Bill Hicks estava sentado num café em Nashville, Tennessee. Tinha um livro na mão quando quem o atendeu lhe perguntou: Por que é que está a ler? Como o próprio mencionou no seu espetáculo de stand up, a pergunta não foi o que está a ler, mas sim a indagação do motivo que leva um ser humano a abrir um livro. Obviamente, Hicks transformou o episódio num ato de humor que me lembrei enquanto experimentava Goat Simulator, pois é essa quase injustificável estupidez que a produtora sueca Coffee Stain Studios foi beber para criar o jogo: se as respostas que obtive foram tão estapafúrdias, é difícil alcançar a insanidade que deve ter alimentado as sessões de pré-produção que levaram a este desfecho.

Não são precisos cinco minutos volvidos no jogo para qualquer um perceber que nas fileiras da produtora estão pessoas apaixonadas por videojogos. O maior gozo que se pode extrair de Goat Simulator é uma fórmula extremamente simples: o jogador pergunta o que acontece se fizer isto e a Coffee Stain responde quase sempre com um retumbante inusitado desfecho. Os participantes são convidados a deixarem preconcebimentos à porta e a experimentarem os métodos que lhes alimentam a imaginação.

Para quem ainda não conhece Goat Simulator, as vigas mestras são extremamente simples: vestem a pele de uma cabra e têm uma pequena porção de cenário aberta à exploração e interação. Os movimentos também são básicos: podem correr, saltar, investir contra tudo o que podem ver e podem usar a língua da vossa personagem para arrastarem as "presas" com vocês ou, como poderão ler mais à frente, serem arrastados pelo destinatário da vossa saliva. Existem ainda dois comandos que podem ser considerados extra: a possibilidade de abrandarem o tempo e algo peculiar: desfalecerem. Ou seja, a cabra perde as forças nas patas e deixa-se ir ao sabor dos acontecimentos.

Tudo é extremamente simples e direto, não permitindo aos jogadores terem dúvidas sobre o que têm que fazer, ou seja, o mesmo é dizer que não têm que fazer nada obrigatoriamente. O jogo tem uma lista de objetivos generalistas, como saltar acima de um determinado número de metros, assustar transeuntes ou fazer um backflip, contudo, podem atirar a lista de afazeres pela janela fora e explorarem o mundo de Goat Simulator a vosso bel-prazer, algo que suspeito será a decisão tomada pela maioria que o compre. A acompanhar a vossa liberdade criativa está um contador que vai somando pontos, algo que seria importante num título onde alguém levasse a sério a pontuação.

O mundo, ainda que de dimensões contidas, é a vossa ostra. O cenário está totalmente aberto à exploração e pejado de segredos que despoletam situações memoráveis. Se o vosso processo de assimilação for idêntico ao meu, começarão por saltar num trampolim, investir conta posto de abastecimento e assistir à sua explosão. Tentar colocar uma bola de basquetebol dentro de uma baliza. Talvez tentar subir até ao topo de uma grua e estragar festas nos quintais e colocar um fim precoce a um grupo de pessoas que parecem hipnotizadas enquanto um carro derrapa num círculo de diâmetro pré-concebido.

Quando terminei de explorar a porção do cenário que me era mais próxima, comecei a alargar horizontes e descobri alguns pontos de interesse que comprovam o tom jocoso transversal ao jogo: subir a famosa Torre das Cabras, cujo dos espécimenes reais pode ser visitado em Portugal; encontrar um local de práticas normalmente associadas ao satanismo; ou então entrar pela reprodução digital dos escritórios da produtora, destruir a propriedade, subir ao primeiro piso e experimentar Flappy Goat, um minijogo que presta homenagem à criação de Dong Nguyen.

Com alguns destes acontecimentos vão desbloqueando habilidades novas que alteram o comportamento da personagem no jogo, além da sua aparência. Por exemplo, depois de um determinado momento podem fazer cair cabras do céu, algo que é fundamental para complementarem uma das tarefas seguintes. Este tipo de virtudes esboçará um sorriso na maioria dos jogadores, todavia, aquilo que me fez soltar algumas gargalhadas foram os imprevistos: arrastar um transeunte pela língua e deixá-lo em cima de uma passadeira de exercício em movimento produz resultados hilariantes, tal como se forem vocês próprios a pisarem a passadeira.

Para prolongar a vida útil do seu título, a produtora sueca recorreu a algumas medidas mais tradicionais, como desafios específicos espalhados pelo mapa e onde, por exemplo, terão que causar a maior destruição possível dentro de uma janela temporal ou ainda pequenas estátuas de cabras que servem o propósito de serem colecionáveis e apresentarem alguma diversidade à raça do protagonista.

A concepção de Goat Simulator foi uma piada e essas raízes estão bem evidentes no produto final. Depois de ter sido coroado e ter desbloqueado uma habilidade especial, ao usá-la o jogo encravou e a personagem desapareceu. Podia movimentar-me pelo mapa com alguma dificuldade, porém, o ecrã ficou despido de protagonista e a habilidade ecoou ininterruptamente. O mais caricato é que a linha entre erro de jogo e funcionalidade é extremamente ténue, algo ainda mais acentuado quando a produtora afirmou que não iria remover alguns erros, adaptando-os a caraterísticas. Algumas horas antes, o problema foi tão grave que o jogo fechou e fui despejado no ambiente de trabalho. Quando o reiniciei fui brindando com um Achievement no Steam que premiava o primeiro crash.

A sublinhar este tipo de comportamento que pode ser encarado como incompetência da produtora ou como um adereço cómico está uma física absurda. Nada nem ninguém se comporta de acordo com a palavra "Simulador" que o jogo ostenta no título, algo de que estou convictamente convencido ser a piada principal de Goat Simulator. A cabra tem comportamentos bizarros, os humanos com quem interagem têm o comportamento de um saco de batatas com membros e até a bola de basquetebol já mencionada parece acreditar que a gravidade é um mito.

Este tipo de limitações está também espelhado na sua componente técnica: as texturas são fracas, a cenografia inexistente e as pessoas têm a densidade poligonal de uma obra publicada nos primeiros meses de vida da PlayStation 2. Explorar o cenário de jogo quase sempre esbarra em cercas ou outros adornos que nos indicam que o caminho chegou ao fim. Isto quando este términus é pautado por uma das incontáveis paredes invisíveis.

Mas o ponto a reter é que quase nenhuma destas limitações se intromete na diversão oferecida. Quem comprar Goat Simulator não estará à espera de uma Pièce de Résistance, apenas algo capaz de os transportar para um mundo insano, onde tudo pode acontecer, incluindo uma miríade de erros. Todavia, estes erros são quase sempre inofensivos, nunca servindo para frustrar o jogador. O maior problema de Goat Simulator é quando essa diversão se esgota e ficamos apenas com um pedaço de terra explorado à mão das primeiras três ou quatro horas de experimentação.

Depois de varrerem o mapa de uma ponta à outra e terem vivido os segredos e as situações caricatas que a produtora tinha na manga, há muito pouco a fazer e, consequentemente, muito pouco que nos faça regressar. É verdade que esse estado só começa a pairar sobre as vossas cabeças volvidas algumas horas, mas quando forem atingidos, dificilmente continuarão a espremer a obra à procura da ilusiva partida, da derradeira situação cômica, enfim, do último filão de entretenimento.

Goat Simulator foi concebido como uma piada cuja punchline chega hoje ao mercado. Quando muitos o condenavam com um produto sem sustento, a Coffee Stain Studios provou que existe aqui material para uma boa sessão de comédia. Muitos sorrisos, algumas gargalhadas, e um massacrar da tecla que faz a cabra balir: esta é a essência do jogo que nunca se leva demasiado a sério, como comprova a mutação de erros em funcionalidades. Ainda que alguns objetivos secundários consigam prolongar a sua vida útil, tudo o que tem para oferecer será consumido avidamente pelo jogador e esgotado em meia dúzia de horas.