Gerir o tempo de jogo de forma a manter todos felizes sem o rendimento da equipa sofrer é um puzzle que nem sempre é fácil de resolver.

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No fundo, as Dinâmicas servem para dar mais contexto a problemas de balneário que no passado surgiam quase de forma inesperada. A pedinchice por mais minutos continua a existir, mas gerir essas situações e até preveni-las é agora mais fácil, especialmente porque podemos pedir auxílio aos capitães para apoiar as nossas decisões. 

Para além da hierarquia no seio do grupo, o plantel é também dividido em diferentes grupos sociais que se revelarão importantes no momento de contratar jogadores, dando-nos uma melhor ideia do quão fácil ou difícil será a sua adaptação ao novo clube e tudo o que o rodeia. Estes grupos sociais são estabelecidos através da língua falada e do número de anos no clube, por exemplo.

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De longe a principal adição à fórmula tradicional e já bem comprovada e testada de Football Manager, a edição de 2018 traz também consigo inúmeras melhorias e aperfeiçoamentos que, embora sejam sempre bem vindos, estão longe de justificar o investimento para aqueles que compraram a iteração anterior. Mais nuances tácticas disponíveis, um mercado de transferências mais adaptado à loucura dos últimos anos, mais e melhor informação proveniente dos relatórios dos olheiros e equipa técnica relativamente a futuras contratações, futuros adversários e o boletim clínico da equipa, incluindo, por exemplo, o risco de lesão dos jogadores e sugestões para diminuir a carga de treino dão uma ainda maior robustez à experiência.

As novidades são muitas - demasiadas para enumerar neste texto sem o tornar desnecessariamente longo -, mas uma coisa é certa, não encontrarão aqui nada de absolutamente revolucionário. Como tantas vezes acontece em iterações de séries anuais, Football Manager 2018 é um refinar do que veio antes e isso poderá não ser suficiente para justificar uma nova compra.

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Também não ajuda que, em alguns casos, seja difícil perceber o real impacto dessas introduções na jogabilidade. Quando praticamente todas as instruções táticas que dou nos novos Briefings antes dos encontros resultam na mensagem “Não houve reação específica por parte dos jogadores”, é normal que comece a questionar a sua importância.

Como não poderia deixar de ser, com cada iteração da série, também o motor gráfico de Football Manager vai sofrendo sucessivas melhorias. Provavelmente não ficarão surpreendidos quando vos digo que continua longe de ser uma experiência atrativa, fazendo muitas vezes os jogadores parecer algo toscos na forma como abordam os lances, enquanto noutras situações parecem desligar subitamente o cérebro porque o jogo decidiu que era preciso que perdessem a bola naquele preciso momento. Enfim, por muitas melhorias que lhe sejam aplicadas, a representação 3D do desporto rei nesta série continuará a ser demasiada fraca e não demorará muito até que decidam regressar ao bom velho 2D.

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Com vários melhoramentos aqui e ali, mas sem grandes novidades substanciais, Football Manager 2018 fixa-se como mais uma boa iteração de uma série que não precisa de fazer muito para continuar a ser uma obra de excelência no género. A funcionalidade Dinâmicas dá uma maior importância à gestão do plantel fora das quatro linhas e as restantes introduções ao jogo oferecem ainda mais opções para personalizar e enriquecer a nossa vida de treinador digital, contudo, não existe aqui o suficiente para justificar uma nova compra e o abandonar do igualmente excelente Football Manager 2017.