Frostpunk é simplesmente fantástico. Não vale a pena estar com rodeios ou meias palavras, a nova obra dos produtores de This War of Mine é mais uma experiência de excelência que transporta o seu foco na moralidade em situações difíceis de gerir para um género diferente. Executando todos os seus elementos com a mestria e confiança de quem está na plenitude dos seus recursos, a 11 Bit Studios coloca no mercado mais uma obra merecedora da atenção de todos, sejam fãs do género em questão ou não.

Na sua essência, Frostpunk é um jogo de construção e gestão de cidades que tem lugar num apocalipse gelado que lhe confere os elementos de sobrevivência que já haviam caracterizado a obra anterior do estúdio. Com isto dito, já sabem muito daquilo que vos espera ao longo das sessões de jogo de múltiplas horas consecutivas, isto é, a construção de casas - tendas, neste caso - para abrigar a população, a exploração de recursos necessários para essas construção e o assegurar que todas as condições necessárias para a sobrevivência sejam obtidas.

Uma vez que estamos rodeados por gelo e a lidar com temperaturas negativas bem longe dos 0º Celsius, todas as civilizações são construídas e fomentadas nas redondezas de geradores gigantescos capazes de aquecer tudo o que está nas suas proximidades de forma a manter as condições de vida o mais agradáveis possível tendo em conta as circunstâncias. Para manter o gerador ativo é preciso carvão, pelo que os depósitos de carvão, juntamente com a madeira para construir as tendas de habitação, são os primeiros focos de atenção para estabelecer a população.

A eficiência de todos os processos em Frostpunk depende do número de trabalhadores que destacarem para cada tarefa. Os trabalhadores estão divididos em engenheiros e trabalhadores normais, existindo trabalhos que apenas podem ser executados por uns ou por outros. Assegurada a habitação e o aquecimento, as atenções viram-se depois para as fontes de alimento, sendo necessário estabelecer uma casa de caçadores e uma cozinha para que a comida crua possa ser transformada em refeições dignas desse nome. Como perceberão ao longo do vosso tempo com a obra, manter os habitantes saudáveis será o vosso principal desafio.

Seja o frio nos locais de trabalho mais afastados do gerador ou a fraca qualidade da alimentação, entre outros fatores, a vossa população e força de trabalho ficará muitas vezes diminuída devido a doenças pelo que a construção de um posto médico assume rapidamente uma importância vital. Depois de tudo isto estar pronto, a expansão e a melhoria das condições de vida passam a ser o vosso objetivo principal, sendo também aqui que se começa a sentir o aperto da utilização dos recursos que vão sendo amealhados e a importância de todas as nossas decisões.

Construída a Workshop, todo um leque de possibilidades é aberto ao jogadores, mas cabe ao jogador saber manter o foco sempre no mais importante, isto é, na sobrevivência da população. Importa também mencionar que as vossas decisões podem provocar descontentamento ou afetar a esperança dos cidadãos, sendo que quando estes dois fatores atingirem valores críticos um ultimato será feito e o insucesso no cumprimento do mesmo significará a vossa destituição e o fim do jogo.

Na campanha principal, o título vai dando objetivos concretos para guiar o jogador pelos seus vários sistemas, incluindo o livro de leis que podem usar para legislar a possibilidade de turnos de 24 horas em situações de emergência, a construção de edifícios para gerir o descontentamento e esperança da população como cemitérios para homenagear os mortos e Public Houses para entretenimento ou até a transformação de toda a comida crua obtida em sopa para se poder alimentar mais pessoas com menos quantidades.

Praticamente todas as leis têm aspetos positivos e negativos que terão de ponderar antes da decisão final. Estas leis, juntamente com situações pontuais de pedidos específicos de alguns membros da população, serão os principais testes à vossa moralidade através dos quais terão de descobrir até que ponto os fins justificam os meios. Um dos primeiros objetivos principais que receberão será a construção de um Beacon através do qual poderão estabelecer equipas de exploração para partirem em direção a pontos do mapa onde poderá haver sobreviventes e recursos importantes para o contínuo funcionamento da vossa cidade.

Por volta desta altura, os depósitos naturais de carvão, madeira e metal começarão a esgotar-se e terão de construir estruturas especiais para explorar o subsolo em busca de combustível para o gerador, aproveitar as árvores congeladas para as construções, assim como os depósitos de ferro para produzir metal. A eficiência da obtenção começará a aumentar, mas não pensem que as facilidades aparecerão, pois tal nunca acontecerá. A obtenção de recursos aumenta, mas a temperatura desce e com ela a necessidade de construir Steam Hubs nas ruas da cidade e aquecimento dentro de algumas construções para as manter em condições de serem utilizadas.

Obviamente, isto significa que cada vez mais carvão será necessário para manter o gerador e todos os pontos de aquecimento adicionais ativos. É indispensável que o consumo de carvão nunca exceda a taxa de obtenção do mesmo, mas como rapidamente perceberão, isso será muitas vezes um desafio impossível. Gerir as necessidades da população para se manter ativa, a sua satisfação e o contínuo funcionamento da cidade é uma tarefa hérculea que não será possível concluir sem alguns - vários! - sacríficios pelo meio.

Realizar amputações que deixam trabalhadores incapacitados de fazer precisamente isso ou deixá-los simplesmente morrer para não gastarem recursos? Colocar as crianças a trabalhar por sua conta ou colocá-las como aprendizes em postos médicos e Workshops para aprenderem com os adultos? Ceder aos pedidos da população ou ignorá-los para não colocar em perigo o futuro a longo prazo da população em favor da satisfação a curto prazo? São questões como estas que terão de responder de forma constante em Frostpunk e a resposta nunca será fácil.

Com o progresso da cidade através de novas estruturas, a subida da temperatura faz com que o jogador se sinta sempre na corda bamba, sempre inseguro com o conhecimento que basta uma queda de 20º graus na temperatura para que as suas reservas de carvão acabem, sejam forçados a fechar postos de trabalho e quase toda a população fique à mercê do frio e da fome, com muitos a não sobreviverem. Isto aconteceu-me na primeira demanda pela campanha que acabou ainda antes do final do primeiro mês, mas nunca encarei este fracasso - ou os que se seguiram - com frustração.

Não, o fracasso de Frostpunk é uma oportunidade para aprender, para recomeçar do zero, para não voltar a cometer os mesmos erros, para antecipar melhor as consequências das nossas decisões e os efeitos da descida da temperatura. Frostpunk não é para ser jogado uma vez até à vossa civilização cair e parar. É um jogo para ser recomeçado vezes sem conta, sempre em busca de fazer um pouco melhor que antes. É certo que as questões de moralidade vão sendo um pouco perdidas à medida que vamos jogando apenas para conseguir a melhor campanha possível, sem olhar a meios para tal, mas isso não impede que a experiência se mantenha cativante.

Se porventura quiserem um desafio diferente, Frostpunk conta também com campanhas secundárias - desbloqueadas através dos feitos durante a campanha principal - que oferecem diferentes objetivos do que a simples sobrevivência. Arks, por exemplo, vê-nos controlar um grupo reduzido de engenheiros à procura de preservar três estruturas, que podem conter a salvação da humanidade, de uma tempestade impiedosa que se aproxima. Começando com uma cidade num estado mais avançado que o da campanha principal e com outro tipo de ferramentas à disposição, esta campanha proporciona uma aventura com outras prioridades e dificuldades.

Frostpunk é um título para se perder horas a fio, que vicia apesar do tom deprimente que rodeia o seu conceito. Jogar Frostpunk é jogar durante horas consecutivas sem nunca sentir a passagem do tempo. Dito isto, existe um problema que podia perfeitamente ser evitado. Por algum motivo, o título inativa o teclado e o rato fora do ecrã de jogo sempre que estão a jogar, o que significa que têm de sair da vossa sessão e regressar ao menu principal se quiserem voltar a poder utilizar o vosso computador para outras tarefas. Isto servirá, talvez, para manter o jogador com atenção máxima na obra, mas é bastante inconveniente.

No que diz respeito ao departamento gráfico, o título da 11 Bit Studios é bastante bem conseguido, mesmo que devido ao facto de passarmos a maioria do tempo a ver a cidade de uma perspetiva área distante, não seja colocado com frequência destaque os pormenores das construções, da movimentação dos cidadãos pelas ruas e durante o trabalho, embora eles estejam lá. A banda sonora fria e mais marcada pelo som ambiente assenta que nem uma luva numa experiência com um tom tão melancólico e desolador.

Frostpunk é fantástico - tanto que merece que isso seja dito duas vezes no mesmo texto. Verdadeiramente Impressionante quando todos os sistemas estão em ação, a obra é uma experiência de excelência no género em que se insere. A moralidade, a pressão causada pela necessidade de manter uma população saudável e feliz em condições péssimas de vida e o efeito bola de neve que se sente quando as coisas começam a fugir do nosso controlo ajudam a transformar este título numa das melhores obra que 2018 já nos ofereceu. Deem-lhe uma oportunidade e duvido que se arrependam - mas preparem-se para muitas horas perdidas.