Gran Turismo 6 é a arte do triunfo da viagem. Ao seu sabor nunca sabemos quando vamos parar, apenas o motor que nos lavra as horas e incendeia o culto do automóvel em quase todas as suas formas possíveis e imaginadas pelo homem. Kazunori Yamauchi, muito mais que produtor e executivo da série e da Polyphony Digital, é alguém que não ama tudo o que tem um motor menos do que eu ou de que vocês; Kazunori é um apaixonado virtuoso que se entrega em cada jogo produzido. Gran Turismo 6, tal como os seus antecessores, parece trazer na capa uma dedicatória a quem o comprar, pois foi produzido a pensar nas centenas horas que lhe vamos dedicar numa autêntica abolição do tempo.

O menu principal está mais arrumado, mais dinâmico e serve como uma porta mais rápida a todas as competições e funcionalidades. Além da coluna à esquerda onde podem consultar a garagem, a galeria, o estado da vossa carreira, as notificações ou acederem à Loja GT - sim, onde poderão usar Euros para comprar Créditos, têm o Online, Modo Arcada, Modo Carreira, Carros, Tunning e Manutenção, Eventos Especiais e Ferramenta. Além de estar mais estilizado, tudo está mais prático e mais fluido. Com base na minha experiência com o jogo, não demora muito até que a localização do que queremos fazer a seguir esteja impregnada no nosso quotidiano. Além disso, é possível pressionar o botão Start e aceder a um menu omnipresente. Aqui podem selecionar e afinar o carro, além de acederem às Opções do jogo, ao Manual do Utilizador ou à opção onde podem gravar o vosso progresso no jogo.

Todos os modos são satélites da vossa carreira, o grande sorvedouro de tempo e o campo onde vão poder provar, sobretudo a vocês próprios, quão preciosa é a vossa habilidade ao volante. Quem não estiver habituado à série poderá olhar para os vários escalões que compõe esta componente com um misto de desilusão e, sobretudo, de ilusão. O primeiro esgar pode apanhar pouco na retina, porém, é preciso entrar em cada uma das seis divisões - Principiante, Nacional B, Nacional A, Internacional B, Internacional A e Super - e começar a ganhar provas, escabulhar o conteúdo que cada uma oferece e aos poucos o que parecia pouco revela-se uma tarefa hercúlea. Inicialmente têm apenas o escalão Principiante aberto a participações - composto por apenas duas taças e um campeonato: Sunday, Amadora e Campeonato Principiante. No canto inferior direito algo que muitos jogadores temem e outros tantos rejubilam: a Licença Nacional B. Por cima, o Desafio Coffee Break.

A informação condensada nestes escassos eventos é um epitome da essência de Gran Turismo: Taças que se desnovelam em várias corridas, uma licença fácil mas que deixa o aviso que a sua conclusão apenas com taças de ouro vai ser um pesadelo desafiante e um dos novos minijogos que, neste caso, obriga o jogador a derrubar um número de cones antes que o relógio chegue aos 21 segundos (Ouro); 30 segundos (Prata) ou 45 segundos (Bronze). Depois de concluído tudo com a classificação máxima, não deverá haver nenhum jogador que duvide das horas que serão necessárias para multiplicar a experiência por todos os eventos de todas as divisões, nem tão pouco da perícia, cujo grau de exigência será exponencial daqui para a frente.

A cadência com que vão desbloqueando novas provas depende da vossa habilidade. Se ficarem em primeiro ganham três estrelas, se terminarem no pódio recebem duas e se simplesmente terminarem, como golpe de misericórdia, recebem uma estrela. Obviamente, além de uma maquia de créditos consoante o lugar com que viram a bandeira axadrezada. Quando tiverem reunido uma determinada soma de estrelas, uma nova licença fica à vossa disposição e, caso a completem, novos eventos caem no vosso colo. Não é um processo revolucionário, contudo, é algo que deixa sempre a sensação que estamos a progredir graças ao nosso esforço e dotes de piloto. Não será insólito se com o passar do tempo tiverem que retroceder e completar eventos mais antigos para desbloquearem aquela estrela que falta ou aqueles créditos que ficaram por receber. Novamente, não é nada que os fãs de Gran Turismo não estejam habituados, numa discussão que revolve sobre pontos opostos: Pedigree e repetição.

Com o avançar da carreira vão percebendo que a mesma explora estes pilares consecutivamente. Mais oponentes, corridas mais longas, Taças com mais provas, licenças mais exigentes e minijogos mais selectos, como por exemplo gerir um litro de gasolina numa determinada prova. Assim seja. O expandir destes alicerces nunca é demasiado penoso porque a alimentá-lo está um crescendo de desafio, o atingir da maior idade da vossa vida como piloto é quase sempre corroborada pelo explorar da evolução das vossas habilidades. Experimentei todos os Gran Turismo e nunca terminei cada carreira com a mesma habilidade com que a comecei. Além disso, existem algumas inovações que são desbloqueadas com a vossa insistência, como por exemplo as Missões que vos desafiam a ultrapassar um determinado números de adversários durante uma volta ou um trecho específico, ou as Corridas Monomarca que, tal como o nome deixa antever, coloca todos os participantes ao volante de um carro de uma determinada marca.

Com a diversidade das provas, a vossa garagem vai aumentar consideravelmente de tamanho. Não terão necessidade de comprar os mais de 1200 carros que compõe o jogo, sendo que aproximadamente 120 são novos, mas nada menos que um catálogo diversificado em vossa posse, sejam comprados por vocês ou ganhos graças ao vosso esforço em determinadas provas. Existem dois pontos que merecem ser enaltecidos. O primeiro é que agora, além de uma secção dedicada a todos os concessionários presentes no jogo, podem recorrer à ajuda da opção Carros Recomendados. O jogo é simpático o suficiente para aconselhar a compra baseada por classe, pela categoria em que pretendem competir ou um filtro que se baseia na popularidade dos carros. É verdade que nem sempre funciona em pleno, com o jogador a ter que escolher autonomamente o carro que melhor se enquadra quando, por exemplo, as limitações estão relacionadas com a cavalagem, pneus, ano de fabrico, enfim, algo mais específico. Isto leva-nos ao segundo ponto: não precisam de ganhar todas as estrelas para progredirem na campanha. Obviamente que o ideal é completarem o jogo exclusivamente com taças feitas com o metal precioso, porém, se estão a ter dificuldades numa prova, talvez o melhor seja ficar com o terceiro lugar por agora, completar alguma prova que tenha sido desbloqueada e regressar mais tarde.

Além dos carros disponíveis, é possível alterar as suas peças para obter mais alguns cavalos, uma melhor estabilidade ou quatro discos de travões que funcionem. Basta irem à secção Tunning e Manutenção e pela frente terão uma variedade com mais opções do que alguma vez necessitarão. Pneus, suspensão, transmissão, potência, carroceria, enfim, a lista é infindável e cada opção é um leque que se desdobra em mais ofertas: querem uma caixa de cinco ou seis velocidades? Uma transmissão personalizável? Pretendem um Kit de Embraiagem de Prato Duplo ou Triplo? E o eixo de transmissão é em fibra de carbono? Isto apenas numa secção. Podem optar por incluir Nitro, Kits de Turbo ou alterar o escape. E quando escolherem o que querem levar para a pista, ainda ficam a faltar as peças personalizadas, o equipamento (capacete, fatos, etc), a tinta e a oficina, onde podem lavar o carro, mudar o óleo, rever o motor, enfim, nada menos que o que têm disponível nas mãos do vosso mecânico. E melhor de tudo? Todos estes detalhes têm repercussões na jogabilidade de Gran Turismo 6.

Todas as descrições que podem ler sobre o jogo não interessam quando comparadas com a jogabilidade, o seu pulsar que, neste caso, é sempre rente às palmas das nossas mãos. O primeiro carro que comprei foi um Honda Fit RS'10 - um daqueles modelos que nunca fez parte dos posters pendurados nas paredes dos quartos dos adolescentes. Comprei-o porque me pareceu o melhor de uma lista com os piores. Um carro sem alma, sem postura, sem nada além de formas e mecânicas genéricas. Contudo, quando cruzei a meta em primeiro lugar tinha retirado alguma diversão de um carro que nunca virei a minha cabeça para acompanhar quando eventualmente me deparei com ele na rua.

Daqui para a frente foi sempre em crescendo. MiTO, S2000, um X-bow da KTM, até ao Mustang, carros preparados pela Nismo, McLAren F1, Mazda 787B - um carro que faço questão de ter na garagem há alguns anos - Lamborghini Aventador, Pagani Huayra, enfim, condensem dez anos de capas de todas as revistas dedicadas ao desporto automóvel e encontram alguns dos carros que vão fazer parte da vossa garagem. A questão não é a quantidade e diversidade dos carros, mas sim o seu comportamento. Os pontos de corda negociados a grande velocidade ou com a subtileza de Nadia Comaneci, a maneira como a suspensão funciona ou como o Aileron desafia a física e mantém a traseira do vosso carro o mais próximo possível do asfalto, ou o peso do carro a passar de um eixo para o outro: Gran Turismo 6 é uma amálgama de pormenores transformados em algo grandioso e, sobretudo, em algo que faz a diferença.

Além dos concessionários mais convencionais, têm ao vosso dispor uma secção dedicada à Vision GT. Aqui podem ver protótipos arrojados de algumas marcas de renome internacional, como a Mercedes, Audi, ou de empresas que apostam tudo na vanguarda como a Tesla. Podem ainda receber um AMG Vision GT gratuitamente - o carro está avaliado em 1,000,000 de Créditos, portanto é algo que deverão resgatar. Outras marcas são mais reconhecíveis noutros meandros do que propriamente no mundo automóvel, como a Nike ou a Air Jordan. Neste momento, se acedermos às suas propostas, somos brindados apenas com um esboço no primeiro caso e um logotipo no segundo, com a produtora a prometer um contínuo apoio no pós-lançamento.

Posso dar-vos o meu testemunho em algumas linhas que representa o espírito do jogo. Em determinada altura comprei um Mazda éfini RX-7 Type R, um carro de tração traseira que necessita de uma condução cuidadosa para o fazer chegar a algum lado. Ganhei algumas provas com ele e optei por melhorar a sua performance. Comprei peças, gastei parte dos créditos, levei-o para a pista e na primeira curva fui contra tudo e contra todos. Segunda tentativa, a mesma sorte. Terceira tentativa garantiu-me um comportamento que se a FIA estivesse a ver dava direito a uma bandeira preta. Em vez de o vender, regressei à garagem, li o que cada peça fazia, investi mais créditos onde achava que o carro precisava de melhoramento. Tornei-me a despistar. Mais afinações e ajustes. Conclusão: primeiro lugar. Todavia, o mais importante é esta viagem de altos e baixos que fiz com um carro de 1991. Gran Turismo permite essa ambivalência de prestações, escolhas e ânimos. Claro que nunca mais fui capaz de o vender.

É impressionante o apego emocional que sentimos a algo digital. O carro nunca será verdadeiramente meu, nunca o terei ao meu lado, porém, a maneira como a jogabilidade do jogo me fez evoluir as minhas capacidades, ajustando-as ao investimento e estudo necessário para transformar um pedaço de metal com demasiado poder nas rodas traseiras num vencedor, cria este tipo de simpatia que nunca passará de alguns KB num ficheiro do disco rígido da minha PlayStation 3.

Outro ponto que convém não descartar é a escolha e implementação das trinta e sete pistas responsáveis por uma centena de traçados possíveis. Claro que cada um terá o seu punhado de traçados ideias, contudo, as qualidades naturais de Silverstone, os declives de Brands Hatch ou o "inferno verde" que é Nürburgring são passadas quase a papel químico para o jogo. Isto resulta na oferenda digital das dificuldades e do gozo que os pilotos retiram dos traçados reais. Além destes casos consagrados, desfrutei imenso dos traçados citadinos em metrópoles como Madrid, Toquio ou Londres, sobretudo pela tecnicidade que apresentam. Mas é como disse: os traçados estão cá, cada jogadores elegerá os seus favoritos e os seus infernos pessoais.

Mas os outros pilotos digitais não se comportam como eu ou como vocês. A sua inteligência artificial deixa muito a desejar, com o seu comportamento a ser demasiado rígido e a obedecer a padrões determinados antes de cada corrida, ou seja, não é algo orgânico. Como se não bastasse, depois de largas dezenas de participações, começou a emergir um padrão: fiquei com a sensação clara que os adversários que vão à nossa frente abrandam consideravelmente na última volta ao circuito, como se fossem programados para deixar o jogador aproximar-se e, em muitos casos, consumar a ultrapassagem e ganhar. Se fosse bem feito, o jogador sentir-se-ia como o melhor piloto do mundo, aquele que na última volta conseguiu galgar centenas de metros e chegar à meta em primeiro. Porém, como a sensação depressa se torna num padrão, senti que esse comportamento era artificial e que muitas das vitórias não teriam sido possíveis sem a generosa simpatia da Polyphony Digital.

O comportamento errático não é o único problema. Raramente cometem um erro que se assemelhe ao que os pilotos de carne e osso fazem: piões, choques contra as barreiras, ou seja, raramente perdem o controlo da situação, mantendo a compostura de uma identidade infalível. Mesmo que esses erros prejudicassem a vida ao jogador, fazia parte do jogo, tal como tantos pilotos profissionais foram prejudicados ao longo das suas carreiras pela sua má sorte de estarem no local errado à hora errada. Pilotos que abandonaram corridas injustamente e se sagraram campões do mundo com toda a justiça.

Felizmente, não têm que competir sempre contra a inteligência artificial. Seja em ecrã dividido localmente ou através do multijogador online - que não está disponível logo no início, sendo obrigatório tirar a licença Nacional A - aqui a concorrência é mais efusiva. O online está dividido em duas secções: Salas Online e Eventos Sazonais. Neste momento, existem três provas sazonais abertas até ao dia 2 de janeiro, 2014. O resultado pretende unir a comunidade pela tentativa de registar o melhor tempo em contrarrelógio.

O grande apelo do online está sem dúvida nas suas salas. Basta um clique para estarmos à procura da que melhor se encaixa com os nossos gostos: modo (Treino/Corrida ou Corrida com Qualificação), Circuito, Tipo de Corrida (Amigável, Competitiva, Drift, Volta Livre) e um filtro extremamente peculiar: Força de Recuperação de Derrapagem e, finalmente, a zona: Tudo ou Europa/Austrália. Caso não encontrem o que procurem, podem sempre criar a vossa sala de jogo com as condicionantes que bem entenderem.

O mais importante é que em quase todas as corridas em que participei a camaradagem suplantou a sede de terminar em primeiro. O comportamento da comunidade revelou-se surpreendentemente organizado e respeitador, mesmo quando acidentalmente perdi o controlo do carro e acabei por estragar a corrida a outro jogador. Tecnicamente, nunca senti que o peso da latência danificasse a minha estadia nos servidores.

Tecnicamente, Gran Turismo 6 é capaz do melhor e do pior. Alguns cenários são vividos, resplandecentes de cores e efeitos de luz imperdíveis, interiores de carros extremamente detalhados. Infelizmente, também é capaz do outro lado da moeda: sombras com torrentes de pixéis, multidões feitas de cartão e predispostos a fazerem uma única ação. Tão depressa estamos de queixo caído com o que sessenta fotogramas por segundo conseguem fazer numa resolução de 1080p, como na pista seguinte vemos a framerate cair consideravelmente ou parte do cenário perder definição diante da nossa aproximação.

De salientar ainda o esforço feito para introduzir condições climatéricas dinâmicas, assim como inédito: o ambiente recriado em função da longitude e latitude reais da pista. Outro ponto mais curioso que útil é a recriação das constelações de estrelas com base na realidade. No campo sonoro, alguns motores têm um som diferenciador e caraterístico, enquanto outros ecoam de maneira idêntica. Ainda no campo dos efeitos sonoros, um detalhe como o chiar exagerado dos pneus começou a ganhar uma amplitude quando a sua exposição durou durante largas horas. Ainda no capítulo sonoro, uma menção para as inúmeras bandas que emprestaram as suas músicas ao jogo, continuando o que é tradição na série e o que me deu a conhecer Feeder no primeiro Gran Turismo. Todas as designações usadas em português não foram o resultado de uma tradução livre: o jogo está totalmente em português, no continuado esforço da Sony em eliminar a barreira linguística nos seus jogos.

Gran Turismo 6 tem na sua jogabilidade o seu astro maior. Refinada e requintada, é um prazer conduzir e sentir as diferenças que cada carro acrescenta, assim como as afinações de cada um. É um jogo extenso e com uma componente multijogador que funciona e ameaça prolongar consideravelmente a estadia do Blu-ray na vossa PlayStation 3. No outro espectro temos problemas técnicos que começam a ser a fadiga da série. Grafismo incongruente, efeitos sonoros caducos elevados à potência da saturação deixam algo a desejar. Como nota de rodapé, sim, as missões de exploração lunar a bordo do Lunar Rover ou o convite do Lord March para participarmos nos traçados estreitos do seu Festival Goodwood a bordo de carros como o Ferrari Dino 246 GT ou o SLS AMG GT3, ajudam a manter vivo o sonho dos que têm dificuldade em explicar aos amigos a sua paixão motorizada.