Não é segredo nenhum que as indústrias do entretenimento funcionam muito ao ritmo de modas temporárias que tentam capitalizar ao máximo o sucesso de fórmulas já testadas e comprovadas. Olhe-se para Hollywood e vemos uma indústria a tentar espremer até ao tutano a apreciação de espectadores de todo o mundo pelos super-heróis com que cresceram. Olhe-se para o meio videojogável e vemos que praticamente todas as obras de grande orçamento da atualidade são jogos em mundo aberto. O que em tempos era uma raridade, um acontecimento, algo especial, é agora monótono e expectável, com a exceção a passar a regra.
Devido a esta tendência das editoras para seguirem o mesmo rumo ao invés de diversificar a oferta, o inevitável acaba por acontecer, ou seja, o mercado fica saturado e aquilo que era considerado fresco e inovador transforma-se em algo repetitivo e cansativo. A indústria dos videojogos já viu este filme no passado, seja com os tempos áureos dos Atiradores na Primeira Pessoa do final da década passada ou a saturação de jogos inspirados na Segunda Guerra Mundial e a obsessão com componentes multijogador, contudo, parece não ter aprendido a lição e caminha agora em direção ao mesmo destino com os jogos em mundo aberto.
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A Ubisoft é um dos principais culpados da situação atual, bastando um olhar rápido sob o seu catálogo para se perceber o quão raras as experiências lineares a solo se tornaram. The Division, Rainbow Six, Assassin’s Creed, Far Cry, Watch Dogs, For Honor e até Ghost Recon, todos eles são obras em mundo aberto e/ou construídas para serem jogadas com amigos online. Aliás, olhe-se para esta lista e percebe-se que as séries que não se enquadram nestes moldes foram relegadas para a obscuridade. Falo de Splinter Cell, de Prince of Persia, de Rayman ou até do mito em que se tornou Beyond Good & Evil 2.
De certa forma, Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands é o exemplo perfeito do panorama atual da indústria. Um jogo que, tal como os sinais anteriores ao seu lançamento deixavam antever, foi um enorme sucesso comercial, mas que está muito dependente das circunstâncias de quem o joga para se transformar numa obra apelativa. Como uma experiência cooperativa, estamos perante um título que rivaliza com as melhores entradas do género e é capaz de entregar dezenas de horas de diversão. Tentem jogá-lo a solo e não demorará muito tempo até à monotonia, o aborrecimento e o ciclo repetitivo da jogabilidade se instalarem por completo.
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Muito embora o jogo se esforce para não penalizar aqueles que enfrentam o seu mundo aberto enquanto lobos solitários - acompanhados por três soldados controlados pela inteligência artificial -, a verdade é que a sua estrutura e jogabilidade não se emprestam bem a essa abordagem. Wildlands tem na diversidade de estratégias e ferramentas que coloca ao dispor do jogador a sua melhor qualidade e o elemento que permite que a sua experiência se mantenha fresca ao longo de várias horas de jogo, no entanto, sem a participação de outros jogadores ou comunicação entre eles, essas opções tornam-se bastante limitadas e fazem com que as vossas abordagens aos confrontos com inimigos e à conclusão de determinados objetivos acabem por seguir sempre o mesmo padrão.
Isto deve-se, obviamente, ao facto de a inteligência artificial dos restantes soldados nunca conseguir igualar o comportamento de um jogador de carne e osso. Não quer isto dizer que a inteligência artificial seja fraca, muito pelo contrário. Os vossos companheiros são extremamente eficazes em situações de fogo aberto. O problema é que se, como eu, quiserem optar por uma estratégia mais furtiva que vos permita entrar e sair de uma área recheada de inimigos sem que a vossa presença seja detetada, então os restantes membros apresentam-se quase como um peso morto que tem como única utilidade a aplicação de Sync Shots para tiros na cabeça garantidos, habilidade que, como todas as outras, tem um período de cooldown.
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Ghost Recon Wildlands pode e deve ser jogado com amigos, pessoas com quem possam falar abertamente durante os longos períodos que passarão a conduzir ou a sobrevoar esta versão digital da Bolívia, companheiros com quem possam delinear estratégias, com quem se possam rir quando inevitavelmente alguém faz asneira e alerta os inimigos, com quem possam dividir esforços e limitar a monotonia testando ao máximo as mais audazes e diversificadas abordagens. O mundo do jogo é um recreio para os jogadores se divertirem a encontrar as mais eficientes, as mais divertidas, as mais espetaculares e as mais exigentes formas de concluir um mesmo objetivo. Retirem-lhe a componente a social e não só as opções ficam severamente limitadas, como perdem o principal elemento diferenciador do título.
Tal como em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, o mundo aberto existe para oferecer ao jogador vários pontos de abordagem às áreas recheadas de inimigos onde se encontram os objetivos. Fazendo uso dos fiéis binóculos e do drone para marcar inimigos e delinear a estratégia, as primeiras tentativas passarão quase sempre pelos ataques surpresa e silenciosos. Pessoalmente, fiz muitas vezes uso da minha Sniper para eliminar de longe os inimigos em melhor posição para detetar a minha presença, alternando entre a pistola com silenciador e a AK-47 consoante estivesse em modo furtivo ou a enfrentar os inimigos entretanto alertados.
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Ainda assim, abordagens mais audaciosas podem ser igualmente recompensadoras e divertidas, especialmente se estiverem acompanhados por amigos dispostos a encarnar o espírito de Rambo. Seja de armas em punho prontas a crivar de balas todos aqueles que surgirem pela vossa frente ou através de abordagens mais diretas, como por exemplo a utilização de helicópteros para entrar e sair de uma base inimiga para cumprir o objetivo de forma rápida ou pedindo suporte de rebeldes para atacar com morteiros a área em questão, Wildlands incentiva a experimentação e depende dela para se manter fresco, pois assim que a rotina se instala, a qualidade do vosso tempo com a obra cai a pique.
Como tantos outros jogos de mundo aberto - títulos da Ubisoft obviamente incluídos -, o novo Ghost Recon apresenta um mapa de dimensões assinaláveis e recheado de atividades secundárias para incentivar o jogador a explorá-lo ao máximo. Missões secundárias, pontos de interesse, caixas de acessórios e armas a que terão de aceder para aumentar o arsenal e equipamento à vossa disposição, ficheiros de informação adicional sobre os alvos e pontos de habilidade para gastar na extensa árvore de habilidades, enfim, não faltam objetivos para vos entreter durante a vossa estadia por terras bolivianas.
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Infelizmente, no que diz respeito às missões secundárias propriamente ditas, aquelas que nos permitem ajudar as forças rebeldes que combatem o cartel Santa Blanca, estas pecam pela sua falta de diversidade. Roubar helicópteros e aviões e travar escoltas inimigas são desafios interessantes, mas tornam-se cansativos e repetitivos quando os estão a fazer pela enésima vez. Após terem desbloqueado os diferentes tipos de apoio rebelde - Entrega de Veículos, Aluguer de Armas, Morteiro, Distração ou Deteção -, o único incentivo para a realização desta atividades prende-se com os pontos necessários para obtenção de determinadas habilidades.
Como já referi, a árvore de habilidades é extensa e serão precisas muitas horas para chegarem sequer perto de desbloqueá-la na totalidade. Dividida em secções dedicadas às armas, drone, itens especiais, capacidade física da vossa personagem e esquadrão, o jogador poderá adquirir e melhorar a sua resistência às balas e dos seus companheiros de batalha, obter visão noturna, granadas de flash, paraquedas e lança granadas, melhorar a bateria, o tempo de cooldown e o alcance do drone, entre muitas outras habilidades para lhe dar uma vantagem no terreno e um maior leque de opções através das quais poderá concluir o seu objetivo. Tendo em conta a importância da constante exploração destas habilidades, é uma pena que as atividades necessárias para as obter careçam de um maior dinamismo e diversificação.
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Enquanto atirador na terceira pessoa, Ghost Recon Wildlands é competente. Não é certamente o título com a mais refinada jogabilidade com armas do género, mas tem a qualidade necessária para oferecer tiroteios satisfatórios em que as diferentes armas transmitem de facto sensações diferentes. A inteligência artificial inimiga nem sempre é consistente, sobretudo no que diz respeito ao seu radar de deteção, mas oferece um desafio interessante, mantendo-se em movimento e procurando sempre a melhor posição para vos atacar, para além de não perder tempo a chamar reforços.
Tal como referi na minha antevisão, os primeiros minutos do título dão a entender uma vontade por parte da produtora de colocar um maior ênfase na narrativa do que aquilo que é habitual em obras deste calibre, ou seja, obras que pretendem enaltecer as pequenas histórias e momentos criados pela simbiose entre o jogador e as mecânicas de jogo. No entanto, nota-se que não é este elemento que se pretende que seja o fio condutor da experiência. Mais do que uma história com princípio, meio e fim, o jogo foca-se em estabelecer antagonistas interessantes e cativantes. Nem sempre resulta, é certo, mas foi provavelmente a decisão mais acertada para uma experiência que se preocupa muito pouco em dizer ao jogador o que deve fazer.
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Liderando a melhor equipa de forças especiais do exército norte-americano, o jogador viaja até uma Bolívia completamente dominada pelo cartel de Santa Blanca, comandado pelo imponente El Sueño e que controla o monopólio da droga em todo o continente americano, com o intuito de colocar um ponto final na impunidade com o que cartel vem atuando neste território. O governo boliviano e o seu exército olham para o lado desde que o cartel não ameace a segurança pública, enquanto rebeldes lutam para liberar o seu país das mãos de El Sueño e dos seus tenentes.
Ao longo da aventura, a nossa missão passa por obter informações relativamente a cada um dos capatazes do cartel e eliminá-los um a um de forma a fazerem lentamente o vosso caminho até ao topo da pirâmide em que assenta a hierarquia de poder dos Santa Blanca e na qual o principal antagonista é o último e mais importante alvo. Não existem muitas cinemáticas, mas o jogo faz um bom trabalho em criar um elenco de antagonistas com personalidades e motivações distintas, não tendo problemas em quebrar o tom sério da aventura com algumas personalidade mais excêntricas. É verdade que não encontrarão aqui grande voltas e reviravoltas inesperadas, mas Wildlands nunca seria o jogo indicado para uma abordagem desse género à componente narrativa.
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Mesmo com a já mencionada falta de diversidade nas atividades secundárias que preenchem o mapa, é inegável que a Ubisoft Paris construiu um brilhante mundo aberto de proporções épicas. Com um terreno acidentado propenso a horizontes extremamente belos, o grafismo é enaltecido por uma excelente versão digital da Bolívia. Ajudado por uma vegetação abundante, efeitos climatéricos notórios e utilização de cores vibrantes, o mundo aberto compensa a falta de diversidade dos seus cenários através da beleza dos mesmos, beleza essa que é apenas colocada de lado pelos ambientes urbanos mais decadentes. Por sua vez, a banda sonora, através do rádio, transporta-nos com sucesso para o continente sul-americano, embora não tenha sonoridades suficientemente variadas para captar verdadeiramente a nossa atenção, o que faz com que seja provável que passem mais tempo a ouvir a vossa própria música ou a falar com os vossos companheiros de jogo.
Em suma, Ghost Recon Wildlands é um jogo com duas facetas bem distintas. Cooperativamente, temos uma experiência de enorme qualidade capaz de oferecer vários momentos memoráveis graças à diversidade de ações proporcionada pelas suas mecânicas de jogo e que incentiva e premeia a experimentação por parte do jogador. A solo, temos um mundo aberto gigantesco recheado de atividades repetitivas e uma inteligência artificial incapaz de rivalizar com a imaginação do cérebro humano, limitando seriamente as nossas opções e levando o jogo a cair rapidamente num ritmo rotineiro. Parece-me óbvio que Wildlands foi construído para ser jogado por amigos e nesse departamento, o jogo não desilude, pelo que seria injusto avaliá-lo negativamente consoante as minhas preferências pessoais. Contudo, fica aqui a nota: quando jogado a solo, Wildlands é, na melhor das hipóteses, medíocre.

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