Garage é um jogo demasiado ambicioso para o seu próprio bem. O título da produtora russa Zombie Dynamics falha sobretudo em seguir uma linha de coerência entre as suas mecânicas e os temas que pretende abordar. Bastava ser um atirador competente para ser minimamente interessante e se destacar da oferta cada vez mais vasta na Nintendo eShop, da consola híbrida da casa de Mario. A vontade de uma produtora independente em se querer afirmar num mercado tão competitivo, toldou a visão que o jogo parece apresentar nos seus primeiros capítulos.

Esta obra, publicada com o cunho da tinyBuild (No Time to Explain, Party Hard, Punch Club), não nos dá nenhum contexto para a nossa personagem acordar em sobressalto na mala de um carro acidentado, na garagem de um centro comercial subterrâneo que partilha o mesmo nome do jogo. Depois da mala se abrir, após a nossa personagem espernear-se dentro do espaço reduzido do carro, deparamo-nos numa localização perto de se tornar em ruínas.

Não sabemos como lá fomos parar, nem a origem da personagem que, tal como descobrimos mais tarde, chama-se Butch. O nosso instinto de sobrevivência, ou o nosso senso comum de jogador, leva-nos a fazer dos ratos que nos atacam as nossas primeiras vítimas. Não tarda e já temos mortos-vivos, assim como algumas aberrações criadas por cirurgias plásticas na nossa lista de alvos abatidos. E à medida que esse número cresce, é-nos revelado, a conta-gotas, algumas informações sobre as ocorrências estranhas do jogo.

Butch é um traficante de droga que se vê confrontado com os resultados da sua atividade profissional. A origem da droga que vendeu veio de uma empresa de fins maléficos que tem na sua liderança um cientista louco que criou as aberrações já mencionadas. A apresentação do cientista fez-me lembrar o filme de terror do holandês Tom Six. A seguir, defronto um inimigo semelhante ao filme que levou o cineasta a ser conhecido na comunidade de cinéfilos: uma centopeia humana. Foi o momento em que eu pensei que a criatividade do jogo poderia evoluir de uma forma muito peculiar, porém estava bastante enganado quando passei de aniquilar zombies a matar soldados e seguranças que me bloquearam o caminho.

Garage é, essencialmente, um atirador que se insere no subgénero dos top down twin stick shooters. Temos ao nosso alcance uma boa variedade de arsenal, contudo não deixa de ser o habitual que já se espera poder utilizar. Da força dos nossos murros e pontapés, passamos a poder distribuir balas com uma pistola, a espalhar chumbo com uma caçadeira e a mandar tiros certeiros com uma arma de disparo automático. E esta variedade é absolutamente necessária quando começam a haver monstruosidades com características que exijam estas armas. Quando vêm zombies a correr na nossa direcção, é sempre bom ter uma arma que os pare imediatamente, como a força bruta de uma caçadeira, ou quando há militares a disparar ao longe, dá jeito ter uma M16 para os poder atingir sem que nos causem muito dano.

É fulcral estarmos muito atentos para aniquilar o que nos faz frente, principalmente à quantidade de munições no cartucho da arma que empunhamos. Temos de ter bastante precisão e termos em conta que existam balas ou cartuchos no carregador da nossa arma. Caso estejamos numa situação em que os inimigos se aproximam para nós infligir dano corpo a corpo, convém não estarmos a carregar a arma enquanto estão juntos de nós. É morte certa. Isto são conceitos que não são novos para quem joga atiradores nas suas consolas regularmente, mas em espaços tão apertados como os que Garage oferece, convém sublinhar este facto. 

Um dos problemas deste jogo russo é de ter uma lógica com a sua iluminação que não nos favorece. Um edifício em ruínas significa termos de nos movimentar entre os escombros e uma iluminação fraca. O que provoca uma dificuldade desnecessária em explorar o cenário escuro. Porém, o mais frustrante são os inimigos que ficam escondidos na escuridão se não estiverem no nosso campo de visão quando não há luz. É especialmente irritante entrar numa divisão que vemos estar iluminada, mas como os inimigos que lá estão encontram-se fora do nosso campo de visão, não nos permite ver a localização dos vários oponentes. E quando são militares é uma situação que já antevemos que terá de ser repetida, pelo menos até termos o mapa decorado após várias tentativas falhadas. 

Uma das várias valências de Garage é a sua variedade na jogabilidade. Depois de termos ação desenfreada, temos secções de ação furtiva, batalhas intensas com bosses, uma fase em que temos de fugir literalmente da morte com uma moto e resolver alguns puzzles. Apesar de variar bastante, evitando que o jogo se torne monótono, não apresenta excelência em nenhum destes elementos. 

As mecânicas de disparo são sólidas, mas a iluminação e a troca constante de abordagens instala uma certa frustração; a narrativa com inúmeros plot twists fazem-nos perder o fio à meada, embora haja um certo encanto da sua inspiração em filmes série B. A escolha de esconder inimigos sob as suas regras impostas pela iluminação acaba por fazer de Garage uma experiência frustrante, quando não precisava de o ser. Hotline Miami é uma inspiração óbvia da Zombie Dynamics para a sua obra, infelizmente não foram capazes de ir buscar o melhor que a Dennaton fez.

Tecnicamente Garage poderia ter sido bem melhor, ao compará-lo diretamente com a vaga de jogos twin stick shooter que já saíram na Nintendo Switch e à grande quantidade de títulos que já existem no mercado. Contudo, a música está de acordo com que a jogabilidade nos quer fazer sentir quando esta é repleta de ação.

Garage poderia exuberar excelência em alguns departamentos, sobretudo na jogabilidade. No entanto, falha redondamente na hora de entregar uma experiência que se quer coerente em termos de ação e narrativa. As suas constantes mudanças de abordagem não jogam a seu favor, nomeadamente, quando não fazemos ideia de como encarar uma determinada situação com tantas ferramentas que temos ao nosso dispor. Não obstante, Garage não é um mau jogo, mas um título onde se pode ver que ficou aquém das suas possibilidades.