Há cerca de um ano, Grand Theft Auto V batia recordes de vendas e era visto como um sério candidato a ocupar a primeira posição das tabelas referentes às melhoras obras do ano. Chegado à PlayStation 3 e Xbox 360 depois de cerca de quatro anos sem quaisquer novidades relativas à aclamada série da Rockstar, o título fixou-se como uma das melhores experiências que as consolas, agora remetidas para um plano secundário, tinham para oferecer aos seus utilizadores.

No entanto, com as novas plataformas da Sony e Microsoft a poucos meses de serem colocadas nas prateleiras das lojas, era praticamente inevitável imaginar que, mais cedo ou mais tarde, a obra acabaria por ser lançada para as consolas da nova geração. Sem surpresas, essas teorias foram confirmadas e um ano depois do seu lançamento original, a aventura de Michael, Franklin e Trevor chegou à PlayStation 4 e Xbox One com bons argumentos para convencer os jogadores a regressar, ou estrearem-se, no gigantesco mundo de Los Santos e Blaine County.

Antes de concentrar atenções nas novidades e melhorias que as novas edições introduzem relativamente ao lançamento inicial, é importante relembrar tudo aquilo que Grand Theft Auto V fez e continua a fazer com mestria ao longo das dezenas horas de conteúdo que coloca à disposição dos jogadores. A série é muito mais que as incessantes polémicas que assinalam a chegada de cada uma das suas iterações ao mercado e a sua mais recente entrada é o exponente máximo daquilo em que esta mais brilha, ou seja, oferecer liberdade total e absoluta à pessoa que tem o comando na mão.

A narrativa de Grand Theft Auto V, embora simples e sem grandes reviravoltas, faz um bom trabalho em manter-nos investidos nos eventos da vida dos três protagonistas: Michael, Trevor e Franklin. Três personalidades distintas e complexas que ganham vida graças ao brilhante desempenho de Ned Luke, Shawn Fonteno e Steven Ogg, ajudando a estabelecer o título como a entrada da série que melhor adapta a sua história e protagonistas às sociedades decadentes e repletas de estereótipos em que se inspira.

Claro que quando estamos perante um jogo que oferece dezenas de horas de conteúdo, mais importante que a qualidade da escrita dos produtores é a diversidade das suas missões, sejam estas secundárias ou relativas à trama narrativa. Felizmente, este é o departamento que fixa a quinta entrada numerada da série como uma das melhores, senão mesmo a melhor que a Rockstar já produziu. As missões possuem doses assinaláveis de ação e envolvem uma simbiose entre tiroteios, condução e combate corpo-a-corpo, ainda que este último permaneça extremamente mecânico.

Momentos aborrecidos serão uma raridade ao longo da vossa experiência com a obra, mas se não estiverem interessados em progredir na aventura também podem ter a certeza que não terão quaisquer dificuldades em encontrar atividades para passar o tempo em San Andreas. Ténis, Triatlo, Golfe, Corridas e Caça à vida selvagem são apenas algumas das distrações disponíveis, mas rapidamente perceberão que explorar livremente o mapa de jogo oferecerá por si só uma panóplia considerável de momentos memoráveis acompanhados pela excelente banda sonora que passa na rádio durante as viagens de carro.

Falar das melhorias que as novas versões do título introduzem à experiência é praticamente sinónimo de um departamento técnico bastante mais aprimorado, não só no que diz respeito aos gráficos, mas também, e de igual importância, ao seu desempenho. A produtora norte-americana sempre primou por uma enorme atenção aos detalhes, não deixando nada ao acaso e investindo tempo e dedicação em todas as componentes para disponibilizar no mercado um produto de excelência.

Desde os modelos das personagens até aos fantásticos efeitos de luzes que mantêm a cidade de Los Santos acordada muito depois de o Sol já ter abandonado o horizonte, as melhorias visuais de Grand Theft Auto V estão longe de passar despercebidas e as texturas desenxabidas são agora algo do passado. Poderá não conseguir competir com obras produzidas de raiz para a nova geração de consolas, mas tendo em conta a gigantesca dimensão do seu mundo aberto, o trabalho da Rockstar impressiona.

Ver o reflexo das luzes néon de placares publicitários nos carros que seguem na nossa dianteira é apenas mais um lembrete que o poderio das novas consolas está nestes pequenos detalhes, mas que têm um impacto enorme na construção de um mundo que se quer o mais aproximado da realidade possível, aliando a isso, como é óbvio, as caricaturas exageradas da sociedade americana. É também importante destacar uma framerate visivelmente mais estável nos 30 fotogramas por segundo, muito embora esta nunca fosse um problema assinalável nas edições originais.

Apesar das consideráveis melhorias técnicas implementadas no título, estas raramente são suficientes para justificar uma segunda aquisição da mesma obra. Com isso em mente, a Rockstar aproveitou a estreia da série na nova geração de consolas para introduzir uma das funcionalidades mais desejadas pelos jogadores em entradas anteriores, ou seja, a possibilidade de explorar o vasto mapa de Los Santos na primeira pessoa ao invés da habitual perspetiva na terceira pessoa.

Jogar como Michael, Franklin e Trevor na primeira pessoa é um método completamente diferente daquele com que fomos inicialmente presenteados e esse é o melhor elogio que pode ser feito a esta nova funcionalidade. Basta premir o Touchpad do DualShock 4 para alterarem rapidamente a perspetiva em que se encontram e desfrutar de uma refrescante, mas igualmente agradável e competente, visão sobre a jogabilidade de Grand Theft Auto V.

A nova perspetiva coloca-nos indubitavelmente mais próximo da ação e, mais importante que isso, das suas consequências. Nunca antes na série ficaram tão patentes a violência e a destruição causada pelo jogador no ambiente que o rodeia e também nos transeuntes que caminham tranquilamente pelo passeio sem saber que estão a meros segundos de serem ceifados por um veículo a alta velocidade a tentar fugir ao trânsito. Ver o terror na face dos mesmos quando têm uma arma apontada à cabeça é marcante no pior sentido da palavra.

Ainda assim, esta funcionalidade não serve apenas para demarcar as ações atrozes que cometemos durante as longas sequências e oferecer uma maneira de encarar o combate e a condução, servindo também para realçar mais uma vez a atenção aos detalhes por parte da produtora. É interessante estar a caminho de uma missão e ver Trevor sentado ao nosso lado no lugar do passageiro, ver a enorme atenção conferida às linhas das mãos dos protagonistas e também os detalhes nas diversas armas de fogo disponíveis. No entanto, nada supera explorar o mundo subaquático de San Andreas na primeira pessoa.

Ao contrário do que aconteceu com o lançamento original, Grand Theft Auto Online chegou às novas plataformas juntamente com a campanha para oferecer mais algumas horas de conteúdo. A ideia base da componente multijogador do título é interessante e não faltam possibilidades para os jogadores se divertirem através de partidas Deathmatch, Sobrevivência, Corridas, sendo inclusivamente possivelmente utilizar o editor para criarem as vossas próprias missões.

Infelizmente, a execução, mesmo um ano depois do lançamento inicial, continua a deixar bastante a desejar. Encontrar jogadores suficientes partilhar missões é muitas vezes uma árdua tarefa e também não são raras desconexões súbitas dos servidores. Por isso, se não tiverem um grupo considerável de amigos com quem partilhar a experiência online que o jogo tem para oferecer, provavelmente não retirarão grande proveito desta ambiciosa, mas problemática componente. Adicionalmente, os tão desejados Assaltos cooperativos permanecem desaparecidos em combate.

Grand Theft Auto V é uma excelente obra que consegue elevar ainda mais a fasquia de qualidade a que a Rockstar nos tem habituado. As novas edições são meios válidos para experienciar pela primeira vez a obra, apresentando novidades e melhorias suficientes para justificar uma segunda aquisição. Jogar na primeira pessoa garante por si só uma nova maneira de reviver a história atribulada do trio memorável de protagonistas. É pena que Grand Theft Auto Online não tenha correspondido totalmente ao potencial que lhe era apontado.