Com Rogue Legacy, a Cellar Door Games encontrou o merecido sucesso depois de produzir um dos melhores roguelike dos últimos anos e, discutivelmente, a obra responsável pelo ressurgimento em força desse género graças à sua renovada popularidade. Com Full Metal Furies, o estúdio canadiano com sede em Ontário tentava feito semelhante noutro género, mais concretamente com um beat ‘em up alicerçado num sistema de progressão ao estilo de um qualquer RPG.

Apesar de apenas agora chegar à consola híbrida da Nintendo, o título em questão já se encontra disponível no mercado desde janeiro deste ano e escusado será dizer que o seu lançamento não gerou, nem de perto nem de longe, a mesma celeuma que a obra anterior da produtora. Esse mesmo facto foi confirmado pela produtora em entrevista ao Destructoid e é facilmente percetível pela pouca atenção mediática que o jogo recebeu no período que antecedeu o lançamento, no momento do lançamento e após o mesmo.

Jogar Full Metal Furies todo este tempo depois é perceber exatamente porque razões a obra foi incapaz de conseguir um nível de sucesso remotamente semelhante ao de Rogue Legacy. Falta algo à sua experiência, falta aquele elemento que faz um jogo deixar de ser apenas mais um e passar a apresentar-se como algo memorável. Essencialmente, Full Metal Furies caracteriza-se pela sua competência e não pelo seu brilhantismo, sendo um título que se arrisca a perder o interesse do jogador antes de mostrar todos os seus trunfos.

Num mundo dizimado por um século de Guerra entre Titãs pela sucessão de Prometheus após a sua morte, o jogador assume o controlo das Furies, um grupo de jovens guerreiras que procura derrotar todos os Titãs e colocar um fim às batalhas por poder que vão destruindo o mundo. Composto por 4 elementos, o grupo oferece quatro classes de personagens distintas - Tank, Engineer, Sniper e Fighter -, cada uma delas com as suas habilidades específicas e a sua progressão independente, isto é, a sua árvore de habilidades e melhorias.

Como facilmente se percebe, Full Metal Furies está no seu melhor quando a experiência é partilhada por vários jogadores, cada um dos quais controlando a sua própria personagem e explorando ao máximo as possibilidades oferecidas por cada uma delas. Joguem a solo e estarão limitados à alternância entre apenas duas das quatro personagens, o que prejudica um pouco a variedade do combate. Uma vez que o dinheiro obtido durante os níveis é comum a todas as protagonistas, mas cada uma tem a sua própria árvore de habilidades, rapidamente acabam por alocar todo o dinheiro obtido nas duas personagens que mais utilizam, negligenciando as restantes.

Isto significa que é extremamente difícil manter as quatro personagens equiparadas sem que tenham de jogar os mesmos níveis mais do que uma vez, algo que nunca é recomendável na altura de manter a experiência fresca e interessante. Obviamente, este aspeto é mitigado quando se usufrui da componente cooperativa da obra, mas é um aspeto a ter em conta por aqueles que passarão mais tempo a jogar a solo. Independentemente da classe que escolherem, o combate será sempre assente num ataque básico, um ataque secundário, a possibilidade de esquivar ataques e um ataque especial, sendo que alguns destes possuem períodos de cooldown.

A variedade de inimigos, bem como o facto de alguns apresentarem escudos que apenas podem ser destruídos por determinada classe, ajudam a evitar que o combate caia na monotonia ou na repetição demasiado cedo. Ainda assim, apesar de mecanicamente sólido, o ciclo de jogabilidade da obra não resiste muito bem ao acumular das horas quando jogado a solo. Isso deve-se em parte ao facto da narrativa e as suas personagens não cativarem da forma que seria desejável e de haver poucos momentos diferenciadores na ação.

Full Metal Furies possui puzzles. Puzzles que, segundo a produtora, são uma parte tão ou mais importante que o combate. Contudo, o jogo faz um péssimo trabalho em apresentá-los como tal, transmitindo sempre ao jogador a sensação de que são apenas conteúdo acessório, um conteúdo acessório para aqueles que quiserem passar mais tempo com a obra e ver tudo aquilo que esta tem para oferecer. Só já depois de concluído o fio narrativo principal é que este elemento da obra é devidamente destacado e nesse momento muitos serão aqueles que já terão parado de jogar.

No departamento técnico, o título da Cellar Door Games utiliza de forma inteligente o contraste entre os visuais pixelizados da ação e os visuais pintados à mão dos cenários que servem de pano de fundo ao combate para entregar uma experiência esteticamente apelativa. A variedade de cenários e a utilização de um vasto leque de cor é fundamental para assegurar que a progressão do jogador encontra significado nos novos ambientes que vai conhecendo. Por sua vez, a banda sonora faz um bom trabalho em complementar a ação.

Full Metal Furies não é uma obra de fraca qualidade, longe disso, mas também não fica sequer perto de chegar aos patamares que a produtora canadiana havia conseguido com Rogue Legacy. Um beat ‘em up competente e capaz de proporcionar uma experiência cooperativa de qualidade, a obra carece de algo que a torne numa experiência memorável de recomendação indispensável. Desta forma, Full Metal Furies é “apenas” um jogo competente e não um excelente jogo.