São várias as memórias que ficaram comigo de Forza Horizon 3. Há algumas semanas que ando a jogar a versão Xbox One da obra da Playground Games. Cresci habituado a dedicar várias horas a jogos de condução, como já tive oportunidade de mencionar. Forza Horizon 3 é um espécime especial. Joguei Forza antes, aliás, comecei com o primeiro jogo, tal como com o primeiro Gran Turismo - chegando a ter dois GTO LM na garagem, um em cinzento e um em amarelo. Porquê? Porque naquela altura havia um jogo para meses e quando desbloqueei tudo tinha dinheiro suficiente para estas extravagâncias.

Horizon nunca quis competir com Gran Turismo, nem sequer com a série Forza original. Forza Horizon 3 é o epítome da série, firmando o seu lugar como um dos melhores jogos de 2016, seja de condução ou não. É uma experiência de uma estirpe própria, que obviamente recomendo a todos os jogadores, mesmo que estejam a dar agora os primeiros passos no género automobilístico. Graças às suas camadas e ajustes de jogabilidade, Horizon 3 não deixa ninguém de fora, dando-lhe a oportunidade de aprender e melhorar as suas competências.

Imagens Analise Forza Horizon 3

Tal como ficaram as memórias dos Mitsubishi GTO, também ficarão várias outras lembranças deste jogo - sim, estou a falar entre outras, daquela memorável corrida contra um comboio. O Ás da Playground é ter ouvido os fãs, não lhe dando a árdua tarefa de longas travessias no deserto até chegar às provas que interessam. Assim, desde a primeira corrida, a diversão e o entusiasmo chega como um estalar de dedos, propaga-se, faz-nos regressar vezes sem conta, adiando e evitando o estagnar de processos; é um interessante repelente de revirar de olhos enquanto pensamos que temos que repetir a mesma corrida mais vinte vezes para ter o dinheiro ou a experiência necessários.

Os jogadores mais elitistas podem alegar que Forza Horizon 3 não é tão erudito como Project CARS ou Assetto Corsa, por exemplo, que é mais cultura popular do que jazz. É um prisma válido, mas isso interessa muito para o cômputo geral de avaliação da obra? Interessa quando estamos de olhos arregalados a conduzir um V10 ou um Audi Quattro a 220 km/h no meio de uma vinha? Quando os três primeiros ficam no mesmo segundo? Quando vemos os festivais crescer à conta do nosso esforço?

O jogo da Playground Games é grande, enorme. No terceiro capítulo vamos até ao continente australiano. E, ainda assim, não há grandes espaços de um enorme vazio, ou seja, não temos pela frente um cenário grande só porque sim. Não quero dizer que há eventos em todos os metros quadrados, mas não demorarão muito até encontrarem um ponto de interesse. E, convém mencionar, esses pontos de interesse são suficientemente diversificados para não estarmos sempre investidos numa corrida por voltas ou do ponto A ao ponto B.

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Lá chegaremos às corridas propriamente ditas, mas pelo caminho encontrarão - depois de alguma procura - carros escondidos em celeiros, tentarão bater limites de velocidade, participarão em drifts para bater pontuações, pararão em lugares apenas para contemplar a vista, riscarão itens da Bucket List, desfarão placas, correrão para os PR Stunts marcados com um ponto de interrogação, pois há quase sempre algo de interessante para fazer. 

É um recreio, portanto. Umas férias que farão as delícias de todos os amantes do automobilismo e não só. Somos, obviamente, um dos melhores pilotos do mundo, e estamos na Austrália para participar no Festival Horizon: pensem no Burning Man com carros. No cerne da narrativa estão os fãs, que obviamente conquistamos dando o nosso melhor nas competições em que participamos. Quando chegamos a um determinado número de fãs, podemos expandir o festival, desbloqueando novas provas e locais.

Há ainda alguns pontos que oferecem “Blueprints”, ou seja, que nos deixam dar azo à nossa criatividade, criando e partilhando as nossas criações com os outros jogadores, sendo minimamente interessante correr numa prova organizada por alguém na nossa lista de amigos. Como já tive oportunidade de mencionar, há muito para fazer, sendo uma empreitada colossal limpar o mapa. 

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Se tivesse que fazer um reparo, talvez fosse interessante remover alguns destes objetivos secundários e dar mais algum destaque aos eventos Showcase, ou seja, não falta o que fazer, mas seria proveitoso que houvessem mais peças maiores do puzzle, peças que demarcassem mais vincadamente o progresso que vamos fazendo.

Mas acreditem que entre experiência para subirmos de ranking, com créditos para comprarmos carros - não se preocupem, não demorarão muito a chegarem ao primeiro milhão, e não demorarão muito a ficar frustrados com a sorte que têm na slot machine - e com os já mencionados fãs a conquistar, Forza Horizon 3 crava os dentes porque é sempre uma emoção ver os contadores a subir e, porque para os fazermos subir, participamos em provas com uma jogabilidade quase imaculada.

O único ponto que deixa algo a desejar é o efeito rubber band. Independentemente da dificuldade dos Drivatars escolhida, ou seja, se querem adversários talentosíssimos ou se preferem uma experiência mais relaxada, por muito bem que vos esteja a correr uma prova, por muito que estejam a brilhar - e saibam que estão a ser muito melhores que a concorrência - os adversários arranjam quase sempre forma de recuperar terreno para “apimentar” as chegadas, o que em alguns casos é extremamente injusto.

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Removendo essa frustração ocasional da equação, seja nas passadeiras de alcatrão, seja no meio dos campos, da terra batida, ou até na praia, a jogabilidade é refinada, capaz de não nos deixar ficar mal nos momentos em que os reflexos chegam no último segundo. Pura e simplesmente, é um prazer conduzir estes bólides, sejam em fervorosas competições, ou escolhendo a câmara interior e simplesmente passeando ao volante de um carro que dificilmente teremos na vida real.

Forza Horizon 3 não quer ser uma obra de simulação. Se não gostam de títulos de condução arcada, o melhor é não o comprarem. Mas para os jogadores que gostam, percebi que um dos truques é misturar essa jogabilidade refinada com um ingrediente especial: não tendo medo de cair no rídiculo, a Playground entregou trechos de corrida simplesmente fenomenais.

Num salto de 200 metros, não devemos pensar que o peso do motor atrás ou à frente faria o carro desnivelar-se - isto era impossível na vida real. Um Lamborghini numa praia? Isto ficava atascado nos primeiros cinco metros. Mais um salto de 100 metros? Isto arrebentava com o fundo plano. Não, não vale a pena pensarem assim. Pensem antes que estão a correr à chuva, de noite, com um carro de tração traseira e que deixaram de ter contacto com o solo 50 metros atrás. Agora, como é que vão aterrar e agarrar carro? Têm dois segundos para descobrir.

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De certa forma, além destes momentos dentro das corridas, Forza Horizon 3 não desilude no que oferece entre as corridas. Sinceramente, alguns dos melhores momentos foi quando peguei num carro qualquer e saí para o mapa sem destino, indo ao sabor da estrada, consoante me apetecia virar na próxima rotunda ou no próximo entroncamento. Não me lembro de alguma vez ter saído e ter pousado o comando da Xbox One minutos depois.

É uma combinação, portanto, de momentos relaxados e de momentos em que roeríamos as unhas até ao sabugo se não estivéssemos com as mãos no comando. E que não se pense que a produtora dotou todos os carros com a mesma jogabilidade. Experimentem colocar, por exemplo, um R8 no meio da terra e digam-me como vos correu a experiência. Quem diz o Audi, diz o Alfa Romeo 8C ou o elusivo 33 Stradale; mas há mais: Aston Martin Vulcan. 

Como assim, não chega? E se juntarmos à lista: Pagani Huayra e o Huayra BC; o Lamborghini Centenario LP 770-4, mas também há o Veneno, Diablo, Countach, e o icónico Miura, que como foi explicado no Top Gear, levantava a frente conforme a gasolina ia sendo gasta. Um problema não muito agradável quando os condutores iam a uma velocidade elevada e descobriram que a direção não respondia.

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Mais ainda? McLaren P1? Claro que sim. E juntem-lhe o F1 GT porque sim. Até o Mercedes CLK GTR está presente - lembram-se daquele carro que voou em Le Mans em 1999? Era o CLR-GT1. Bugatti EB110 - que, por algum motivo, sempre teve um lugar especial na minha memória, talvez seja por aquele azul - ou o novíssimo LaFerrari, passando pelo já mítico Project 7 da Jaguar. E sim, o Regera já está incluído em Horizon 3.

E não estão sós. Além de o vosso Drivatar aparecer nas corridas dos outros jogadores, o que vos dá créditos mesmo sem fazer nada, são vários Drivatars com os nomes dos amigos da vossa lista que aparecem nas vossas corridas. Em termos de multijogador propriamente dito, há uma aventura online, mas ainda a possibilidade de correrem em campanhas cooperativas e, felizmente, a opção para simplesmente percorrerem o mundo online.

O multijogador está tão bem integrado, seja em termos de funcionalidades, seja em termos de latência, que demora muito pouco até estarem a competir com outros jogadores de carne e osso, ou simplesmente a explorarem o cenário um pouco menos sós. Se estiverem em sessões com jogadores desconhecidos, claro que é uma questão de sorte, mas devo atestar que a comunidade que me calhou sabe-se comportar, notando-se uma cordialidade.

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Finalmente, algumas palavras para os departamentos técnicos. Graficamente, é impressionante como um cenário tão vasto pode proporcionar ambientes, mais do que detalhados, íntimos. Estar no cockpit de qualquer carro enquanto vemos a chuva começar a aparecer no para-brisas deixa sempre um sorriso na cara, seguido da preocupação em como vamos domar o carro nas próximas curvas. E, por falar novamente em carros, a modelagem volta a ser um ponto positivo para a produtora, transmitindo sempre um amor a cada bólide e uma atenção ao pormenor inegáveis.

Os efeitos também merecem um destaque. Seja a já mencionada chuva, seja o solo, seja o mar ou as montanhas, o grandioso é conseguido trabalhando-se os pormenores. Na sonoplastia, além do trabalhar dos motores, há várias estações de rádio e uma integração desnecessária com o Groove Music. Há também uma vocalização aquém, mas felizmente não é algo que chegue a incomodar.

Imagens Analise Forza Horizon 3

Se não estiverem com vontade de ler meios Lusíadas até aqui, fiquem com a seguinte informação: Forza Horizon 3 é um excelente jogo de corridas, aliás, é um excelente jogo, ponto final. Com muito para fazer, muito para visitar e, sobretudo, com uma disposição de tudo isso assente numa plataforma que cativa a nossa estadia. É um daqueles jogos a que se regressa uma vez por dia, nem que seja para fazer apenas uma corrida. Pois, como se isso fosse possível. Horizon é um spin-off que, pessoalmente, não fica nada atrás da série original, caso não a tenha já ultrapassado.