Não é segredo para ninguém que a Nintendo Switch tem estado em alta praticamente desde que chegou ao mercado. As vendas têm sido francamente boas e o catálogo de videojogos recebeu alguns títulos indissociáveis dos sumários de 2017. Agora, contudo, chegou ao mercado um jogo que tinha potencial para sanar uma lacuna nesse catálogo.

O jogo é Gear.Club Unlimited e a lacuna é o género de condução. É verdade que há jogos como Mario Kart, contudo, a essência da jogabilidade pertence ao domínio arcada. O jogo da Eden Games podia ser a solução para os jogadores que não têm outras plataformas e que anseiam uma experiência mais virada para uma carreira com a compra e personalização de vários bólides.

Imagens Analise Gear Club Unlimited

Há aqui uma extensa carreira que permite desbloquear novas áreas do mapa e, consequentemente, novas corridas, novas classes de carros e stands que os vendem. É o formato tradicional: tenham uma boa prestação nas corridas e são recompensados, garantido acesso a carros de marcas que deixam de ser aquilo que habitualmente podem comprar na vida real, para marcas que produziam os veículos ilustrados nas paredes dos quartos.

São estrelas que permitem desbloquear as novas corridas, contudo, sente-se claramente que o jogo não quer apenas que saltem de categoria em categoria, mas sim que usem a Performance Shop para melhorar cada carro que vão adicionando à garagem. E a própria Shop pode ser melhorada - não com estrelas, mas sim com dinheiro que vão amealhando.

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Podem aumentar o espaço propriamente dito e posteriormente comprar Workshops que servem para trabalhar vários aspectos dos carros - performance, pintura, pneus, enfim, uma panóplia de pontos que ajudam a manterem-se a par da concorrência nas corridas. Por um lado, compreende-se que isto dê alguma profundidade ao jogo fora das corridas, por outro há aqui vários campos que parecem transpostos do mercado dos dispositivos móveis.

Foi aí que Gear.Club começou a sua vida e ver opções para comprar prateleiras, bancos, bicicletas para o interior, sofás, máquinas de café, bandeiras, arcadas, etc, parece-me fora do espírito do jogo. Claro que só compra isto quem quer, mas em último caso denota que o ADN do jogo parece ter resquícios de outras práticas. Sim, nos dispositivos móveis Gear.Club é um download gratuito com compras na aplicação.

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Pegando no que verdadeiramente importa para a jogabilidade, a Mechanical Workshop serve para melhorar a caixa de velocidades ou o motor, mas importa salientar que também as Workshops podem ter o seu Rank melhorado. As peças têm vários níveis e estão dependentes do anterior - por exemplo, para instalar o Nível 6 do motor é obrigatório ter o Nível 5 primeiro, o que é compreensível. Contudo, há também a restrição do já mencionado Rank - algumas peças precisam de uma Workshop em determinado nível.

Sempre que tentarem participar numa corrida onde o IP do vosso veículo for inferior ao recomendado, aparece uma mensagem de aviso e o conselho que visitem a Performance Shop antes de competirem - chegam mesmo a ser avisados de que peça deve ser instalada para ficarem mais próximos dos níveis recomendados. Claro que podem ignorar estes avisos e competirem na mesma, uma tática que apenas resulta se tiverem a dificuldade no mínimo.

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Porém, é aconselhável que ajustem a dificuldade e sobretudo as assistências. A jogabilidade de Gear.Club Unlimited nunca chega a ser refinada ao ponto de ser um grande ponto a favor, mas com as assistências ligadas é francamente prejudicada. Há diferenças entre conduzir um Veyron e um 370Z, mas essas diferenças são demasiado esbatidas com as assistências a fazer o trabalho mais complicado.

O problema principal da jogabilidade - a maioria das corridas decorre em asfalto, mas há algumas etapas de Rally - é que usa e abusa de uma mecânica. Na prática, em vez de termos de demonstrar habilidade na forma como negociamos as curvas, o jogo mantém a aderência do carro até a traseira fugir e dar uma guinada. Sem as assistências este vício não é tão notório, mas nunca chega a ser necessária uma grande habituação de modelo para modelo.

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E isto acaba por fazer estalar uma boa porção da profundidade que era expectável em Gear.Club Unlimited. Não vou escrever que é melhor ou pior que os títulos exclusivos da concorrência, mas posso escrever que os momentos de desafio e de variedade proporcionados pela jogabilidade não foram abundantes. 

Outro factor que não ajuda a jogabilidade a afirmar-se prende-se com os traçados das pistas. Ainda que haja várias pistas onde medir forças com os adversários, não há assim tanta diversidade que permita ao jogador dedicar-se inteiramente ao seu estudo e superação. Não é por mudar de cenário que a mesma curva precisa de uma abordagem diferente.

Na prática, estas duas condicionantes ferem a disposição com que se está a tentar evoluir na carreira. É preciso haver uma motivação para lutar pelos cimeiros e desbloquear as mencionadas estrelas; é preciso que o jogador sinta - e tenha esperança - que a próxima área colocada a descoberto seja melhor que a atual ou pelo menos diferente.

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Há algumas novidades que vão sendo introduzidas, algumas questionáveis. Após as primeiras corridas, por exemplo, ficamos a perceber que há traçados em que temos uma pista que tem uma rotunda e que é obrigatório descrevê-la, fazendo a segunda metade em contramão. Não me parece a prática mais acertada, mas a Eden Games achou que seria divertido implementá-la.

Além do modo carreira, há ainda duas opções que merecem ser destacadas. A primeira são as Ligas Online. Inseridas na secção da campanha, são eventos semanais em que podemos competir pela obtenção do melhor tempo. Obviamente, quanto melhor for a vossa classificação, maior é a recompensa em League Points.

Não esperem, todavia, que isto funcione como um modo multijogador tradicional, uma vez que está mais vocacionado para ser uma versão das tabelas de liderança. Há um sistema de progresso em marcha, que recompensa também a vossa prestação com o desbloqueio de mais taças. Enquanto estão na pista é possível ver os Ghosts dos adversários, mas não, não estão a jogar diretamente contra eles.

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O multijogador mais convencional está reservado para o sofá. Em ecrã dividido e com suporte para até quatro jogadores em simultâneo, é possível medir forças com os vossos amigos e familiares. Depois do tempo que passei com esta funcionalidade, é interessante perceber que a produtora soube aproveitar de alguma forma o espírito da Switch.

Onde não souberam aproveitar a consola híbrida da Nintendo foi no departamento técnico. Já todos sabemos que a Switch não é a consola mais poderosa do mundo, mas isso não é desculpa para este grafismo. As texturas dos cenários parecem vindas de uma geração ou duas atrás, algo particularmente notório nas secções citadinas dos traçados.

A modelagem dos carros está uns furos acima, mas ainda assim não é nada de especial. A consola da Nintendo conta no seu catálogo com obras que parecem publicadas num hardware diferente quando comparadas com Gear.Club Unlimited. E o som está no mesmo patamar, incluindo um erro que fez com que o som desaparecesse do jogo - parecia que estava a participar em corridas patrocinadas pela Tesla. A resolução só chegou depois de o reiniciar.

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Gear.Club Unlimited não é muito sólido no que coloca em cima da mesa. Os traçados podiam ser mais variados, a jogabilidade mais refinada, o grafismo podia não parecer de há uma década atrás. Há várias marcas presentes: Bentley, BMW, McLaren, Nissan e até a Pagani com o seu Huayra, o que é um ponto positivo. 

Tal como tive oportunidade de escrever, os jogadores da Nintendo Switch merecem uma obra de condução em condições, uma obra que permita jogar em casa ou fora dela com dedicação, diversão e recompensa. E tudo isto sem falar no preço pedido, porque se escrever que Gear.Club Unlimited custa neste momento 49,99€, então percebem ainda melhor que os fãs merecem um jogo de condução feito a pensar apenas na consola híbrida.