Pedro Martins por - Jun 17, 2019

Gato Roboto – Análise

Não será de condenar quem pense que Gato Roboto é uma piada, mais uma punchline de um videojogo a pensar nos incontáveis memes que uma obra em que jogamos como uma gata pode gerar na Internet. Contudo, quem começar a jogar a obra da Doinksoft e chegar a defrontar os bosses certamente perderá a vontade de sorrir.

Inserido no popular género dos metroidvania, Gato Roboto coloca-nos então a jogar com a gata Kiki – “Kiki, the Kitty”. No início da aventura, a nave despenhou-se e Gary, o seu dono, ficou encarcerado no retorcido molho metálico. Kiki é a única salvação, feita heroína de ocasião e munida com um fato que lhe garante defesa e ataque contra os incontáveis perigos que terá pela frente.

Para surpresa de ninguém, vamos melhorando as habilidades de Kiki, desbloqueando mísseis que destroem pedras ou um duplo salto que não só tem a aparência do dash de Sonic, como permite alcançar uma altura inicialmente impensável. Mas há mais, como por exemplo a habilidade de cortar o ar rapidamente e assim evitar feixes de luz indutores de dano, uma habilidade que parece saída diretamente de Katana Zero, outra obra publicada pela Devolver Digital.

Gato Roboto funciona bastante bem porque permite a conjugação destas habilidades sem grandes quebras no ritmo de jogo. Na prática, saltar duas vezes e projectar a gata para a frente torna-se algo natural, um acto quase irreflectido enquanto exploramos as salas que se vão sucedendo a uma velocidade impressionante.

O jogo está publicado no PC e na Nintendo Switch, com o meu tempo a ter sido aplicado na versão para a consola híbrida da Nintendo. Nota-se claramente que houve o cuidado no limar dos processos até que a destreza de cada um fosse correspondida com a jogabilidade. Não sendo um título particularmente desafiante, os maiores picos de dificuldade são encontrados em alguns dos bosses.

Mas aqui é que está a reviravolta: Kiki não está sempre dentro do seu fato, havendo trechos que obrigam o jogador a pensar em como trabalhar sem o fato antes de o reaver. A destemida gata sem a sua protecção metálica é naturalmente mais ágil, conseguindo até trepar as paredes, porém, está também mais exposta, não podendo participar em confrontos diretos.

A Doinksoft foi inteligente ao incluir duas componentes que, mesmo sendo estilos de jogabilidade tão díspares, acabam não só por se complementar, mas também por diversificar a ideia que temos do jogo. Isto é alicerçado por algumas secções muito mais focadas nas plataformas do que propriamente no ataque bélico. O problema mais significativo de Gato Roboto é que tudo isto aparece concentrado, talvez demasiado concentrado.

Bastam menos de quatro horas para chegar ao final do título – longevidade que pode ser maior se resolverem explorar todos os mapas a 100%, porém, sente-se que a produtora adoptou várias ramificações da jogabilidade, mas que poderia ter ido mais além: mais habilidades para o fato, mais designs para as secções em que estamos dependentes das quatro patas e talvez um pouco mais de diversidade nas áreas.

Curiosamente, acaba por ser uma boa homenagem a Metroid. Desde a apresentação dos níveis em duas dimensões a um mapa que se assemelha às aventuras de Samus e uma banda sonora que faz lembrar outros tempos. Os mapas, a forma como se vão revelando consoante a nossa exploração, é uma boa maneira de tentar que o jogador não siga apenas um caminho e se vá aventurando.

O design dos níveis é sólido, apresentando o cuidado necessário para que os jogadores possam colocar em marcha as diferentes habilidades, sendo que a viagem fica marcada por algumas salas que podiam ser mais diversificadas, como mencionado. A questão é que tal teria que ser conseguido através do design, uma vez que Gato Roboto apresenta-se apenas com duas cores: preto e branco. Mesmo quando aplicamos as diferentes Palettes (colecionáveis que mudam ligeiramente o aspecto do jogo – uma das quais, “Urine”, ilustra a obra a azul e amarelo), o molde de duas tonalidades continua a ser verdade.

Na sonoplastia, além dos efeitos sonoros que, tal como já foi mencionado, encaixam perfeitamente na toada metroidvania, há a comunicação entre personagens num piscar de olho à era em que os jogos nos chegavam em cartuchos, ou seja, um ruído indecifrável acompanhado pelos devidos balões de texto.

Com Gato Roboto, a Doinksoft revela a compreensão do género. Mesmo com a noção de que a longevidade e a expansão de algumas mecânicas poderiam ter ido mais longe, o que está em cima da mesa é sólido. E o arco narrativo tem um final que vai muito além de Kiki e Gary, mostrando que os gatos, pelo menos na ficção, conseguem dar-se bastante bem com outras espécies animais.

veredito

A obra da Doinksoft é uma homenagem a Metroid. Compreendendo o género em que está inserido, faz mais do que o suficente e bem, contando com uma jogabilidade refinada. Fica a pena de não ter ido mais longe em alguns momentos com os seus processos.
8 Jogabilidade sólida e diversificada. História com um final surpreendente. Batalhas memoráveis contra os bosses. Podia expandir mais alguns dos processos.

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Gato Roboto

para Nintendo Switch, PC

Lançado originalmente:

01 January 2019