Quem começa a jogar Forza sabe que tem pela frente um considerável empreendimento temporal. Sabe também que percorrerá pistas em variados locais, partindo numa aventura global patrocinada pela paixão da competição automóvel. Ninguém vê a luz verde a pensar que o segundo lugar é razoável - é tudo ou nada, sempre. Forza Motorsport 7 não é exceção, oferecendo-me manhãs, tardes e madrugadas a tentar subir ao lugar mais alto do pódio.

O primeiro, e talvez o maior destaque, é o modo carreira. Depois de escolher se queremos que a nossa representação como piloto seja feminina ou masculina, arrancamos com a primeira de seis divisões. Como é habitual, cada uma destas divisões é composta por várias provas, que na sua maioria estão divididas em várias corridas.

Terminar cada uma destas competições dá direito a uma maquia de SP, continuem a jogar e não demorarão muito até desbloquearem a divisão seguinte. Pode parecer um processo simples, mas na verdade, olhando para o meu percurso até desbloquear e competir na divisão mais avançada demorou-me dezenas de horas - mais de quarenta horas para ser mais preciso.

Imagens Analise Forza Motorsport 7

E como se todas estas provas não fossem suficiente, no final o jogo desbloqueia mais provas espalhadas por todas as divisões, algumas das quais claramente uma recompensa para quem dedicou tanto tempo à obra. Por exemplo, podemos competir com um Lamborghini Veneno ou com um Ferrari F40; podemos participar em 250 milhas no traçado de Le Mans ao volante de um Porsche 919, assim como em 125 milhas em Nürburgring pilotando um Honda Civic igual ao que é pilotado por Tiago Monteiro no WTCC.

Antes - muito antes -  começa a ser sentido o esforço da Turn 10 Studios para dinamizar a forma como as corridas decorrem. É verdade que o grosso das provas com os veículos mais apetecíveis está guardado para a segunda metade da carreira, mas desde a primeira divisão que não estão restritos aos carros mais enfadonhos. No fundo, torna a ser um caso de premiar com a concretização de sonhos digitais aqueles que passarem mais tempo em frente ao ecrã.

Isto faz com que a motivação de continuar a voltar ao jogo seja omnipresente, algo enaltecido pela diversidade dos carros, das pistas e obviamente das competições propriamente ditas. Além das propostas mais tradicionais, há testes um-contra-um, e alguns desafios mais “alternativos”, como ultrapassar um determinado número de carros antes de ser mostrada a bandeira axadrezada, passar entre pórticos espalhados pela pista e derrubar pinos de bowling com o carro até alcançarmos a pontuação que o jogo quer.

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Mesmo nas competições mais tradicionais, há a tal variedade já mencionada. Como há provas restritas a uma determinada classe, isso significa que terão que competir com veículos que vão desde os utilitários a carros de turismo, passando por Hot Rods, carros de Rally e de NASCAR. Mas há também carros de Formula E, Formula 1 clássica (McLaren ou Ferrari) e Formula 1 moderna (está disponível o Renault de Nico Hülkenberg na última divisão). E não menos importante, há também espaço para protótipos e para alguns dos meus favoritos: P2 e P1, os carros que participam nas provas de resistência, como as 24 Horas de Le Mans.

São provas em diversos traçados - mais de duas dezenas - numa aventura automóvel composta, segundo dados da produtora, por mais de setecentos veículos. Portanto, é fácil perceber o alcance da obra. Além do já mencionado SP, participar em provas dá direito a CP, a moeda do jogo. Adicionalmente, cada veículo que entre na vossa coleção aumenta o vosso CR até passarem ao nível seguinte, acedendo assim a veículos restritos aos níveis superiores.

Ou seja, além de terem que juntar SP para desbloquear e participar em novas divisões do campeonato, há também que juntar CP para terem dinheiro para os novos carros que não são atribuídos com vitórias em determinados eventos, e ainda CR, que desbloqueia os bólides mais apetecíveis. Na prática isto representa alguma contenção na progressão e o escalonar da avalanche do conteúdo presente. 

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Forza Motorsport 7 será também conhecido pelas Prize Crates. Agora em vez de investirem o vosso dinheiro virtual em carros, o jogo disponibiliza caixas mistério onde podem tentar a vossa sorte. Neste momento, as Crates começam nos 20,000CR e podem chegar aos 300,000CR. Como o conteúdo é uma surpresa, só o conhecerão depois de as comprar e abrir. Podem receber novos carros, mas também equipamento de corrida, Badges e Mods.

Contudo, um destes pontos promete não passar despercebido - os Mods. Na sua essência são cartas que os jogadores podem usar nas corridas que o assim permitem e que aumentam a percentagem da experiência ou do dinheiro recebidos, sendo possível apostar mais que um Mod em determinada prova. A maioria destas modificações pede algo ao jogador em troca. Por exemplo, descrever curvas com a melhor trajetória, realizar ultrapassagens. Mas há outros Mods que conseguem alterar as condições da própria corrida: jogar sem o ABS, jogar apenas com a câmara interior ou sem a linha que indica a trajetória e os pontos onde devem começar as travagens.

É verdade que isto diversifica a jogabilidade, retirando muitas vezes o jogador da sua zona de conforto, mas atribuir recompensas por sorte e não por habilidade choca um pouco com o espírito da série. Neste momento, as Prize Crates são compradas com dinheiro do próprio jogo, mas paira a dúvida se a Turn 10 não abrirá as portas a microtransações pagas com dinheiro real, algo que não cairá bem à comunidade. Importa não esquecer que a versão mais barata de Forza Motorsport 7 custa 69,99€ na Microsoft Store.

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É uma distração escusada - tal como a situação com as recompensas VIP, que entretanto a Turn 10 prometeu corrigir. E é uma distração porque onde verdadeiramente interessa, ou seja, na sua jogabilidade, Forza Motorsport 7 é excelente. Há uma variedade de habilidades diferentes consoante a máquina que temos ao nosso dispôr, sendo necessário adaptar o nosso estilo de jogo incontáveis vezes enquanto vamos progredindo pela carreira.

Ou seja, evoluir até ser bom a domar o carro que temos em mãos é um processo que não garante o mesmo desfecho noutra categoria. Há uma concentração total na tarefa que temos pela frente, como demonstram as encadeadas de Silverstone, Suzuka ou Circuito das Américas; as grandes rectas de La Sarthe antes de pousar o pé no travão e ganhar a confiança para que o carro não fugisse enquanto reduzia dos mais de 300 km/h atingidos.

Há quase sempre um desafio e uma aprendizagem. Sabemos com que carro podemos ficar pendurados nos travões, com que carro é que podemos fazer curvas longas antes da traseira começar a ceder à física. Forza Motorsport 7 foi pensado e afinado até ao ínfimo pormenor para que a jogabilidade fosse responsiva sem ser sempre o mesmo procedimento.

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Pode parecer uma parede intransponível, mas na verdade é um simulador que não deixa ninguém de fora, não sendo apontado apenas para os mais experientes, como Assetto Corsa ou até mesmo Project Cars 2. Há vários parâmetros de dificuldade e de ajuda que podem ser ajustados. Desde a Inteligência Artificial dos Drivatars às assistências que querem ligadas, passando pela linha virtual que indica onde travar e que trajetória seguir. E como é habitual, há - caso queiram - a funcionalidade que permite rebobinar a ação na pista sempre que algo corre mal.

Algumas das pistas que já mencionei estão entre as três dezenas de traçados presentes no jogo. Ainda assim, importa dedicar mais algumas linhas a uma dupla que me continua a assombrar - Dubai e Rio de Janeiro. São exemplos perfeitos para descrever designs em que a mínima falta de timing estraga a secção. Não são impossíveis de dominar, algo que torna evidente a recompensa de quando finalmente descrevem a volta o mais próximo possível da perfeição. Não quer dizer que nas primeiras passagens não sejam maioritariamente frustrantes, contudo, ilustram bem a essência de Forza: a dedicação melhora a prestação que têm ao volante.

Tudo isto é enaltecido pelo departamento técnico do jogo. Os motores têm uma sonoplastia diferenciadora, contudo o destaque é o grafismo, que importa dividir em vários pontos. As representações das pistas, várias presentes em reconhecidos campeonatos do mundo, são fiéis ao que habitualmente vemos na televisão. Contudo, os pontos máximos do trabalho técnico encontram-se na modelagem dos carros e nos efeitos meteorológicos.

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O destaque da modelagem está no detalhe com que os carros são replicados no jogo, especialmente quando pilotados na perspectiva do piloto, com uma das duas câmaras interiores. Fazer isto pode não ser a forma mais fácil de se manterem em pista, mas é claramente o acentuar da imersão. Os pormenores estão quase todos lá: odómetros que funcionam, relógios que mostram a hora real, escovas e espelhos que abanam com o vento, as texturas dos materiais usados em cada veículo fielmente representados, seja um Formula 1, Lamborghini, Ferrari ou Porsche. 

Finalmente, as condições meteorológicas. Não só alteram a forma como as corridas são disputadas, como sobretudo proporcionam momentos de uma beleza indiscutível. A chuva que aparece a meio de uma corrida e deixa os pingos a deslizarem pelo pára-brisas, o asfalto molhado com algumas poças e espelhado. Se a isto for aliado o sistema de iluminação, há um ambiente, uma atmosfera que acompanha os pilotos e os transporta momentaneamente para aqueles locais, fazendo-os acreditar que estão um pouco mais próximos de ser quem conduz o carro que já tiveram no poster pendurado no seu quarto.

Além do já mencionado modo carreira, há várias alternativas complementares e secundárias. Podem jogar em ecrã dividido para ver quem tem mais talento na mesma televisão, assim como recorrerem ao modo Free to Play para experimentar pistas e carros segundo as vossas próprias condições. Além de obviamente terem uma componente multijogador online que serve para competirem contra outros jogadores de carne e osso espalhados pelo mundo.

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As provas online em que participei não tiverem qualquer problema de latência, mas importa mencionar que as Ligas Online serão adicionadas “brevemente”. Outras funcionalidades que ainda não estão disponíveis são a Auction House e os eventos Forzathon, que não arrancaram com o lançamento da obra.

Estamos perante um compêndio de condução digital. Uma análise que vai longa, mas que poderia sempre incluir mais linhas sobre uma ou outra funcionalidade que os fãs vão descobrir. Por exemplo, o sistema de homologação, que não permite que um determinado carro exceda os limites da classe. Podem melhorar os carros com peças, mas não podem criar um super utilitário para competir com um supercarro.

Forza Motorsport 7, mesmo depois destas dezenas de horas, faz-me ter vontade de regressar, de tentar dominar todas as pistas de forma inequívoca; faz-me ter vontade de ficar a competir entre dilúvios ou em provas noturnas em que os faróis iluminam o mínimo possível. Espero - mesmo! - que a Turn 10 saiba gerir as Prize Crates sem danificar a economia do jogo com o envolvimento de dinheiro real. Seria uma pena, pois neste momento temos em mãos um excelente jogo de condução - um videojogo que se prolonga com o vício e a adrenalina de liderar o pelotão por entre curvas conquistadas.