Três anos depois de um excelente God of War III, a Sony volta a oferecer-nos um novo título da série para a PlayStation 3, antes de passar à seguinte geração de consolas. Nesta nova aventura, para além de conhecermos um Kratos mortal, temos ainda uma cereja no topo do bolo: um modo multijogador. Sem dúvida que não faltam ingredientes para se qualificar como um título indispensável mas, na realidade, não é assim tão simples.

A voz da titã Gaia, mãe de todos os titãs, falava-nos da história de Kratos durante o teaser de God of War: Ascension, ao mesmo tempo que nos mostrava dolorosos momentos da vida do conhecido espartano: "Muitos conhecem a lenda de Kratos. O mortal convertido em Deus que derrubou os muros do Olimpo."

Claramente uma despedida da série na PlayStation 3, a ação de Ascension começou depois de uma cinemática estilizada, de uma arte belíssima, que nos fala sobre a origem dos Deuses e dos Furias, da sua missão numa Terra de Deuses e Homens. Acorrentado com suas próprias espadas, Kratos é um prisioneiro por atrever a quebrar um pacto de sangue com um Deus, neste caso, o vingativo Ares, quando descobriu o que aconteceu com a sua família.

Como nas entregas anteriores, o arco argumental encontra-se fracionado, dividido em partes que unem um fio narrativo fragmentado que se alterna entre flashbacks e a época atual em que se situa a história. Dos personagens que vamos encontrando obtemos pedaços de informação que devem ser suficientes para acalmar a nossa sede narrativa, embora a história esta vez não tenha tanto peso como anteriormente.

Assim que nos libertamos da prisão inicial dos Furias, um misterioso informador diz-nos para nos dirigirmos a outro lugar para encontrar as respostas que procuramos. Já nos seguintes 6 ou 7 capítulos iremos apenas prosseguindo o nosso caminho e enfrentando combates atrás de combates, com pedaços de novas informações a surgir de forma a contar-nos mais sobre a história. O objetivo não é contar-nos uma história constante, mas sim em pequenos pedaços, nunca diminuindo o interesse pelo jogo graças a um ritmo intenso.

Em Ascension, temos um Kratos que parece querer saber respostas ao mesmo tempo que pretende enterrar coisas nos seus pensamentos e que deseja romper o juramento feito a Ares. Temos também as Furias enviadas para nos castigar e uma história com revelações e traições, e um espartano sempre em busca da verdade. Este Kratos, mais humano, está ansioso por saber em primeiro lugar e por se livrar dos seus fantasmas.

Não quer isto dizer que Kratos esteja mais amigável e fraco do que anteriormente. O nosso espartano continua a ser a maior besta de todo o catálogo da Sony. Kratos continua com a sua brutalidade do costume e continuamos a ver o sangue inimigo por todo o lado, combate após combate.

A jogabilidade contempla-nos com detalhes como agarrar um inimigo com uma mão e golpea-lo com a outra. Podemos usar um inimigo, golpea-lo e logo de seguida atira-lo como um projétil. Ascension continua a manter o esquema de jogo habitual, mas com algumas diferenças. Para começar, continuamos a ter a magia no R2 e as Espadas do Caos no quadrado e triângulo. No entanto, é agora o R1 que serve para agarrar os inimigos ou interagir com objetos. Já o circulo serve agora para dar um pontapé, o que serve também para desarmar os inimigos.

Potenciar as Espadas do Caos será a forma de aceder a novos combos. O sistema de batalha recupera o medidor de Ira situado na parte direita do ecrã, que irá crescendo à medida que encadeamos golpes e combos e diminuindo se estivermos demasiado tempo parados sem combater. Uma vez cheia, podemos desencadear então um Ataque de Ira ao clicar no L3 ou R3, que terá um efeito diferente dependendo do tipo de magia que tenhamos selecionado (queimar, congelar, eletrocutar, etc). Os combos aumentam se ao atacar pressionarmos o L1, adicionando o efeito das distintas magias ao nosso ataque. Logo desde o início podemos utilizar a combinação L1/Quadrado ou L1/Circulo, mas se quisermos provar ataques mais complexos teremos de desbloquear as magias primeiro.

Kratos continua com a possibilidade de controlar algumas bestas - e até mesmo bosses finais - com as suas espadas como, por exemplo, os ciclones. No entanto, agora, para eliminarmos um inimigo de tamanho considerável temos uma espécie de mini-jogo, QTE. Agora, para acabarmos com um inimigo, não temos apenas de o agarrar quando está débil, já que o mesmo pode contra-atacar com magias ou tentar agarrar-nos pelo que temos de utilizar o analógico para nos esquivar da investida. Isto termina frequentemente com cabeças abertas ao meio, onde se vê o cérebro, esqueleto e músculos das criaturas.

Já relativamente aos cenários, estes são sem dúvida os reis ao criar uma atmosfera mitológica para o jogo. A exploração sem deu alguns frutos em God of War, e Ascension não é exceção. Continuamos a ter elementos as Penas de Fénix para aumentar a magia e os Olhos de Górgone para aumentar a saúde. Também recolhemos notas e escritos com algumas pistas sobre personagens e a história.

Como em anteriores títulos da série, Ascension procura manter a fluidez da jogabilidade, o que faz com que por vezes a câmara assuma uma posição lateral. Tal acontece, por exemplo, quando entramos numa prisão, onde passamos a ver e controlar Kratos numa vista diferente.

As secções de plataformas e escalada resolvem-se como anteriormente, movendo o analógico e fazendo o personagem saltar quando necessário, embora na maioria das vezes apenas seja necessário mover o analógico para executar o movimento adequado. Outra forma de avançar é através de argolas que se encontram penduradas, com as quais podemos interagir ao pressionar o R1.

Para além de todo o combate e ação, a jogabilidade de God of War sempre acrescentou um outro elemento: puzzles. Desde mover caixas e trepar por determinadas secções, a complexidade destes não só aumentou em dificuldade como em espetacularidade. Para além do clássico esquema de mover caixas, tudo isto foi enriquecido com o Amuleto de Uróboros. Este objeto tem a particularidade de poder arranjar objetos destruídos, bem como destruir coisas. E não são coisas como simples caixas, mas sim cenários inteiros, sendo fantástico ver como Kratos reconstrói, por exemplo, uma ponte.

Ascension conta, pela primeira vez na série, com um modo multijogador. Espartanos contra troianos, num total de 8 jogadores, podem confrontar-se em 4 modos de jogos livres ou por equipas. Apesar de não ser nada de inovador, o facto de ser o mundo de God of War tem um atrativo especial que o faz parecer único, relembrando títulos como Super Smash Bros e PlayStation All-Stars Battle Royale. No entanto, aqui, os cenários têm uma grande importância. O estúdio de Santa Monica sem dúvida que trabalhou arduamente para conseguir equilibrar todos os personagens disponíveis para criação, armamento, física, tamanho, combos... todos eles bem configurados e enriquecidos à experiência do jogo à medida que se ganham pontos XP.

Tal como acontece em vários jogos multijogador do género, também Ascension conta com acesso a novas habilidades e armamento à medida que vamos subindo de nível. No entanto, fica a ideia de que este modo podia ter sido melhor aproveitado. Uma mecânica hack and slash como esta permitiria a criação de uma grande variedade de modos online, mas o estúdio optou por jogar pelo seguro. Assim, temos ao nosso dispor todos contra todos, capturar a bandeira e duelo por equipas, em confrontos de quatro contra quatro ou dois contra dois. Os mapas também não são muitos, ainda que bem construidos.

A nível gráfico, depois do fantástico God of War III, era claro que Ascension ia ter uma tarefa dificil para superá-lo. No entanto, bastam os primeiros minutos de jogo para percebermos que a PlayStation 3 foi levada praticamente ao limite neste novo jogo. Os efeitos de luz estão fantásticos, seja quando Kratos golpeia a espada ou aplica uma magia. Todo o ambiente é grande e espetacular. A fluidez e a quantidade de quadrados por segundo nos cenários e personagens é constante, sendo que o motor gráfico oferece uma elevada quantidade de texturas, efeitos de iluminação e particulas.

Constantemente a câmara adapta-se para nos mostrar enormes panorâmicas que refletem o estilo grandioso do jogo.

A nível sonoro, o jogo encontra-se totalmente em português, com atores profissionais a dar voz aos personagens. O espetro sonoro é todo ele uma sinfonia de sons como o chocar de espadas, destruição de superfícies e objetos e gritos. Destaque para os sons causados pelas magias. A música também está presente em parte do jogo e em ocasiões como o combate contra bosses finais.

Em jeito de conclusão, este regresso de Kratos à consola da Sony é uma amostra daquilo que o estúdio de Santa Monica consegue fazer. Com um aspeto gráfico de grande qualidade e novos elementos na jogabilidade, God of War: Ascension é um jogo bem conseguido e que irá agradar a todos os fãs da série. Apesar de não inovar completamente, a introdução dos elementos multijogador são outro aspeto bem-vindo, que apesar de tudo deixam um pouco a desejar.