Neste momento, Gran Turismo Sport é claramente um jogo dividido em duas propostas completamente diferentes, que pedem e recompensam o jogador de formas diferentes em dois polos distintos. Quem gosta de corridas online tem aqui uma escada que promete estáveis e longos degraus; quem prefere correr com a Inteligência Artificial enquanto constrói uma carreira terá pela frente algo que se extingue precocemente.

A série da Polyphony Digital criou laços apertados com a comunidade desde que o primeiro título foi publicado na PlayStation em 1997. Gran Turismo foi um jogo que mudou a minha forma de embarcar num jogo de condução, elevando a fasquia e colocando em disco uma simulação mais próxima do que é ser-se piloto. Uma garagem enorme, incontáveis traçados à volta do Globo, testes de resistência e, claro, a carta de condução que despertou uma sensação de acreditação, validando a habilidade de cada - mais: despertando a vontade de melhorar essa habilidade.

Foram meses e meses de “trabalho” árduo arquivados num Memory Card, noites em branco a andar às voltas. Gran Turismo é indissociável das memórias que tenho dos videojogos. Passaram quase vinte anos desde então e chegou ao mercado um novo jogo, Gran Turismo Sport, levando a série até à PlayStation 4. Claro que o mundo dos videojogos mudou nessas duas dezenas anos e prova disso é que Sport é uma proposta claramente virada para o online.

Imagens Analise GT Sport

Não fazem muito sem a vossa consola estar online, até porque o progresso é gravado nos servidores da Sony. Não há uma campanha propriamente dita, ausência que não demora muito a fazer-se sentir. O modo Arcada permite corridas contra a Inteligência Artificial, em contrarrelógio, e provas de Drift. É verdade que podem ajustar vários parâmetros para personalizarem as provas, mas não é preciso grande adivinhação para se perceber que é um rastilho que não demora muito a apagar-se.

Apesar do modo Arcada ser composto por dezenas de variações de traçados - alguns dos quais vão sendo desbloqueados com a subida de nível -, a verdade é que o número de localizações é bastante menor que esse total, pois há várias variantes do mesmo cenário. Esta componente - e a que será mencionada de seguida - parecem claramente preparações para o modo Sport.

Aquilo que a Polyphony descreve como Campanha é um modo com vários testes. Lembram-se da carta de condução mencionada em cima? Gran Turismo Sport tem uma Escola de Condução, que consiste em cinquenta testes com condições apertadas e três medalhas para conquistar: bronze, prata e ouro. A obsessão pelo ouro continua presente, mas não lhe chamem Campanha.

Ainda assim, estes testes são variados e é um facto que levam os jogadores a conhecerem melhor os vários tipos de carros e várias técnicas de condução. Desde arrancar e parar num determinado espaço, a dominar as chicanes com trajectórias que tocam nos dois lados (fora e ponto de corda) da curva, até conquistar curvas em descida e em subida.

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Completei os cinquenta desafios e a parte final tem desafios díspares. Por um lado, aprendemos a entrar nas boxes e a controlar o reabastecimento de combustível, por outro temos drifting e corridas em terra. Não tenho um ódio particular às provas em rally, contudo, depois de quatro dezenas de desafios em asfalto, acreditem que serão várias tentativas até conseguirem dominar estes monstros completamente diferentes. 

A “Campanha” é ainda composta por mais duas propostas: Missões de Desafio e Experiência de Circuito. Enquanto a última é uma variação da Escola de Condução, permitindo experimentar os circuitos na sua totalidade ou sector a sector, as Missões de Desafio variam o que é proposto com uma estirpe mais alargada de situações - atingir determinada velocidade, derrubar cones e, finalmente, provas mais longas em que entra outra vez na equação o consumo de combustível e a deterioração dos pneus. Novamente, sente-se que é uma preparação que é dada ao jogador, mas falta profundidade. A solo, Sport fez-me sentir como um piloto a prestar provas, nunca como se estivesse a viver a própria vida de um piloto virtual.

A contenção da produtora continua no número de carros e de pistas incluídos em Sport. Gran Turismo 6 tinha mais de 1000 carros, este jogo tem 162. O mesmo corte pode ser visto no número de pistas: 40 - das quais apenas Brands Hatch, Suzuka, Bathurst, Interlagos, Willow Springs e Nürburgring são reproduções de pistas reais. Não há meteorologia dinâmica nem ciclo dia/noite. Com o asfalto em perfeitas condições a ser rei e senhor, as únicas alternativas são as amostras de terra batida e um parque que apresenta uma superfície molhada.

Se leram o texto até aqui é provável que pensem que Gran Turismo Sport é um autêntico falhanço. Bem, a verdade é que não é. Um jogo de condução vive obviamente da sua jogabilidade e neste departamento a nova criação da equipa de Kazunori Yamauchi é excelente. Além de ser refinada de uma ponta à outra, sentem-se as claras diferenças entre os vários carros que vamos pilotando. Isto faz com que o jogador esteja em constante aprendizagem, em constante ajuste em vez de encontrar um carro que goste e acomodar-se.

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Antes de chegar ao túnel de Dragon Trail há uma secção de várias curvas encadeadas. Passei por lá dezenas de vezes e em todas as elas percebe-se que a jogabilidade brilha na forma como distribui o peso do carro, ou seja, como coloca a física na equação. É um bom exemplo de como a desaceleração e a posição da frente do carro faz toda a diferença volta após a volta.

Estes processos de controlo do carro implementam também de forma sólida a distribuição da travagem na inserção em curva, ou seja, há traçados e carros que lidam melhor com a travagem e depois a mudança de direcção, enquanto outros aguentam a inserção em travagem. Podem parecer pormenores, mas acreditem que enaltece a habilidade de cada um, dando-lhe matéria prima para evoluir e para consagrar.

Gran Turismo Sport não é um jogo de primeiras tentativas. Ou seja, é um jogo que premeia a insistência e a experimentação onde é possível. Depois de se conhecer a pista e o carro em questão, é um jogo que instiga a persistência e a compreensão de cada centímetro do alcatrão. Isto é possível porque nunca lutamos contra a jogabilidade - o que é diferente de lutar contra o carro. A sério, experimentem o 42º teste da Escola de Condução. Um Mustang em terra batida. 

E este refinamento é ajustável durante a competição propriamente dita. Graças a uma pequena janela no HUD do jogo, além da informação sobre a corrida propriamente dita, há ajustes que podem ser feitos ao controlo de tracção, à distribuição da travagem - mais à frente ou atrás - e até diferentes opções no consumo de combustível, optando por mais ênfase na performance ou na economia. 

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Mas a estrela de Gran Turismo Sport é o seu online. Sim, podem organizar salas para competirem com os vossos amigos, mas estou a falar do Modo Sport, onde participam em corridas organizadas oficialmente. Tudo, ou quase tudo, o que fizeram até então serve como preparação para este modo, onde podem medir forças contra outros jogadores de carne e osso.

Tal como já tive oportunidade de escrever aqui, os participantes têm uma Classificação de Piloto (CP). Composta por seis categorias, E, D, C, B, A, e S, todos começamos na categoria mais baixa e vamos subindo consoante o nosso desempenho. Mas o “truque” da Polyphony é que o CP está dependente da vossa Classificação de Desportivismo (CD), que é avaliada perante a forma como respeitam a etiqueta online.

Como há a indicação no ecrã sempre que fazem algo para subir ou baixar a vossa CD, ninguém pode dizer que não sabia o que estava a fazer. Não cortar curvas e colidir com os adversários, não ignorar uma indicação para travagem e varrer a pista, enfim, saber estar em pista, respeitando as regras básicas e os restantes participantes.

Escrevi esse artigo há alguns dias e desde então tenho continuado a jogar rotineiramente Sport, ficando cada vez mais convencido que o que escrevi é válido. E essa validação chegou com o excelente matchmaking do jogo - como jogam sempre com jogadores com um estado de espírito e habilidade semelhantes a vocês, com esta seleção ficam pessoas que sabem estar na pista, melhorando ainda mais a vitalidade das corridas.

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E sim, é um estado de espírito. Podem não ser os melhores jogadores do mundo e ainda assim saberem estar em pista - o CP e o CD podem não ser iguais. Devo dizer que passei de três dezenas de corridas online e entre elas estão algumas das provas mais disputadas em que participei. Na prática, isto faz com que haja vontade de regressar, pois há uma certa confiança que não nos vamos esforçar para ser abalroados na primeira curva.

Há três corridas diárias, com os campeonatos a arrancarem dia 4 de novembro. Cada corrida começa a uma determinada hora, sendo que até esse arranque podem experimentar a pista, habituando-se ao carro e ao traçado, definindo o tempo pelo qual vão ser colocados na grelha. Importa salientar que o vosso melhor tempo é válido sempre que competirem nesse traçado, ou seja, não têm que fazer a qualificação antes de todas as provas. 

Antes de cada corrida começar têm uma curta janela de tempo para fazerem o aquecimento, ideal para relembrar todos os pontos de travagem. Algumas corridas em que competi foram decididas por menos de um segundo - fiquei a menos de um segundo do primeiro e o terceiro ficou a menos de um segundo do meu tempo final. 

O controlo do vosso desportivismo é feito também com penalizações. Além de baixar a vossa CD, apanham segundos de penalização. Podem abrandar e cumprir o castigo em pista ou continuarem a fundo e verem esses segundos somados ao tempo final, o que obviamente pode ser suficiente para vos fazer cair lugares na tabela final - ou subir, caso os pilotos à vossa frente tenham penalizações a cumprir.

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Por muitas provas que tenha feito, há sempre um nervosismo e um sentimento de culpa sempre que inadvertidamente tocamos nos adversários. Estar a liderar o pelotão é uma tarefa extremamente tensa. Saber que não se pode errar, saber que estão todos atrás de nós, com o resto do pódio a escassos metros. É uma concentração total, mas quando ganhei e quando perdi, raramente senti que o meu resultado não é condizente com a minha prestação.

Enquanto olho para as três provas que tenho disponíveis, é inevitável que a minha curiosidade não indague sobre o que será disponibilizado a seguir, esperando que haja provas de resistência com gestão de combustível e de pneus, que possa participar em corridas nocturnas. Além disso, Sport tem o dom de me deixar a contar os dias para o primeiro campeonato oficial. Mas isto são pontos de interrogação: acredito que o ênfase é tanto no online, que é por aqui que este jogo vai viver ou morrer. Tem tudo para viver, mas a última palavra será sempre da Polyphony, pois será a produtora que terá que manter os jogadores investidos.

Em todas as provas online que participei não senti qualquer latência. Mesmo quando estavam mais de vinte carros envolvidos, o jogo correu de forma suave. Aliás, a fluidez permite que haja curvas disputadas lado a lado com carros atrás e à frente. O coração quase que sai pela boca fora, mas os servidores aguentam-se bem. Porém, tenho que mencionar que durante estes dias, por duas vezes o jogo deu um erro e enviou-me para o menu da PlayStation 4. 

E por falar na consola onde foi publicado em exclusivo, o meu tempo com Sport foi passado numa PlayStation 4 Pro ligada a um televisor 4K, ou seja, tecnicamente, a Polyphony assina outro portento. A 4K HDR a modelagem dos carros é sublime, permitindo ver os reflexos, os efeitos e as sombras. O cenário também é sólido, seja a solo ou no online. 

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Já mencionei que não há tantas pistas como em Gran Turismo 6, mas ainda assim há diversidade de cenários suficiente para se contemplar o grafismo. Desde o deserto de Willow Springs a Tóquio (Tokyo Expressway), passando pelo incontornável Nürburgring, há muito para onde olhar. E os carros, desde os mais corriqueiros ao protótipos e aos Vision, foram criados com a maior atenção ao pormenor.

Na sonoplastia, há uma banda sonora eclética, com o destaque a ser o som dos motores. Não, não soam todos ao mesmo, o que ajuda ao ambiente criado. Pilotar o Jaguar F-Type, automóvel conhecido, além do excelente design, pelo som rouco do motor, é muito diferente de conduzir um Porsche. São efeitos pelos qual vale a pena colocar um bom par de auscultadores, um método que para mim sempre adicionou uma camada à imersão.

Para terminar, a apresentação é cuidada de uma ponta à outra do jogo. Seja no ecrã inicial, onde podem consultar os vários modos já mencionados, assim como aceder a paisagens onde podem fotografar os vossos carros, personalizar a aparência dos veículos no editor e trocar as milhas acumuladas por carros, alguns dos quais especiais, como o Safety Car da BMW, equipamentos e até decalques, jantes, cores e poses para o piloto.

Uma ferramenta útil é aquilo que o jogo chama O Meu Menu. Aqui podem consultar as estatísticas desde que começaram a jogar (exercícios diários, quantos quilómetros já conduziram, o vosso CP e CD, assim como o nível em que estão). É ainda possível consultar um diário com os principais marcos da vossa carreira e, não menos importante, as conquistas. Sempre que atingem uma destas conquistas são recompensados, o que ajuda a na experiência necessária para subir de nível. 

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Por exemplo, são recompensados quando jogarem 6, 24 e 100 horas. Há duas dezenas de campos onde podem atingir estes níveis. A distância conduzida, o tempo que passaram a conduzir - o que é diferente de tempo de jogo -, mas também pelas milhas que usaram, quantas vitórias, pole positions e voltas mais rápidas que fizeram no Modo Sport, e até o número de vezes que iniciaram sessão.

Isto para mencionar que há uma atenção para fazer o jogador sentir-se bem mesmo quando não está com as mãos no volante. Tantos parâmetros de consulta permitem estar sempre a par com a evolução do nosso tempo com o jogo - há um gráfico que mede os quilómetros que conduziram diariamente, semanalmente e mensalmente.

Como nota de rodapé fica a informação que Gran Turismo Sport é compatível com o PlayStation VR, permitindo conduzir em Realidade Virtual. Não pensem, contudo, que podem jogar todo o conteúdo com o capacete. Há um modo específico para o VR. É pouco, com as corridas a serem bastante limitadas, mas funciona bem, transportando para este mundo o cuidado técnico já mencionado.

Apesar de um modo a solo com pouco conteúdo e, sobretudo, sem dar grande motivação ao jogador para continuar investido, Gran Turismo Sport tem uma componente online excelente, onde as regras fazem com que cada corrida seja conquistada ou perdida sobretudo pela habilidade de cada um. A jogabilidade é refinada e afiada, e o departamento técnico oferece uma fidelidade gráfica e sonora sólida. A questão neste caso é como é que a Polyphony vai manter a comunidade investida. Se conseguir alimentar o Modo Sport com provas diárias e campeonatos interessantes, os jogadores ficarão a dedicar-lhe horas e horas e horas.