Game of Thrones já tinha chegado à televisão, contudo, agora chega à janela digital da vossa sala, ao computador do vosso quarto ou ao telemóvel do vosso bolso com vocês na cadeira do poder. Com uma história que não presta servidão a ninguém, o primeiro episódio da adaptação da Telltale da série a videojogo é um Coliseu Romano e são vocês que votam com os vossos polegares.

Contrariamente ao que escrevi sobre Tales of Borderlands, Game of Thrones: A Telltale Series não deverá ser jogado por quem ainda não se estreou nos livros ou na série televisiva. Ainda que seja possível desfrutar de um arco narrativo interessante, são demasiados os pormenores que passarão facilmente ao lado de quem se estrear no universo de George R. R. Martin com "Iron from Ice", o primeiro episódio dos seis que compõe a primeira temporada do videojogo.

O cerne do argumento deste episódio é a House of Forrester, uma nova "casa" que vive da madeira, ou melhor, da maneira como recolhem e trabalham a matéria-prima. Tal como mostrado perto do final do episódio, a sua resistência às investidas das lâminas inimigas é assinalável e cobiçada.

Tal como já aconteceu com outras séries da produtora californiana, também aqui o episódio é contado pelos olhos de um trio de personagens: Gared, Ethan e Mira - todos com personalidades bem vincadas e diferentes. "Iron from Ice" começa com Gared e o jogador é convidado a testemunhar as suas raízes humildes. A sapiência da altura faz pairar a sua inferioridade pela sua família ser criadora de porcos - algo que é penosamente testemunhado numa cena devastadora que envolve o seu pai e a sua irmã.

Mira tem como missão garantir o apoio à sua família - e, pessoalmente, é a personagem menos desenvolvida do trio. Existe uma cena particular que contracenamos com Margaery e em que temos que ter muito cuidado com o que dizemos, porém, a profundidade nunca chega a ser o suficiente para nos apaixonarmos pela sua presença, apesar de reconhecer a sua importância para a narrativa.

Finalmente, Ethan - perdão - Lord Ethan é a personagem escolhida pelos argumentistas para tolher os jogadores com as decisões mais complicadas. De salientar que fica patente a luta constante que tem para se afirmar como líder da casa, especialmente devido à sua juventude. Não é uma variante narrativa original, contudo, é sempre algo que dá trabalho ao jogador, envolvendo-o numa luta que parecendo que não, é a sua luta pessoal naquele momento.

E acreditem, a Telltale colocou neste episódio algumas das decisões mais fraturantes dos seus jogos. Especialmente nos trechos conduzidos por Ethan não há meio termo, algo que se torna ainda mais fervente com o implacável tempo alocado para cada uma. Este procedimento torna-se ainda mais interessante quando nos lembramos que estamos perante o lançamento da temporada, ou seja, não só estamos a decidir para o momento como, provavelmente, para alguns dos restantes episódios.

Demorei aproximadamente duas horas a terminar o episódio inaugural e o cômputo geral da narrativa criada por Andrew Grant é interessante, mesmo com alguns momentos mais pálidos. Tem vários pontos altos, porém, apreciei especialmente o final que me calhou em sorte e que não adivinhei. Importa ainda mencionar que este final deixa bem patente a fibra de que é feito Ramsay Snow quando visita a nossa casa e lhe é oferecido um escudo da madeira já aqui elogiada.

O argumento é alicerçado por uma violência que condiz bem com a série televisiva onde se vai inspirar. Corpos trespassados por espadas, personagens espezinhadas por cavalos, forquilhas nas gargantas e uma cena como uma ferida, uma cena que, tal como "aquela" cena de The Walking Dead é capaz de fazer muitos jogadores desviarem o olhar do ecrã: enquanto abrimos a ferida com os comandos mostrados no ecrã, para sarar são depositados vermes no seu interior. Podia ser um videoclipe de Slipknot mas não, é apenas a Telltale a mostrar que continua a saber escrever cenas asquerosas.

Em termos de jogabilidade é um jogo que continua a tradição da Telltale, ou seja, somos convidados a participar em vários Quick Time Events, seguindo as sugestões apresentadas no ecrã, ou seja, no meu caso, que joguei a versão PC com um comando Xbox 360: movimentar o analógico na direção desejada e pressionando os botões de rosto a mando da produtora.

E está aqui o ponto mais inferior do jogo. Não a sua jogabilidade ou a discussão se é ou não um jogo. Não, o problema é que não está dividido, ou seja, a primeira parte do episódio tem muito mais ação que parte final. Aliás, lembram-se da cena mencionada em que contracenamos com Margaery? Essa secção longa é acompanhada por outra que nos remete para um diálogo com Cersei e uma terceira com Lord Tyrion.

Em termos técnicos, o estilo gráfico é uma continuação da fórmula que a Telltale já testou anteriormente, o que não desilude e torna fácil a tarefa de reconhecer rostos familiares. Como já mencionei, testei a versão PC do jogo e não tive grandes entraves técnicos pelo caminho. A sonoplastia merece nota de destaque. Desde os cânticos que abrem o episódio no acampamento à vocalização, passando por todos os sons e músicas ambientes, é um rosto visível dos valores de produção que foram colocados à disposição da adaptação.

Em súmula, tal como aconteceu há apenas alguns dias com Tales from Borderlands, a Telltale consegue outro arranque seguro de uma nova série. Game of Thrones sempre foi sobre o poder e a sua influência e sobre a família - valores que marcam presença de uma ponta à outra de "Iron from Ice". É verdade que gostaria de ver um equilíbrio maior entre jogabilidade e as secções de apenas escolhas, contudo, isso nunca chegou a colocar em causa o meu interesse no resto da temporada.