por - Apr 29, 2019

Forager – Análise

Forager faz o jogador voltar ao seu mundo graças ao constante despertar da sua curiosidade. Praticamente desde o primeiro momento com a obra de Mariano Cavallero, mais conhecido como HopFrog, somos convidados a descobrir os segredos do que está à nossa volta e imediatamente a expandir os horizontes. É também um jogo que vai renovando o nosso interesse ao apresentar novos processos.

Começamos com uma picareta e uma mochila. O objectivo, como já estarão a adivinhar, é extrair recursos, criar itens, explorar os cenários, descobrir novos recursos e repetir o processo com moldes cada vez mais interessantes. Pode parecer repetitivo e é um facto que passarão muito do tempo, especialmente nas primeiras horas, a usar o rato para clicar em quase tudo, mas a verdade é que o jogo raramente se apresenta como um andar em círculos.

A estrutura de Forager permite que haja esta diversão. Podem melhorar a vossa picareta, tal como a espada e a pá. Se a espada serve para obviamente lidar com os inimigos, a pá serve para extrair matéria-prima do solo. Continuem a investir na espada e chegarão à Demon Sword, que não só inflige 250% mais dano nos inimigos, como tem uma hipótese de atacar com bolas de fogo. Antes, a Crystal Sword tinha-me dado a oportunidade de atacar também recursos além dos inimigos.

No momento em que cheguei a nível 65 – o máximo neste momento – e em que comprei todas as terras disponíveis, tinha também uma pá chamada Robotic Shovel (escava uma área enorme de cada vez e aumenta ainda a hipótese de extraírem itens raros), e ainda a última picareta: conhecida como Demon Pickaxe, explode aquilo em que toca e inflige quase mais 400% de dano. Forager chegou a um ponto em que um movimento da pá escavava mais de metade de uma ilha e em que um ataque com os outros itens provocava uma explosão memorável.

Além deste equipamento, depois de recolhidos os recursos necessários, podem também criar botas que fazem o pequeno protagonista deslocar-se mais rapidamente pelos cenários e também luvas para que os movimentos manuais sejam mais rápidos. Isto aliado ao poder claramente devastador das últimas armas é a receita para que Forager tenha uma recta final muito mais acessível do que seria expectável. Aliás, perto do final estamos perante um jogo que pouco está relacionado com o início.

São mais de sessenta habilidades para aprenderem, com um ponto a ser atribuído sempre que sobem de nível. Algumas destas habilidades – divididas por campos como indústria, economia, forragear e magia – desbloqueiam a criação de novas estruturas (bancos, fábricas, centrais elétricas), outras são melhorias na experiência que se ganha, e outras permitem, por exemplo, a criação de scrolls ou de poções. Uma vez que há muita variedade, há também o trilhar do caminho mais próximo do vosso estilo de jogo, ainda que praticamente todas sejam importantes.

Pessoalmente, o mais recompensador e mais exigente é a parte da indústria. Isto porque é aqui que está a habilidade para a construção de fábricas que podem consequentemente ser usadas para a criação de plástico. O plástico é das matérias cruciais, pois é necessária para as últimas picaretas, para componentes electrónicos e para fibra de vidro – que por sua vez permite criar o Droid e, novamente, as últimas peças de equipamento. É um processo que demora, claro, mas foi francamente apressado quando descobri o quão poderosas são as centrais eléctricas.

O exemplo do plástico que vou dar é um dos mais complexos, mas que permite compreender o eixo central de Forager. Plástico precisa de petróleo engarrafado e de carvão. Para obterem o petróleo neste estado, além de terem que criar uma estação de perfuração na água, precisam de garrafas. Para as garrafas precisam de vidro e de fios. Para o vidro precisam de areia e de carvão, para o fio precisam de fibra.

Ou seja, começam por extrair a fibra do chão – que pode ser recolhida a partir sementes ou das ovelhas – e o carvão do mapa, e vão construindo passo a passo, usando os recursos e as estações necessárias, até chegarem ao plástico. Posteriormente, aplicam o plástico onde mencionei juntamente com as restantes matérias necessárias, por exemplo, Royal Steel no caso dos componentes electrónicos, e acabarão com o derradeiro equipamento do jogo: o Obliterator. Tal como está mencionado na sua descrição, usem-no para destruir tudo. E o jogo não está a brincar, porque até o próprio cenário pode ser destruído, fazendo buracos nas terras que compraram.

Este é o princípio de Forager: extrair do chão minérios e ir transformá-los para criarem equipamento, instalações, até dinheiro (moedas de ouro) pode ser obtido desta forma graças aos bancos. Contudo, tal como em Satisfactory, quando chegarem ao fim muito do processo estará automatizado. Por exemplo, a extração de minerais pode ser feita com várias Mining Rods e a construção de pedreiras. Isto liberta o jogador para explorar os novos terrenos, resolver puzzles, completar dungeons, ajudar personagens espalhadas pelos quatro cantos do mapa e até ajudarem a concluir a coleção do museu local.

Há duas questões: primeiro demorou-me pouco mais de vinte e cinco horas a esgotar o conteúdo, e segundo não há um desafio propriamente dito. Os recursos abundam, os inimigos não são difíceis, as dungeons e os labirintos resolvem-se em menos de uma hora e até os puzzles não são muito exigentes se estiverem atentos às dicas espalhadas pelos cenários. Com o equipamento certo, o jogo é fácil; com os Shrines (que garantem buffs temporários) o jogo quebra, sendo um festim de recursos como se a mensagem fosse “eis a vossa recompensa pelo vosso tempo”.

Dois exemplos concretos do que é possível fazer em duas dezenas de horas. No início podem ajudar uma personagem que pede 1000 moedas de ouro. Hesitei em ajudá-la, pois 1000 moedas é muito. Neste momento tenho 1.25 milhões de moedas. O carvão, minério importante nas bases de quase tudo é relativamente raro no início. Neste momento tenho 213 mil unidades. Até os cristais e pedras preciosas andam nos milhares no meu inventário. Forager parece ter sido pensado como uma grande celebração do género e não um jogo que precise de uma gestão muito apertada por parte de quem joga.

O único ponto onde foi preciso alguma insistência foi na obtenção de experiência entre os níveis cinquenta e sessenta e cinco, mas ainda assim não é nada que exige um grinding desmesurado. Os cenários que podem comprar podem parecer demasiado caros, mas graças à automação das moedas e a buffs que colocam as terras por metade de preço, é até relativamente fácil verem tudo aquilo que o jogo tem para oferecer.

As terras estão também divididas por vários grupos, que vão desde a erva ideal para as vacas e as galinhas andarem à solta, passando pelo deserto onde há malaguetas e cactos, e chegando ao gelo e branco da secção dedicada ao inverno. Há ainda mais dois grupos: o cemitério, onde obviamente há esqueletos que atacam – até um pedaço de equipamento retirar também essa dificuldade – e ainda a região do fogo, onde perdura o chão vermelho e onde há demónios à solta – sim, quando os matam recebem Demon Horns, obrigatórios para a criação de itens e equipamento.

Não deixa de ser algo irónico que após ter dedicado mais de duas dezenas de horas ao jogo, fique com a clara sensação que estas bases mereciam mais. O processo descrito e aplicável ao cômputo geral da obra é compulsivo e recompensador, seja a minar ou a olhar para a automação das nossas criações. Contudo, estas bases, por muito boas que sejam, mereciam mais: mais e diferentes terras com novos desafios, mais e diferentes armas e equipamento, mais e diferentes construções para fazer. Aliás, as construções podiam bem pertencer a mais campos – neste momento há apenas Industrial, Farming, Economic e Magical.

Compreendo perfeitamente que isto seja o trabalho de amor realizado por uma pessoa e sei que há mais conteúdo planeado. Mas apenas posso falar pelo que joguei e está presente no dia em que esta análise é publicada. Há outros detalhes que mereciam ser incluídos, como uma visão alargada do mapa para uma navegação mais aprimorada. E mesmo que haja a possibilidade de criar mochilas com mais armazenamento e cofres para guardar os milhares de itens, Forager só tinha a ganhar com um sistema de organização mais intuitivo. E claro que uma componente multijogador, tal como em Stardew Valley, uma das suas inspirações, vinha certamente prolongar ainda mais a sua longevidade.

Para terminar algumas palavras sobre o estilo gráfico e a sonoplastia. Não é o jogo mais bonito do mundo, mas o seu grafismo é charmoso, exibindo com orgulho uma mistura de Stardew Valley, Zelda e Terraria. Podia ser mais detalhado, contudo, no final, quando o ecrã está cheio de explosões, de efeitos, e de números com experiência, é uma forma de salvaguardar que a framerate não explode juntamente com os recursos e os inimigos que estão no mapa.

No campo da sonoplastia é bastante simples. Os temas são simpáticos, mas os efeitos sonoros, pelo menos para mim, acabam por ser cansativos quando temos metade do mapa a trabalhar para nós. Os Dings são tantos que comecei a ouvir uma melodia nos tímpanos. São meros apontamentos, mas que acabam por marcar de alguma forma a experiência, ainda que obviamente estejam longe de a danificar irreparavelmente.

Se gostam deste tipo de jogos, Forager vale a pena – valeria uma recomendação obrigatória se o preço não fosse 19,99€. Ainda assim é um prazer enquanto dura, com a principal queixa a ser que tal fundação pede mais conteúdo para ser desbravado. Recolher, explorar, construir, automatizar, plantar e manter as sementes, criar literalmente desde a raiz, Forager faz tudo isto muito bem e de uma forma tão sólida que é muito complicado parar de jogar. Cavallero fez um trabalho assinalável.

veredito

A obra de Mariano Cavallero é uma experiência francamente viciante, com o jogador a voltar vezes sem conta para descobrir os segredos das novas terras. É um videojogo que nunca complica em demasia e que, derradeiramente, tem uma recta final demasiado fácil.
8 Arte visual charmosa. Jogabilidade recompensadora e reconfortante. Novas terras para alimentar a curiosidade. Estas bases pedem mais contéudo.

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Forager

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4

Lançado originalmente:

31 December 2019